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A CONCEPÇÃO DE UNO NA OBRA ENÉADAS DE PLOTINO


 

LEPH - Revista Me Conta Essa História Dez. 2020 Ano I Nº 012 ISSN - 2675-3340 UFJ.

 

Por Eduardo Rodrigues Santana

 

RESUMO


O trabalho é uma tentativa de compreender como Plotino, em sua filosofia, concebeu um Uno inefável, razão de ser de toda a Unidade e causa primária da existência do conjunto e do múltiplo, sendo este potência de todas as coisas. O resultado do estudo e a análise do problema serão desenvolvidos em quatro partes: num primeiro momento será apresentado o contexto histórico que procura enfatizar o ressurgimento do Platonismo em Alexandria, a partir do século I a.C., e a sua passagem para o Médio-Platonismo, com características e teses diferentes do Velho Platonismo da Academia, principalmente pelas propostas de Filo de Alexandria e Amônio de Sacas, que deu origem ao Neoplatonismo; num segundo momento, será apresentado uma síntese das teses principais do Neoplatonismo, do qual Plotino foi o grande representante; em seguida serão tratadas as teses principais desse que é considerado o maior dos neoplatônicos; por fim, aparecerá o tema central do trabalho que é a apresentação de algumas considerações sobre a concepção de Uno em Plotino

Palavras-chave: Neoplatonismo. Plotino. Enéadas. Uno. Deus.

 

INTRODUÇÃO


Um dos movimentos filosóficos mais significativos da Antiguidade foi o neoplatonismo, assim denominado por beber na fonte da teoria platônica. Enquanto em Atenas, a Academia enfraquecia, fora de Atenas, precisamente em Alexandria o platonismo, com características em grande parte diversa da proposta original do grande Platão, ganhava reconhecimento.


Sendo assim, a partir da segunda metade do Século I a.C., o platonismo de maneira lenta, mas progressiva e constante, continuou a difundir-se e a fazer crescer a sua própria consciência e incidência até culminar na grande síntese plotiniana que amadureceu no Século III d.C. e que abriu um novo curso, tanto para o pensamento pagão quanto para o cristão.


Esse trabalho é uma tentativa de apresentar a analisar o surgimento desse grande movimento filosófico e das contribuições do seu maior representante, Plotino, principalmente a tese sobre o Uno, que tanto contribuiu para o desenvolvimento de uma espiritualidade nova.


O resultado do trabalho será apresentado em quatro partes: a primeira parte apresentará o ressurgimento do platonismo na cidade de Alexandria, a partir do século I a.C., com Filo de Alexandria (25 a.C. – 40 d.C.), que aparece com características que estão a meio caminho do antigo platonismo, formulado por Platão e dos seus imediatos sucessores, transformando-se em um médio-platonismo, do qual serão apresentadas as principais teses, sobretudo as de e Amônio de Sacas (175 – 242), grande responsável para o desenvolvimento do Neoplatonismo de Plotino (205 – 270) e seus seguidores; num segundo momento será abordado de modo sintético o Neoplatonismo, do qual Plotino é considerado o grande representante; em seguida serão tratadas as teses principais desse que é considerado o maior dos neoplatônicos; por fim, aparecerá o tema central do trabalho que é a apresentação de algumas considerações do Uno de Plotino, na obra Enéada, e que contribui para o aparecimento e desenvolvimento de uma nova concepção espiritual e ética nos anos seguintes


1- O surgimento do Neoplatonismo


1.1. A contribuição de Filo de Alexandria


Segundo Nicola Abbagnano[1], Filo de Alexandria (25 a.C. – 40 a.C,) constitui-se em um personagem que, com linguagem de hoje, poderemos definir “de ruptura”. Ele se encontrou a passagem de duas épocas e de duas culturas; não foi imune a uma série de contradições (indevidamente ampliadas por alguns estudiosos), as quais botaram, sobretudo, do fato de ter expressado ideias novas em muitos casos com termos velhos e pelo fato que as ideias novas que quis impor derivavam de uma tradição e de uma mentalidade muito diferente (e, em certos aspectos, antiética) da cultura helênica, da qual ele extraiu o seu léxico e os seus instrumentos conceituais. Todavia, além dessas contradições, a “ruptura” da qual falávamos é evidente quase em todas as páginas da sua conspícua obra.


Filo de Alexandria nasceu na cidade de Alexandria, entre o ano 25 e 30 A.C. Judeu helenizado, vive entre o encontro de trës civilizações: o judaísmo, a cultura helenística e o império romano. Com se vê, Filo nasceu onde havia uma presença cultural extremamente diversificada.[2]


Reale[3] afirma que Alexandria era a cidade que, mais do qualquer outra, se encontrava exposta ao influxo do oriente, seja por razões geográficas, seja, também, porque mais suscetível a eles por razões espirituais, culturais e sociais, por conta da diversidade de extratos étnicos e, portanto, de formação e de mentalidade da sua população. Em Alexandria tiveram lugar as mais notáveis tentativas entre o espírito racionalista tipicamente helênico e as instâncias orientais, que eram, ao invés, de natureza tipicamente religiosa e mística. Entre as várias correntes da filosofia grega, duas eram particularmente idôneas para garantir a mediação entre o racionalismo helênico e a religiosidade e o miticismo: o pitagorismo e, sobretudo, o platonismo. São justamente essas duas filosofias, exatamente em Alexandria, que começaram a ressurgir.


O ambiente particular não teria, contudo, bastado para produzir a grandiosa tentativa de fusão entre teologia bíblica e filosofia helênica, se não tivesse existido, como já dissemos, um homem como Filo, nutrido de ambas as culturas, profundamente convicto, seja da excelência da primeira, seja do caráter insubstituível irrenunciável da segunda, e, ademais, hebreu até as raízes, e, ao mesmo tempo caloroso admirador dos gregos. Nenhum grego, de fato, teria podido sentir naquele tempo a necessidade de tentar qualquer tipo de mediação entre as duas concepções da realidade. E, sobretudo, nenhum grego teria tido a possibilidade de enfrentar o tirocínio necessário para adquirir as categorias do pensamento hebraico, e, em particular, para compreender, a partir de dentro, a fé hebraica que esta em sua raiz, além de obviamente todas as categorias do pensamento helênico[4].


A idéia de Filo é levar e apresentar o judaísmo ao pensamento grego culto. Copm essa intenção, ele procura justamente fazer aquilo que o cristianismo realizará através da patrística, alguns anos mais tarde. No entanto, com uma percepção alegórica da bíblia, ou seja, entendia-a não literalmente, mas como repositório de uma sabedoria sagrada, intuitiva.


O centro do sistema filoniano, segundo Reale[5], é constituído por um sentimento e por uma concepção de Deus radicalmente nova com relação à precedente tradição grega. Segundo o comentador, Filo afirmava que Deus é inacessível às nossas interpretações; podemos, no entanto, através da renúncia às coisas transitórias e a um recolhimento da alma, nos aproximar de seu filho primogênito, o Logos, aquele que foi feito primeiro. A esse Logos é que se deve a criação do mundo; ele é a atividade intelectiva da divindade e o intermediário entre Deus e os homens; ele é a imagem de Deus, sendo, por isso, inferior a Deus em tudo. Contudo, para Filo, a existência de Deus é compreensível, enquanto a sua essência, ao contrário, é incompreensível para o homem.


O fato de que a existência de Deus seja compreensível para Filo, nem todos os homens conseguem compreendê-la, ou nem todos chegam a isso de maneira adequada. Os ateus não conseguem compreendê-la e negam a existência de Deus. Os agnósticos, além de não compreenderem, não conseguem decidir se Deus existe ou não. Filo afirma:

Compreendem mal a existência de Deus, ao invés, os supersticiosos, os quais, em vez de fundarem-se sobre o uso sadio do raciocínio, confiam-se indiscriminadamente (ou seja, a criticamente) às tradições. Ademais a compreendem mal os que pretendem explicar todas as coisas com a ciência física e acabam por identificar Deus com o mundo, ou seja, os panteístas[6].

Segundo Reale[7], Filo também afirma que a compreendem mal os que põem o mundo como incriado, acabando desse modo por admirá-lo mais que o criador e por admitir a existência de um Deus inativo. Por fim, ainda compreendem mal a existência de Deus os politeístas que introduzem uma quantidade de deuses masculinos e femininos, velhos e jovens, e que, portanto, não compreendem a ideia do ser uno,o único a existir verdadeiramente. Contra todos esses, Filo pronuncia juízos muito severos. Em particular, Filo define os ateus como os que levam o primeiro prêmio na corrida da impiedade, e os chama de “castrados” enquanto privados da essencial noção do criador de todas as coisas, tornando-se, por conseqüência, incapazes de gerar sapiência.


A forma que Filo aduz em favor da existência de Deus, tem caráter cosmológico e teológico, e são todas derivadas da tradição filosófica grega, particularmente de Sócrates e de Aristóteles. Nesse sentido, Reale cita Filo:

É impossível que exista em ti um intelecto disposto de modo de ter a função de cabeça, a qual obedece toda a comunidade dos órgãos do corpo e a qual se submete cada um nos sentidos é que, ao invés, o cosmo, que é a obra mais bela, maior e mais perfeita e da qual todas as outras coisas se conceitue simples partes, seja sem soberano que o tenha unido e o governe com justiça. E seu soberano é invisível, não deve admirar-te. Nem mesmo o intelecto que existe em ti é visível. O que se reflete sobre estas coisas, tentando explicá-las sem partir de longe, mais de perto, de si mesmo e das coisas que lhe estão ao redor chegara de modo claro a conclusão de que o cosmo não é o primeiro Deus, mas que a obra do primeiro Deus e pai de todas as coisas o qual, mesmo sem ter Ele mesmo forma, torna visíveis todas as coisas, pequenas ou grandes, e torna manifestas as naturezas. Não considerou digno deixar se compreender pelos olhos do corpo, talvez porque não seria coisa santa que um ser mortal tivesse contato imediato com o eterno, talvez também por fraqueza de nossa vista. De fato ela não teria podido acolher a luz que prover do Ser, pois não é nem mesmo capaz de olhar diretamente os raios do sol[8].

Como podemos ver, para Filo, nesta passagem citada pelo comentador italiano, Deus transcendente não é só o ser e o mundo sensível, mas também os entes e o mundo inteligível, na medida em que, como veremos adiante, é o criador de um e do outro. Portanto, Deus é fonte de toda a realidade; não está em parte alguma e ao mesmo tempo está em toda parte, preenche tudo de si e tudo contém. A transcendência ontológica de Deus, segundo Abbagnano[9], comporta, necessariamente, também a sua transcendência gnosiológica, tornando-o incognoscível ao homem e, por conseqüência, tornando também inefável, ou seja, inexprimível e não designável com nomes. Mais tarde essa idéia terá grandes influências no âmbito da filosofia pagã: e uma destas grandes influências será na obra Enéadas de Plotino.


Nesse sentido, Reale[10] vai mostrar que, juntando os elementos pitagóricos e platônicos, se vê que, desde o século VI a. C., há uma visão de mundo, em que se conjugam a busca pelo sagrado e a especulação filosófica, ou seja, no mesmo período em que se desenvolvia o naturalismo racionalista, se desenvolvia os sistemas filosóficos transcendentes; portanto, esse fato não foi algo que surgiu posteriormente, mas sim algo anterior, que permaneceu durante o processo e que no período helenístico, principalmente após o século II d.C., ganha um espaço maior, através do processo de interações culturais com uma série de religiões e filosofias orientais, entrando em contato com estas porém sem perder as características básicas.


Enfim, o que une todos os pensadores desta época é, de um lado, seu fundo místico, sua afinidade com Platão, cujas teses espiritualistas favoreciam aquele fundo religioso, permitindo racionalizá-lo.


1.2. Características gerais do médio-platonismo


Para Reale[11] o médio-platonismo recupera o supra-sensível, o imaterial e os transcendentes e rompem nitidamente as partes com o materialismo dominante há muito tempo nas escolas filosóficas. O fundamento do sensível e do corpóreo é novamente indicado como supra-sensível e no imaterial, ou melhor, no incorpóreo, e o componente metafísico-teológico da filosofia (justamente no sentido platônico-aristotélico) não só é recuperado, mas até mesmo posto em primeiro plano. Segundo o comentador, conseqüência lógica da segunda navegação foi a reproposição da teoria das idéias que, como se sabe, representa o êxito mais significativo daquela. Assim, os médios- platônicos não só retomaram essa doutrina, mas (pelo menos alguns deles) a retomaram a fundo, buscando integrar a posição assumida por Platão com posição aristotélica. Eles consideram as idéias no seu aspecto transcendentes como pensamentos de Deus (o mundo inteligível é identificado com atividade e com conteúdo da suprema inteligência), e no seu aspecto imanente como formas das coisas. À transformação da teoria das idéias seguiu-se, por lógica conseqüência, uma paralela transformação da concepção de toda a estrutura do mundo incorpóreo, com conquistas que claramente anunciam o neoplatonismo.


Ainda segundo o comentador italiano[12], sem duvida, o texto que os médios- platônicos consideram ponto de referência e do qual extraíram o esquema para o repensamento da doutrina platônica foi Timeu. Com efeito, na difícil tarefa de reduzir a filosofia platônica a sistema e na tentativa de fazer uma síntese dela, o Timeu era o dialogo que oferecia a trama mais sólida. O comentador chama a inda a atenção para um ponto interessante de se observar, a propósito, que os médios-platônicos seguiram perfeitamente um método oposto ao dos peripatéticos dessa época: os primeiros consideraram que o melhor modo de conhecer Platão era compendiá-lo; os segundos, ao invés, consideraram que o melhor modo de conhecer Aristóteles era comentá-lo. Assim, enquanto o comentário prevaleceu quase exclusivamente entre os aristotélicos, o compêndio, como parece, prevaleceu entre os médio-platônicos, embora muitos tenham sido, especialmente, no Século II d.C., os comentários dedicados aos diálogos platônicos.


O sentimento religioso que, em alguns, beirou o verdadeiro misticismo, levou os médio-platônicos a dar um notável relevo a doutrina dos demônios (gênio mediadores entre os homens e as divindades, em grego), tão antiga quanto o pensamento grego. A acentuação da transcendência de Deus e do divino com relação ao homem e ao mundo físico tornava necessário “mediadores”, e, justamente como mediadores entre Deus e o homem os médio-platonicos valeram-se dos demônios. Ademais, valeram-se deles também para justificar as crenças pagãs. Enfim, os fortes interesses religiosos levaram alguns a reavaliar a sapiência oriental em geral e, como se encontra nos escritos de Plutarco, em particular a egípcia, lembra o comentador.[13]


Contudo, afirma ainda Reale[14], para os médio-platonicos, assim como para os filósofos da era precedente, o problema ético permaneceu predominante, mas foi reposto e fundado de modo novo. Para todas as escolas helenísticas a palavra de ordem tinha sido “Segue a natureza (physis)” e, essa natureza tinha sido entendida de modo materialista e imanentista. A nova palavra de ordem dos médio-platonicos foi, “segue a Deus”. A redescoberta da transcendência devia, logicamente, modificar pouco a pouco toda visão da vida proposta pela ética helenística. Justamente na assimilação ao divino transcendente e incorpóreo os médio-platonicos, concordemente, reconheceram a autentica cifra da vida moral.


1.3. A contribuição de Amônio Sacas


Amônio Sacas nasceu em torno de 175 d.C., filho de pais cristãos que tentaram educá-lo na fé. Desde muito jovem, ele foi influenciado pelo extremo dogmatismo que caracterizava o vociferante movimento cristão de Alexandria. Desgostoso com as tendências supersticiosas permitidas por numerosos devotos cristãos, ele mergulhou na análise filosófica da antiga religião helenística. Ao contrário de muitos intelectuais da época, Amônio voluntariamente trabalhava para sustentar-se, e enquanto a tradição vulgar sustenta que o sobrenome "Sacas" seja derivado de sua ocupação como carregador de sacos, seu nome poderia igualmente ser tomado no sentido de "escudo de Amon". Sua busca de um entendimento da natureza das coisas foi nutrido pela convicção de que o indivíduo deveria praticar as verdades que aprendesse em todos os contextos caso objetivasse compreendê-las completamente.[15]


Reale[16] afirma que a devoção aos seus estudos levou-o a uma profunda apreciação do ensinamento de Platão, e ele encontrou ali um espírito de questionamento que se ajustou ao seu interesse em descobrir uma filosofia universal. Sua meditação persistente sobre estes ensinamentos abriu caminho para que recebesse descobertas iluminados através de sonhos e visões.

Com propriedade, Hiérocles[17] chamou-o de Theodidaktos, "ensinado por Deus", pois ele fundia uma mente vigorosa com uma intuição desperta. Esta combinação emprestou tamanha claridade e força à sua compreensão de Platão e apreciação de Pitágoras que ele foi reconhecido amplamente como o fundador do Neoplatonismo. Para Reale[18], este movimento insuflaria uma vida nova nas Academias Alexandrina e Ateniense e encorajaria os estudantes a viver a vida filosófica ao invés de apenas discuti-la, e dentre estes estudantes estava Plotino, que veremos neste trabalho.


Depois de um longo período de retiro para estudo e meditação, Amônio estabeleceu uma escola de filosofia em Alexandria, em 193 d.C. Ele ensinava oralmente e, invariavelmente, recusava confiar seu pensamento à forma escrita. Giovanni Reale lembra que Porfírio escreveu que "Erênio, Orígenes e Plotino fizeram uma promessa mútua de não divulgar a doutrina de Amônio: mas tendo Erênio quebrado o acordo, Orígenes e Plotino já não se sentiram obrigados por ele"[19]. Segundo o comentador, Amônio mantinha um círculo interno, ao qual os três pertenciam. Enquanto a revelação de Erênio (primeiro a quebra a ordem do mestre e escrever sobra sua filosofia) foi perdida para a história, Orígenes, o pagão, (210 – 280) e Plotino (205 – 270) transmitiram muito do que Amônio lhes ensinou, mas velado pela linguagem de seus próprios pensamentos. Ambos honravam os Mistérios. Clemente de Alexandria (150 – 225), que louvou extensamente a Amônio, estava bem a par de que havia uma escola esotérica no cristianismo primitivo, pois era um de seus membros, e é provável que Orígenes de Alexandria (185 – 253), o cristão, soubesse o mesmo. Plotino, de acordo com o testemunho de Porfírio (232 – 304), conheceu o significado dos Mistérios diretamente através de suas próprias iluminações extáticas. Os detalhes dos ensinamentos de Amônio podem ser desconhecidos, mas o fato de que tenha tido discípulos tão leais de diferentes escolas de pensamento demonstra que sua doutrina era tão universal que podia acomodar uma larga variedade de formulações.


Segundo Reale[20], Amônio insistia que havia uma base universal para a ética no coração de todo sistema metafísico, e que o valor do pensamento mais altamente abstrato reside em sua habilidade de transformar a natureza humana através da luz sagrada que ele revela. Segundo o comentador, Amônio sustentava que cada homem deveria derivar sua ética do cerne da tradição de seu próprio povo e elevar sua mente através da meditação. A sabedoria universal dos antigos era a única mãe de todas as verdades, e deixando claro que os povos poderiam viver uma vida cheia de reverência mútua, compromisso com a humanidade e compaixão para com todas as criaturas. A prática da contemplação, como indicava Plotino, deveria passar através dos estágios da opinião, limitada pelos sentidos e pela percepção; da ciência, baseada na dialética; e enfim atingindo a iluminação intuitiva. Amônio ensinava que a memória, era a inimiga do êxtase divino da alma, e o primeiro obstáculo para a clarividência espiritual. Mas, dizia Amônio, para a alma pura não seria estranho que outras almas semelhantes revelassem a ela visões e concepções nobres através de seu toque. Seus ensinamentos mais preciosos eram secretos na melhor tradição de Pitágoras, e seus discípulos não os revelaram.


Dessas teses de Amônio surge o grande nome do neoplatonismo que retoma as teses do mestre e lhe dá um novo caminho original. Estamos falando de Plotino, de quem falaremos a seguir.


2- O NeoPlatonismo


Segundo Nicola Abbagnano[21], o neoplatonismo surgiu como o último e supremo esforço do pensamento clássico para resolver o problema filosófico, que tinha encontrado um obstáculo intransponível no dualismo e racionalismo grego - dualismo e racionalismo que nem sequer o gênio sintético e profundo de Aristóteles conseguiu superar. O neoplatonismo julga poder superar o dualismo, mediante o monismo estóico, na qual o aristotelismo fornece, sobretudo, os quadros lógicos; julga também poder superar, completar, integrar a filosofia mediante a religião, o racionalismo grego mediante o misticismo oriental, proporcionando o racionalismo grego especialmente a forma, e o misticismo oriental o conteúdo.


Como resposta neoplatônica, segundo Reale e Antiseri[22], acentuado o dualismo platônico entre sensível e inteligível, entre matéria e espírito, entre finito e infinito, entre o mundo e Deus: primeiro, identificando, por um lado, a matéria com o mal, e elevando, por outro lado, o vértice da realidade inteligível ao supra-inteligível e, em segundo lugar, elaborando uma moral ascética e mística, a qual, todavia, se esforçará por unificar os pólos opostos da realidade, fazendo com que da substância do Absoluto seja gerado todo o universo até a matéria obscura.


A inversão ontológica é fundamental para o surgimento do Neo-platonismo, pois encontra-se nela a “teoria dos princípios” que redefine a visão tradicional entre o Uno e o Múltiplo, mediante a uma revalorização ontológica do múltiplo, que permite que a unicidade ocupe uma posição superior ao existente[23].


Para Philip Merlan[24], o Neoplatonismo se define em: uma pluralidade de esferas de ser estreitamente subordinadas uma às outras e que descrevem os graus superiores e inferiores, sendo estes últimos os seres perceptíveis que existem no espaço e no tempo. Bezzera cita novamente Merlan:

“A derivação de toda esfera inferior do ser de uma esfera superior; esta derivação não ocorre no tempo nem no espaço e nem segue uma relação de “causalidade”, mas de implicação lógica. A esfera superior do ser deriva de um princípio primeiro que, por ser causa de todo ser é superior a todo ser. Este princípio primeiro é denominado Uno, não somente enquanto único, mas sim, como simplicidade absoluta superior a toda determinação. A crescente multiplicidade (características das esferas inferiores do ser) implica um aumento não apenas dos entes que compõe, mas, também, de suas determinações (limitações). O conhecimento adequado do princípio primeiro não pode ser uma forma de conhecimento do tipo predicativo, próprio dos seres que demonstram alguma determinação. A dificuldade fundamental e característica que define o Neoplatonismo é, uma dúvida, o estabelecimento de uma explicação que justifique a passagem da unidade à multiplicidade, tendo em conta um princípio material que desempenha um papel importante em todo o processo”[25].

A filosofia antiga, em seu último período, não tem mais sua capital tradicional em Atenas, cidade grega por excelência. Como vimos acima, o centro do pensamento então se estabelece em Alexandria, cidade cosmopolita na qual vivem egípcios, judeus, gregos e romanos. A cidade era um local privilegiado para todo tido de intercâmbio, particularmente os intelectuais. A cidade estava povoada de pensadores que dispunham de uma admirável biblioteca[26].

Todos esses elementos nos ajudam a compreender o caráter sincrético, ou sintético, da filosofia neoplatônica. O racionalismo lúcido dos gregos se une - numa síntese muito original - aos fervores do misticismo oriental. Apesar das denegações dos céticos e da propaganda materialista dos epicuristas, nunca os homens foram tão famintos de Deus quanto nessa época.


As religiões de salvação, o culto de Mitra, de Ísis, então se desenvolvem. O cristianismo tomará impulso. Preocupações filosóficas e religiosas se unem estreitamente. Os filósofos, além da verdade suprema, buscam a salvação. Os homens piedosos querem fundamentar suas crenças filosoficamente. Tal é a atmosfera que vamos encontrar envolvendo Plotino.


3- Plotino e suas principais contribuições para a Filosofia


Plotino (204-270) nasceu em Licópolis, no Alto Egito, e, aos 28 anos, dirigiu-se para Alexandria onde seguiu as lições do platônico Amônio Sacas, que o "converteu" à filosofia (pois, na escola neoplatônica, assim como entre os estóicos, a filosofia não era simples disciplina teórica, mas escola de vida espiritual, destinada a transformar inteiramente a alma, e purificá-la, a voltá-la para as realidades sublimes). Em 243, a fim de conhecer a filosofia dos persas, Plotino engajou-se no exército do imperador Giordano; sobrevivendo aos seus desastres, estabeleceu-se definitivamente em Roma, onde abriu uma escola.[27]


Em 254 – após ensinar em Roma por nove anos – Plotino começou a escrever as “Enéadas[28], conjunto de cinqüenta e quatro tratados, que Porfírio (232 – 304), seu discípulo dileto, dividiu metafisicamente em seis grupos de nove, ou seja, 54 = 6 (número da perfeição) x 9 (número da totalidade). O agrupamento das partes obedece a uma ordem sistemática ascendente, de acordo com a mística plotiniana: a primeira parte se refere ao homem e à Moral; a segunda e terceira, ao Mundo Mensível e à Providência; a quarta, à Alma; a quinta, à Inteligência; e a sexta, ao Uno ao Bem. Esta disposição, entretanto, é de ordem geral, porque, na verdade, a exposição de Plotino é dispersiva, tratando de todas as questões, sem atender a uma ordem sistemática e escolar, como fariam depois Proclus (412-487). Seja como for, o conteúdo das “Enéadas” é um caminho para a Sabedoria e uma condução em direção ao Bem Absoluto, na filosofia de Plotino, conforme os comentadores[29].

Enfim, as considerações filosóficas plotinianas (uma reelaboração do idealismo de Platão, com notável influência das concepções cosmogônicas de Aristóteles) tinham um princípio cardeal: ensinar a seus discípulos – e à Humanidade – a se libertar das ilusões e dos prazeres terrenos, para poderem contemplar e se unir extaticamente a Deus.[30]


O espírito que animava Plotino para um bom andamento da polis, era muito diferente do espírito que havia inspirado a Platão aos seus projetos ideais e utopias políticas. Platão, ainda todo impregnado do espírito e do ethos da pólis grega, pretendia verdadeiramente a atividade política e operar uma transformação radical na teoria e nas práticas políticas; pretendia reformar radicalmente o Estado na sua totalidade. Plotino, ao contrário, não desejava de modo algum propor um projeto de renovação do império romano em função dos princípios filosóficos, mas simplesmente construir um oásis de paz, uma cidade feita para filósofos, feita para quem desejava viver uma vida numa comunidade que tornasse possível alcançar o fim supremo, ou seja, a união com o divino[31].


Platão pensa a realidade a partir de dois princípios (Uno-Díada)[32] igualmente nivelados, enquanto que, para Plotino, o Uno é o princípio absoluto, ocupa um lugar privilegiado em relação aos demais derivados e a Díada se converte em uma realidade derivada.


A doutrina fundamental que Plotino apresenta nas Enéadas é a das três hipóstases[33], isto é, das três substâncias, das três realidades eternas - embora elas derivem, em termos plotinianos, elas procedam uma das outras., que é o “Uno, o Intelecto e a Alma”, a saber:


Em primeiro lugar, Segundo Carlo Bússulo[34] vemos que a realidade suprema, o Deus de Plotino, é o Uno, que não é o conhecimento (uma vez que este supõe a dualidade do sujeito cognoscente e do objeto cognoscível - nem o Ser, mas antes a fonte inefável de todo ser e de todo pensamento). Ele é todas as coisas e nenhuma delas. É aquilo de que programa toda existência, toda vida e todo valor, mas ele próprio é de tal ordem que nada podemos afirmar a seu respeito, nem a vida, nem a essência; é superior a tudo e fonte absoluta de tudo, como nos lembra.


Em um segundo momento, segundo o mesmo autor[35], aparecem as seguintes perguntas: Por que existem outras hipóstases? Por que esse Deus plotiniano? Por que o Uno não é único? Por que se degrada na multiplicidade? É certo que não está submetido a qualquer necessidade, não pode desejar coisa alguma - pois, desejar é sentir falta de algo, e ele é plenitude. Mas o Uno é riqueza infinita, generosidade sublime. A perfeição suprema se difunde em si mesma, tende a engendrar outros seres que se lhe assemelham, ainda que menores. Assim como de um fogo ardente as chamas se irradiam, assim ocorre com os seres emanados do Uno. O primogênito de Deus é o Logos, a Inteligência. Essa Inteligência é o princípio de toda justiça, de toda virtude e, o que é capital para Plotino, de toda beleza. A Inteligência é que faz a realidade ter uma forma, na medida em que ela é coerente e harmoniosa, na medida em que ela é Beleza (nesta segunda hipóstase encontramos algo das Idéias de Platão e do pensamento que se pensa de Aristóteles), nos lembra o mesmo autor[36].


Em terceiro lugar, segundo ainda as reflexões de Marco Bússola[37], Plotino diz que da Inteligência procede a Alma, terceira hipóstase (que evoca o tema platônico da alma do mundo, assim como o deus cósmico dos estóicos). A Alma é a mediação entre a Inteligência, da qual ela procede, e o mundo sensível, cuja ordem é constituída por ela. As almas individuais emanam dessa alma universal. A alma humana também é uma parcela do próprio Deus presente em nós.

Para Plotino, abaixo das três hipóstases, o mundo material representa o último estágio dessa "difusão" divina, o ponto extremo onde morre a luz; é nele que encontramos a opacidade da carne, o peso da matéria, as trevas do mal. Todavia, enquanto o Uno dispersou-se, obscureceu-se, abismou-se no múltiplo, este último aspira à reconquista da unidade, à luz e ao repouso na fonte sublime. Ao movimento de procedência corresponde o impulso de conversão pelo qual a alma, caída no corpo, obscurecida no mal, se assume e tenta se elevar até o Princípio original, nas palavras de Bússola[38].


A alma que Plotino diz ser prisioneira do mal é apenas uma alma que se ignora, é, como diz Plotino, citado por Abbagnano, uma luz mergulhada na bruma: “O mal não é uma substância original, é só o procurado pelo reflexo do bem que fracamente ainda brilha nele”.[39] Nesse sentido, livrar-se do mal, para Plotino é encontrar-se a si mesmo em sua verdade.


Na filosofia de Plotino, para se ter uma boa interpretação, deve-se ter uma visão: gnosiológica, metafísica, moral e religiosa[40], a saber.


A gnosiologia de Plotino é semelhante à de Platão, pela desvalorização da sensibilidade como aparência, opinião, com respeito ao pensamento. Segundo Bernardo Brandão[41], a sensação representa o primeiro grau de conhecimento humano, manifestando-se nela obscuros vestígios da verdade. Segue-se, superior à sensibilidade, a razão: conhecimento mediato, discursivo, dialético, demonstrativo, que atinge as idéias, as essências das coisas. A razão é a atividade do espírito, que conhece enquanto vem iluminado pelo pensamento propriamente dito, o qual é superior ao espírito.


Segundo Bernardo Brandão[42], à razão segue-se o pensamento imediato, que é autocontemplação do espírito pensante. Nesse grau de conhecimento o espírito compreende, ao mesmo tempo, a si e as coisas. É conhecimento intuitivo, imediato, não discursivo e sucessivo. Também o pensamento - o intelecto - representa uma atividade do espírito humano participada do pensamento absoluto, isto é, da Inteligência - Noûs . O pensamento absoluto, a inteligência, o Noûs, em si mesmo, está sempre em ato de conhecer, e nunca erra; mas, no espírito humano, o pensamento vem a ser intermitente e sujeito ao erro, precisamente pelo fato de ser, nele, o conhecimento participado. O conhecimento humano, finalmente, se completa e atinge a sua perfeição no êxtase, que é identificação do espírito humano com o espírito absoluto, o Uno, Deus, em que o espírito humano se torna passivo, inconsciente[43].


Para o mesmo autor[44], a Metafísica em Plotino, assim como os graus de conhecimento são quatro - sensibilidade, razão, intelecto, êxtase – da mesma forma quatro são os graus do Ser metafísico: matéria, alma, Noûs , Uno. O Uno , Deus - segundo Plotino - é a raiz de todo ser e de todo conhecer, tudo depende dele. No entanto, transcende toda essência e todo o conhecimento, de sorte que é inteiramente indeterminado e inefável, e em torno dele pode-se dizer apenas o que não é - teologia negativa. O universo deriva de Deus, não por criação consciente e livre, mas por emanação inconsciente e necessária, que procede de Deus degradando-se até à matéria. Deus certamente transcende o mundo, mas o mundo é da sua mesma natureza. A primeira emanação é representada pelo Noûs, inteligência subsistente, intuitiva e imutável, que se conhece a si mesma e em si as coisas. A segunda emanação do Uno é a alma; ela procede do pensamento, como este procede do Uno. A alma contempla as idéias - que estão no Noûs - e dá forma à matéria, segundo o modelo delas. A alma universal, a alma do mundo, por sua vez se multiplica e especifica nas várias almas individuais, que estão em escala decrescente do céu até os homens. Também Plotino sustenta que as almas humanas caíram de uma vida pré-mundana para o cárcere corpóreo; também ensina a metempsicose e a conversão. Com a alma termina o mundo inteligível, divino, e começa o mundo sensível, material. A matéria plotiniana, pois, não é apenas potencialidade, indeterminação, mas também mal, irracionalidade[45].


Com relação a Moral em Plotino, escreve Bernardo Brandão[46], ela se da quando acontece a descida - a emanação das coisas do Uno - há a subida, a conversão do mundo para Deus. Efetua-se ela através do homem, microcosmo, compêndio do universo. Nisto consiste a moral plotiniana, radicalmente ascética: libertação, purificação da matéria, do corpo, do sentido. Os graus dessa libertação são representados, em linha ascendente, pelas virtudes éticas, dianoéticas - arte e filosofia - culminando no êxtase[47].


Enfim, a religião para Plotino. Para Bernardo Brandão[48], o neoplatonismo afirma certa transcendência de Deus, em que este é imaginado como o suprainteligível. Por isso, é inefável e pode ser atingido na sua plenitude unicamente mediante o êxtase, que é uma fulguração divina, superior à filosofia. Com esta doutrina do êxtase, em que é afirmada uma relação específica com a Divindade, parece abrir-se o caminho para uma nova filosofia religiosa, para a valorização da religião positiva. E outro caminho parece abrir-se na doutrina dos intermediários, que estão entre Deus e o homem, e por Plotino distintos em deuses invisíveis e visíveis, a que são assimiladas as divindades das religiões tradicionais, nos lembra Bernardo Brandão[49].


4- Algumas considerações sobre a concepção de Uno em Plotino


Depois de destacar em linhas gerais os pontos fundamentais da filosofia de Plotino, deteremos agora em um estudo mais preciso sobre a doutrina da unidade do Ser ou doutrina do Uno na obra Enéadas de Plotino, destacaremos algumas considerações da concepção de Uno, que representa o motivo pelo qual Plotino ficará para sempre lembrado na história da filosofia.


A hipótese do Uno de Plotino contrasta com duas visões determinantes na história da filosofia grega: Parmênides e Aristóteles, segundo Plotino, quando Parmênides de Eléia formulou seu clássico argumento “pois pensar e ser são o mesmo”, reduziu, o ente à inteligência, colocando-o entre as coisas sensíveis. Do mesmo modo, quando afirma Aristóteles que o Uno é “transcendente”, mas que pensa a si mesmo, compreendeu-o não como o Primeiro, dado que, como diz o próprio Plotino, “o Uno-bem, nem conhece nada nem tem nada a conhecer, mas, sendo Uno, e estando em si mesmo não necessita pensar a si mesmo[50].


Para Plotino, a unidade do ser tem o sentido: “Possuir a plenitude da essência e da existência em si mesma; mas na medida em que d'Ele emanam as realidades materiais da essência do Ser, diminuem progressivamente tais realidades. Com isso, Ele não está perdendo algo; Ele está dando sempre menos algo de si.”[51]


Com essa visão do Ser, Plotino acreditava que somente era sábio aquele que conseguia superar as formas aparentes surgidas pela dispersão do Ser, e que com isso reencontrava a Unidade geradora de todas as formas, efêmeras, materiais: tarefa possível para quem percorre a série de intermediários escalonados entre a matéria e o Uno em si mesmo. Quem realizar esta tarefa, terá a ideia de uma hierarquia de formas sempre mais perfeitas, as quais ligam a matéria à Divindade.


Plotino admitia a presença da divindade em tudo o que existe. As primeiras perguntas que Plotino faz a si mesmo são como e onde encontrar a essência do Uno, de Deus, ao que responde:

“há dois caminhos; o primeiro, pela contemplação da Natureza, isto é, "saindo fora" de nós; o segundo, quando, "entrando dentro" de nós, e esquecendo o mundo lá fora, procurando enxergar, com o olho interior da alma", o Ser que está em nós, que dá sustentação ao nosso mundo material e psíquico. Somos um "segmento" (não importa quão distante, pois espaço e tempo não existem) do Ser Universal”[52].

Plotino usa esses dois métodos para estabelecer a meditação, contemplação interior que desabrochará na intuição, o suporte para a racionalização de seu pensamento.


Contemplando as formas materiais do mundo sensível, o filósofo se eleva até o Intelecto Universal e, deste, ao Uno, a Deus. Por outro lado, a contemplação interior proporciona a União mística do filósofo com o seu Deus, pois d'Ele emana e a Ele está unido — já que ambos existem devido ao ser.


Sendo o ponto de partida da filosofia de Plotino é a Unidade do Ser, e como tudo o que é, e que vive, é parte do Ser, temos a "Unidade de tudo". Escreve Plotino:

“ A natureza do Uno, sendo como é, progenitora de todas as coisas, não é nenhuma delas. Não tem, pois, nem quididade, nem qualidade, nem quantidade, nem inteligência, nem alma. Tampouco está em movimento, nem em repouso, nem em lugar, nem no tempo, mas que é ‘auto-subsistente e uniforme’, melhor dito, aforme, anterior a toda forma, anterior ao movimento, anterior ao repouso. Porque todas estas coisas pertencem ao ser, que o fazem múltiplo.”[53]

Segundo BEZZERA[54], o conceito de panteísmo em Plotino, pode-se dizer, parafraseando o filósofo: o Uno é todas as coisas, quanto à essência, pois é axioma filosófico que do nada vem nada; todavia, é evidente que o Uno não é nenhuma das coisas, já que a existência do Uno é eterna e permanente, e a existência das coisas, transitória. Logo, afirma ele, o Uno não pode ser conhecido, e quando Plotino diz que n'Ele há três "hipóstases", que são o Uno, o Intelecto e a Alma, na realidade, usa essas três distinções única e exclusivamente para facilitar o entendimento humano — Pois no Uno, não há separação, mas pura unidade.


Com isso, pode se formar uma hierarquia, o Uno está presente no Intelecto, e o Intelecto está presente na Alma, e a Alma está presente na matéria. Devido a isso, a matéria está no Ser do Uno, embora, teoricamente, haja uma ascensão da matéria até à Alma, até o Intelecto, até o Uno — ou seja, da multiplicidade, numérica e quantitativa, que representa a Unidade. No único modo de ser do Uno há operações, ou movimentos sem que, evidentemente, isso inclua potencialidade, pois, no Uno, há o eterno presente, — o eterno real — e nessa Unidade de substância, tudo aquilo que é possível, é somente possível como forma ou aspecto transitório de algo já essencialmente real, de modo que não se pode, em nenhuma hipótese, falar em potencialidade, nos lembra Reale[55]. Uma passagem de Enéada pode ser bastante esclarecedora nesse sentido. Nela Plotino escreve:

“[ ...]Todo ser que seja reconhecido como “uno” é uno exatamente na medida implicada pelo seu ser: em conseqüência, os seres menores têm a unidade em grau menor; os seres maiores tem maior unidade. Naturalmente também a alma - ainda que seja diferente do uno ­– possui a unidade em grau mais alto, proporcionalmente ao seu ser mais alto e mais próprio dela; no entanto, ela não é o Uno em si; tanto é verdade que alma é uma e, num certo sentido, essa unidade é acidental; com efeito, temos aqui dois termos: a alma e mais a unidade; nem mais nem menos do que corpo e unidade. Assim o descontínuo – por exemplo, o coro – está bem distante do uno ao paso que contínuo está mais perto dele; e mais perto ainda esta a alma que está até em comunhão com o Uno. Mas se pelo fato de que a alma não poderia ser alma sem ser uma unidade, se viesse a identificar a alma com o Uno, responderíamos primeiramente que todas e cada uma das almas só existem em companhia do “ser unidade”, mas, no entanto, delas é diferente o Uno; pois também não se identificam corpo e unidade, mas o corpo participa do uno; em segundo lugar, também a alma uma é múltipla, embora não conste de partes; já que nela consiste muitíssimas potências – raciocinar, desejar, perceber – que são mantidas juntas como por um vínculo unicamente em virtude do uno. A alma enfim, sendo uma em si mesma, introduz a unidade em outros seres; mas ela também a recebe por obra de outro.”[56]

Assim, fica comprovado que, no Uno, não há tempo, nem espaço, nem mudanças reais, já que não há sucessão de eventos, pois no Uno tudo é aquilo que é.


Nesta linha de pensamento, entende-se a frase de Plotino: "Quando nossa visão interior (nossa intuição) tiver penetrado o véu das aparências, não encontrará outra coisa que não o Ser"[57], isto é, a Existência que inclui todas as vidas passadas, presentes e futuras, a Existência eterna, que inclui, numa única Energia, toda a multiplicidade dos seres. Plotino retoma a analogia de Pitágoras: como a unidade precede todos os números, que são apenas desdobramentos dela, assim a substância eterna e universal precede todos os segmentos que dela derivam: "É por causa do Uno (isto é, a Unidade substancial ou energética) que todos os demais seres são seres, isto é, que todos os demais existentes existem[58].


Bússola[59] interpreta que para Plotino o Uno não pensa, já que pensar é introduzir em nós a ideia de um objeto que "não é nós". Nem mesmo o Uno pode pensar si mesmo, porque, se Ele pensasse a si mesmo, introduziria uma imagem de si em si evidentemente. Plotino, nesse sentido, entende o processo de pensar como processo humano; o que há no Uno, nós o desconhecemos. Por isso, conclui Plotino: “o Uno está acima e aquém do conhecimento (isto é, do processo de conhecimento entendido pelos homens)[60].


Para o mesmo pensador[61], Plotino afirma que o Uno não tem consciência, pois, pelo fato de Ele ser somente o que é, não pode refletir sobre seu pensamento, já que nenhuma outra situação diferente d'Ele o pode atingir, pelo simples fato de que não pode existir uma outra situação. Consciência é sempre consciência de algo, e mesmo quando é consciência de si, é sempre consciência de alguma imagem de si. A conseqüência disso, diz Plotino, está no fato de que o Uno não pode ter intenções ou vontades, o que suporia a existência de algo fora d'Ele, capaz de determiná-lo; mas por ser Ele a única Unidade, tudo o que existe é uma emanação d'Ele e, portanto, tem n'Ele a sua realidade substancial.


Assim, o Uno não está no homem, uma vez que Ele é o Homem, não o homem enquanto fenômeno humano, transeunte, que começa a existir num determinado momento e morre num outro momento, mas o homem enquanto expressão real e atual da substância universal. Somente concebido assim,o Uno é causa, é força primeira, força de todas as causas — o Bem — continuando, porém, a ser atividade, isto é, a emanar, embora "sem que nada saia d'Ele". Esta ideia é constantemente afirmada por Plotino: “nada sai, nem flui d'Ele: é como um lampejo que torna as coisas visíveis, sem todavia que a fonte perca energia.” [62]


Torna-se, portanto, evidente que, para Plotino, só existe uma única substância, que é eterna, porque está aquém de qualquer começo e fica além de qualquer fim; e infinita, pois não há nada fora dela, e nela tudo está contido, porque ela é tudo, não no sentido de que ela é a soma de tudo, mas no sentido de que ela é única.


CONCLUSÃO


Com este trabalho compreendermos que o ponto de partida da filosofia de Plotino, foi influenciado pelo ambiente alexandrino, inaugurado por Filo, completado por Amônio Sacas. A partir daí, Plotino resolve revisar as teses platônicas, lhes dando uma interpretação original que está assentado no velho problema da filosofia grega, especialmente de Platão e Aristóteles, da relação entre mundo sensível e mundo inteligível.


Plotino aponta para um sistema monista, onde procura mostrar que seu dualismo não é composto de dois elementos opostos e independentes ontologicamente, mas pelo - inteligível e sensitivo – que têm o mesmo princípio e fim ontológico. Tudo deriva e volta ao Uno.


Portanto, Plotino apresenta uma explicação metafísica do cosmo pela teoria da emanação, onde tudo é explicado a partir de um único ponto ontológico - o Uno. Ou seja, no Princípio, o Uno é tudo o que existe, e dele procedem todas as coisas. Não restringindo a divindade a um único ser, fazendo-a multíplice como ela própria se manifesta.


Plotino ensinou que na radiação do Uno cada esfera de criação permanece em si mesma, e o que dela se irradia pertencendo a um grau inferior. Contudo, na verdade, evidentemente, não há separação ou interrupção entre os diversos graus da criação pensada por Plotino. Tudo, segundo o autor está interligado a tudo, e todas as coisas criadas estão ligadas ao Uno. E neste Plano, segundo a doutrina plotiniana, o ser humano é a suprema criação autoconsciente derivada do Uno–em–si com capacidade absoluta e irrestrita.

 

COMO CITAR ESSE ARTIGO


SANTANA, Eduardo Rodrigues. A Concepção de Uno na Obra Enéadas de Plotino. In:. Revista Me Conta Essa História, a.I, n.12, dez. 2020. ISSN 2675-3340. Disponível em: https://www.mecontaessahistoria.com.br/post/a-concep%C3%A7%C3%A3o-de-uno-na-obra-en%C3%A9adas-de-plotino . Acesso em:

 

REFERÊNCIAS


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[1] ABBAGNANO, Nicola. História da filosofia. Lisboa: Presença, 1969. v. 2. p. 79 [2] Idem, Ibidem, p.80 [3] REALE, Giovanni. História da filosofia antiga: as escolas da Era Imperial. Trad. Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 1994. V.4. p. 219 [4] Giovanni REALE, História da Filosofia Antiga: as escolas da Era Imperial, p. 219 [5] Idem, ibidem, p.220 [6] Idem, ibidem, p.238. [7] Idem, ibidem, p.238. [8] Idem, ibidem, p.239. [9] ABBAGNANO, op. cit, p.80 [10] Giovanni REALE, História da Filosofia Antiga: as escolas da Era Imperial, p. 242. [11] Idem, ibidem, p. 290 [12] Idem, ibidem, p. 293 [13] Giovanni REALE, História da Filosofia Antiga: as escolas da Era Imperial, p. 290. [14] Idem, ibidem, p. 295. [15] Giovanni REALE, História da Filosofia Antiga: as escolas da Era Imperial, p. 403. [16] Idem, ibidem, p. 404. [17] Giovanni Reale, afirma que Hiérocles foi um Neoplatônico discípulo de Plutarco que introduziu muitos elementos de outras correntes no neoplatonismo a partir da retomadas dos pensadores que o antecederam.Cf. Giovanni REALE, História da Filosofia Antiga: as escolas da Era Imperial, p. 406 [18] Giovanni REALE, História da Filosofia Antiga: as escolas da Era Imperial, p. 404. [19] Idem, ibidem, p. 405. [20] Idem, ibidem, p. 408. [21] ABBAGNANO, op.cit., p. 83 [22] REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: filosofia pagã antiga. 3ª ed. São Paulo: Paulus, 2007. v. 1. p. 358 [23] PIZZINGA, Rodolfo Domenico. Pensamentos de Plotino, ed. São Paulo: Ordo Iluminatti, 2008, p.4 [24] BEZZERA, Cícero Cunha. Compreender Plotino e Proclo. Petrópolis: Vozes, 2006. p. 34 [25] Idem, ibidem, p. 34. [26] Giovanni REALE; Dario ANTISERI, op. cit., p. 359 [27] ABBAGNANO, op. cit., p. 84 [28] Enéadas em grego significa nove. Cf. PIZZINGA, op. cit., p.2 [29] PIZZINGA, op. cit., p.3 [30] Idem, ibidem, p.3 [31] REALE, Giovanni. Plotino e neoplatonismo. Trad. Henrique Cláudio de Lima Vaz e Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2008. P. 17 [32] REALE, G. Para uma nova interpretação de Platão. Trad. Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 1997. p 363. O autor diz que o modelo de Dualidade Platônica pode ser representado uma vez que o UNO e DÌADA pensados, respectivamente, como causa formal e causa material de todos os seres, do seguinte modo: UNO DÍADA (1) unidade multiplicidade (2) ser não-ser (3) identidade diferença (4) igualdade desigualdade (5) semelhança dessemelhança (6) limite ilimitado (7) determinação indeterminação (8) indivisibilidade divisibilidade (9) imutabilidade mutabilidade (10) ordem desordem (11) igual desigual (12) bom mau (13) virtude vício [33] Hipóstases é o mesmo que: realidades, substâncias, fundamentos, pessoas, aparências. Cf. BEZERRA, op. Cit., p.31 [34] BÚSSOLA, Carlo. PLOTINO a alma no tempo. FCAA: Vitória-ES, 1990. p. 35; [35] BÚSSOLA, op. cit., p. 36 [36] Idem, Ibidem, p. 36. [37] Idem, Ibidem, p. 37 [38] Idem, Ibidem, p. 37 [39] ABBAGNANO, op. Cit., p. 88 [40] A apresentação e análise desses elementos da filosofia de Plotino segue os comentários apresentados por BRANDÃO, Bernardo Guadalupe dos Santos Lins . A união da alma com o um na filosofia de Plotino. Revista Síntese Revista de Filosofia, Belo Horizonte: Associação Jesuíta de Educação e Assistência Social, v. 36, n. 114, p. 87-105, Ja./ Abr. 2009. p. 87 – 105. [41] Idem, ibidem, p. 88. [42] Idem, ibidem, p. 88 [43] BRANDÃO, op. cit., p.90 [44] Idem, ibidem, p.95 [45] Idem, ibidem, p.95 [46] Idem, ibidem, p.97 [47] Idem, ibidem, p.97 [48] Idem, ibidem, p.101 [49] BRANDÃO, op. cit., p. 101. [50] PLOTINO. Tratados das Enéadas. [Título original: Das Enéadiu]. Américo Sommerman (Trad.). São Paulo: Polar , 2007. VI, 9, 3. [51] Idem, ibidem, VI, 7, 32 [52] Idem, ibidem, VI, 8, 3 [53] Idem, ibidem, VI, 9, 3 [54] BEZZERA, op. Cit., p.70 [55] REALE, Giovanni. Plotino e neoplatonismo. p. 42 [56] PLOTINO. Tratados das Enéadas. VI, 9, 1. [57] Idem, Ibidem, VI, 9, 1. [58] Idem, Ibidem, VI, 1, 3. [59] BÚSSOLA, op. cit., p. 39 [60] PLOTINO. Tratados das Enéadas. VI, 4, 2 [61] BÚSSOLA, op. cit., p. 41 [62] PLOTINO. Tratados das Enéadas. VI 9,2

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