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CINEMA E HISTÓRIA: A GUERRA DO VIETNÃ


 

LEPH - Revista Me Conta Essa História Set. 2020 Ano I Nº 009 ISSN - 2675-3340 UFJ.

 

Por Kelvin Oliveira do Prado


[1] Graduando em História pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB); bolsista – CNPq e membro do LAPEH (Laboratório de Pesquisa e Ensino História).

 

RESUMO


O presente texto tem por objetivo fazer análise de cunho histórico e comparativo de três obras cinematográficas produzidas na segunda metade do século XX, são elas: “Corações e Mentes” (1974), “Braddock II: O Início da Missão” (1985) e “Platoon”, (1986), as mesmas foram elaboradas no contexto da Guerra Fria, sendo dirigidas por norte-americanos. Intenta-se, assim, captar o olhar fornecido ao público e entender a que público ele se direcionava, ainda identificando os eixos temáticos presentes nas obras, suas intenções e poder. Assim, na análise destas produções de temporalidade próxima, é sabido não apenas sobre a mensagem transmitida, mas também o que pretendiam enquadrar enquanto realidade.

Palavras-chave: Ideologia, Poder, Guerra Fria.

 

INTRODUÇÃO


Analisar uma obra cinematográfica é um ato complexo, que passa por relatividades subjetivas. Precisa contar não apenas com a atenção do espectador para compreender a narrativa, roteiro e o aspecto imagético, mas depende, também, do Capital Cultural acumulado pelo espectador, utilizando aqui o termo de Bourdieu em “A reprodução” (2008). Nesse sentido, para que aconteça a interpretação das mensagens, códigos e intenções que a obra procura transmitir, é necessário bem mais que horas assistindo-a. Assim, essa captação de ideias e narrativas podem sofrer variações subjetivas a depender de uma série de variantes, bem como da temática da obra, do gênero, da afinidade do espectador, enfim, o que alguém percebe em determinada cena, pode passar por outra pessoa sem causar efeito.


Além do mais, quanto ao gênero e características da obra, a influência do diretor tem muito a dizer. Existem diretores que costumam conferir elementos específicos e característicos na forma de formular a produção. Por exemplo, filmes experimentais, de movimentos e estilos distintos do que a grande massa costuma consumir, contam com características próprias, em que é possível reconhecer a especificidade do diretor na narrativa. Isto pode ser notado no estilo de enredo da história, cores, imagens e cortes, enquadramentos de tela, e até mesmo atores preferidos.


Exemplos disto temos obras como o Dogma 95, o Expressionismo, Nouvelle Vague e found footage. Assim, torna-se evidente que nem todos as obras são acessíveis a todos os públicos, pois nem todos contam com referências culturais para tal, em outras palavras, uma interpretação mais elaborada requer necessariamente Capital Cultural.

Como aponta Marc Ferro “[...] a crítica também não se limita ao filme, ela se integra ao mundo que o rodeia e com o qual se comunica, necessariamente” (1992, p. 87). Logo, nota-se que para entender o contexto em que uma obra é produzida é primordial captar suas nuances que fogem à própria filmografia imediata. Uma análise cinematográfica qualificada deve querer saber sobre: o diretor; o público a qual se destinava; as críticas que recebeu; além do regime de governo da época. Este último ponto é bastante importante porque regularmente a política é intrínseca às obras de cinema.

Ademais, quando se fala do conteúdo e da significação de uma obra, é necessário ter em mente que ela pode ser lida de maneiras distintas, e até mesmo inversa em momentos díspares de sua história. A leitura que as pessoas faziam de uma obra do expressionismo alemão em 1920, como “O Gabinete do Dr. Caligari”, não é a mesma leitura ordinariamente contemporânea. A relatividade interpretativa não se dá apenas por tempos distintos, mas também espaços distintos, como pode diferir a interpretação no Brasil de uma leitura realizada a partir da Alemanha, por exemplo. Ou seja, a contingência na leitura analítica cinematográfica envolve Capital Cultural, econômico e simbólico. Ferro lembra que “Eisenstein já havia observado que toda sociedade recebe as imagens em função de sua própria cultura [...]” (1992, p. 17).

A análise, presente neste trabalho, tem sentido histórico e comparativo de três produções cinematográficas, sendo elas: “Corações e Mentes”, de 1974, dirigido por Peter Davis; “Braddock II: O Início da Missão”, de 1985 por Joseph Zito; e “Platoon”, de 1986, com direção de Oliver Stone. É importante colocar que os três diretores são norte-americanos, assim infere uma interpretação que considera não apenas o contexto de produção, mas o recorte do ponto de vista de quem produziu, isto é, diretores integrantes do país que, naquele momento, passava por tensões com a URSS.


Em uma primeira abordagem as três obras tratariam a representação da Guerra do Vietnã, mas como são mais complexas que isto, é interessante colocar outras implicações além da temática. No Brasil houve influência cultural dos norte-americanos desde a Segunda Guerra, no que Antonio Pedro Tota (2000) chamou de “americanização do Brasil”, desde a Era Vargas, o título “Imperialismo sedutor”, é sugestivo.

Primeiro é preciso entender a década de 1980 nos Estados Unidos, já que as produções aqui analisadas são de tal país e de tal período, e também se faz necessário considerar a realidade do mundo naquele momento. Pensando em história global, justamente porque permite ir além do internalismo. Afinal, a Guerra do Vietnã ocorreu envolta das questões do imperialismo e neocolonialismo. Como afirma Achille Mbembe, houve a disseminação de dispositivos globais de controle das pessoas, a proteção não só como esfera da lei, tornando-se biopolítica. Esta guerra, por exemplo, fez parte das:


guerras insurreccionais de épocas como a descolonização, as “guerras sujas” do conflito Este-Oeste (Argélia, Vietname, África Austral, Birmânia, Nicarágua) e as experiências de institucionalização de ditaduras predadoras, com o empurrão ou a cumplicidade de agências de informação de forças ocidentais pelo mundo fora (MBEMBE, 2014, p. 47-48)

Os anos de 1980, conhecidos pelos brasileiros como década perdida, contavam com instabilidade econômica, não apenas nos Estados Unidos. Haviam neste contexto os novos movimentos contestatórios, no campo da música e das artes em geral. Outro marco deste período é que Jimmy Carter não se reelegeu, surgindo Ronald Reagan, que liderou o país por oito anos. Foi também a década na qual haveria a derrubada do Muro de Berlim, no bloco socialista Mikhail Gorbatchev enterraria os resquícios da Guerra Fria. No mais, foi a conjuntura que o liberalismo pungente se acirra, junto com Margaret Thatcher, Reagan também se imporia, e o Estado reduziu gastos de bem-estar social.

Outro ponto de marcação foi o intervencionismo político-militar, como em El Salvador. Neste cenário a imagem do liberalismo nos EUA foi abalada pela perseguição feita por McCarthy, em uma política neocolonialista na Guatemala e no Vietnã, foi afetada também na França, por causa da Argélia. Eric Hobsbawm (1995, p. 58) afirmara que a Guerra da Coréia (e é possível pensar também neste viés na do Vietnã) era um subproduto da Segunda Guerra Mundial.


As obras cinematográficas em questão possuem elementos que não são perceptíveis de forma imediata, como aludido, sem critérios elaborados de investigação. Além disso, há elementos de Contra-História[1], aquilo que vai de encontro com a história dita oficial, existe ainda o eixo de identificação da sociedade que produz e ainda da sociedade que recebe o filme e, por fim, a política e ideologia presente nas obras.

“Corações e Mentes”

“Corações e Mentes”, de 1974, é um documentário pioneiro em mostrar o outro lado da história que foi contada pelos norte-americanos, ou seja, apresenta a perspectiva dos vietnamitas, suas dores e sofrimentos no processo de guerra. Assim, o diretor vai em busca de figuras políticas, como ex-combatentes norte-americanos e sobreviventes vietnamitas. A obra mostra o militarismo e o racismo/etnocentrismo presentes na cultura norte-americana, os quais também levaram o país para o conflito. Isto posto, fica evidente o elemento de Contra-História presente na produção, já que tal representação vai de encontro ao que é apresentado nas outras obras cinematográficas que, por exemplo, geralmente possuem caráter de consumo de massa.


Ademais, “Corações e Mentes” tem o eixo de realidade não visível que é trazido ao público, ou seja, para além daquela narrativa de cunho heroico que os filmes norte-americanos comumente buscam construir ao usar da figura de homens treinados lutando contra o “mal”. Estes filmes inspiram e insuflam o nacionalismo, levando ao ufanismo explícito, engajando e contribuindo para elaborar o apoio da população às guerras. O filme, nesta implicação, é um elemento político, dado que traz discursos por meio de imagens e enquadramentos, sobretudo o que apresenta de um recorte que retrata apenas um lado da história fixando a ideia infantil de um enredo pautado na lógica de “o bem contra o mal”. “Corações e Mentes” vai além disto, naquilo que procura mostrar a população que perde casas, pastos e a vida.


As cenas iniciais do filme “Corações e Mentes” trazem a representação da vida no cenário do Vietnã em paralelo com a representação do discurso de poderio norte-americano dado por Clark Clifford, um Ex-Conselheiro da Casa Branca. Nas cenas seguintes têm a imagem dos EUA com um glamour e patriotismo do exército norte-americano. Apresenta, no reforço desta tese, um discurso proferido sobre a ideia de progresso dos políticos norte-americanos que é “estendida para todo o mundo”, contrapõe a essa narrativa a seleção de cenas de tiros e conflitos, demonstrando com isto como a ação francesa na Indochina apenas foi possível, também, graças ao auxílio norte-americano.

Este velho discurso do “fardo do homem branco”, do universalismo elaborado por pensadores europeus, de cunho historicista, universalista e eurocêntrico, adquire viés euroamericano de democracia burguesa, liberalista e industrial. Tal recorte narrativo embasa o tratamento das periferias do capitalismo como quintal dos EUA, é a chamada “política de quintal”, como lembra Homi Bhabha, ao dizer que era a:


“política de “quintal” da América com relação ao Caribe e América Latina [...] essa dominação econômica e política tem uma profunda influência hegemônica sobre as ordens de informação do mundo ocidental, sua mídia popular e suas instituições e acadêmicos especializados (1998, p. 45)

Portanto, a supremacia norte-americana não é algo presente apenas na mídia ou no cinema, ela é encontrada nas academias nos estudos acadêmicos bem como na estruturação ideológica das instituições fora dos EUA. É possível citar, por exemplo, a influência historicamente construída na economia a partir dos Chicago Boys e do liberalismo aplicado na periferia capitalista com Pinochet no Chile em 1973, “[...] os Chicago Boys foram bastante influenciados pela linha de pensamento monetarista veiculada por Milton Friedman e foram responsáveis por tornar o Chile o primeiro país a seguir a doutrina neoliberal” (LIRA, 2010, p. 05).


No filme “Corações e Mentes” o interesse econômico presente na guerra é demonstrado no retrato da população vietnamita perdendo habitações, alimentos e expectativas de vida. Tal ponto é colocado após a apresentação dos depoimentos feitos por pilotos, que relataram prazer e alegria ao realizem o objetivo de bombardearem o alvo. Nisto é possível corroborar algo que Eric Hobsbawm expôs em a “Era dos extremos”, que é o fato de que a tecnologia tornava as vítimas das guerras invisíveis (1995, p. 57).

“Tudo isso era negócio, era tudo estritamente profissional”, “você está fazendo um trabalho”, essas são algumas das falas dos soldados norte-americanos documentadas em “Corações e Mentes”. Com isto o filme procura evidenciar tais depoimentos em contraposição com a vida de quem perde tudo por causa desses “negócios”. “Corações e Mentes” pode fazer pensar sobre a característica dos treinamentos a que são submetidos os militares. Preparação essa que possibilita tratarem os “outros” como “monstros” inimigos a serem aniquilados sem piedade.


Em suma, o filme “Corações e Mentes”, apresenta depoimentos sobre vidas destruídas na Guerra do Vietnã. É possível identificar que “Corações e Mentes” foi um filme produzido em um contexto social de protestos contra a guerra. Tal condição de favorecimento foi elaborada desde a década de 1960, tendo como marco os protestos de 1968 e o Woodstock em 1969, ou seja, em 1974, quando o filme é lançado, a sociedade norte-americana passava por politização crítica.

“Dizem que estamos lutando por alguma coisa, eu não sei”, são relatos vindo de soldados que não sabem exatamente pela causa em que estavam lutando. Os elementos tratados em “Platoon” são de pessoas de classes menos favorecidas que foram enviadas apenas como máquina de guerra. Nesse sentido, é possível pensar na colonialidade do poder, como punha Aníbal Quijano em “El giro decolonial” (2007), pois pensando no que Hobsbawm observou, que a tecnologia torna as vítimas da guerra invisíveis, nessa mesma perspectiva de desenvolvimento tecnológico, afirmara-se que:


maiores descobertas científicas e maior tecnologia contribuem para o bem-estar da humanidade. Enquanto isso é dito, a colonialidade do poder econômico e político destrói um país como o Iraque (começando com a Guerra do Golfo), mata cerca de mil civis, alimenta ações de guerra na Europa e nos Estados Unidos, que produzem mais mortes de pessoas não envolvidas na guerra, causa a morte de quase dois mil jovens norte-americanos marginalizados (ou seja, não jovens que frequentaram Harvard, Yale, Princeton, Stanford, Duke ou outras universidades similares quando a invasão do Iraque começou) (WALSH, 2006, p. 11-12).

A sentença pronunciada: “O nosso inimigo é o crescimento da militarização da vida americana”, traz o espírito do momento. As cenas finais retratam o enterro de crianças e outras pessoas vietnamitas, seguida do discurso de um general na qual postula a tese de que os “orientais” não dão o mesmo valor a vida que os ocidentais. A obra faz, através das imagens, um “escárnio” com um discurso eminentemente xenofóbico.


Aqui os estudos de Edward Said (1990) são cruciais ao falar de “Ocidente” e “Oriente enquanto construção. Isto Gramsci havia notado, tempos antes, no volume I dos seus “Cadernos de Cárcere”. Said (1990) lembra que falar do orientalismo é falar sobretudo “[...] de uma empresa cultural francesa e britânica. Desde a Segunda Guerra, os Estados Unidos têm dominado o Oriente, e o aborda do mesmo modo que a Inglaterra e a França o fizeram outrora” (p. 15).

Ademais, “[...] assim como o próprio Ocidente, o Oriente é uma ideia que tem uma história e uma tradição de pensamento, imagística e vocabulário que lhe deram realidade e presença no e para o Ocidente [...]” (SAID, 1990, p. 17). Logo, tais observações históricas são importantes para que se entenda como tais representações binárias se fizeram e se fazem com auxílio propagandístico e com fomento ao medo.

“Braddock II, o início da missão”


“Braddock II, o início da missão” é um filme de 1985 é de caráter popular e hollywoodiano, “Braddock II, o início da missão” apresenta enquanto uma espécie de propaganda na construção de ufanismos e heroísmos de guerra. O filme é da década de 80, mas a narrativa tenta expor acontecimentos de 1972. O ator principal do filme já tinha um histórico de participação em filmes de cunho heroico, que é o Chuck Norris. Portanto, um filme com esse, que traz uma narrativa heroica ao exército norte-americano, foi elaborado para conquistar os espectadores, sobretudo norte-americanos, mas também foi bastante consumido em outros países.

O filme “Braddock II, o início da missão” tem apelo narrativo que mistura ficção e a realidade, amalgamada com imagens dos funerais de soldados desaparecidos ou mortos, com familiares e o exército os homenageando. “Braddock II, o início da missão” mostra imagens do presidente Ronald Reagan em consonância com a história, existe um viés de representação dos vietnamitas como vilões e os norte-americanos como vítimas de guerra. A obra elabora um apelo dramático a partir de imagens dos funerais, do exército e de familiares, das bandeiras sobre os caixões, do discurso inflado do presidente, da voz narradora e da música fúnebre.

Ao mesmo tempo em que Reagan discursa aos familiares dos soldados, afirmando que os mesmos não seriam esquecidos, prossegue-se a cena no Vietnã, em que um vietnamita aponta que os Estados Unidos se esqueceram dos seus soldados. A imagem do Braddock é a representação de um homem que não verga. Segue-se uma das capas do filme em que a há a exibição do personagem principal com postura de poder e combate.



Há outras capas adotadas para “Braddock II, o início da missão”, inclusive a imagem do lançamento do filme no Brasil apresenta o mesmo sentido heroico ao usar de explosões. A ilusão construída sobre o glamour de guerra seduziu jovens, como na Primeira e Segunda Guerra Mundial. Entretanto, essa narrativa heroica era necessária para justificar ações violentas, glorificando-as, não como perdedores de guerra, mas como vítimas.


Como lembrara a filósofa Judith Butler (2015), em sua obra “Quadros de Guerra”, de título sugestivo ao tema aqui analisado, “o luto público está estreitamente relacionado à indignação, e a indignação diante da injustiça ou, na verdade, de uma perda irreparável possui um enorme potencial político [...]” (BUTLER, 2015, p. 66). O caráter de luto público demonstrado no início do filme comprova as observações de Butler. A distribuição desigual do luto público é uma questão política de importância:


Por que não são divulgados os nomes de todos os que foram mortos na guerra, incluindo aqueles que as forças americanas mataram e de quem jamais conheceremos a imagem, o nome, a história, de cuja vida nunca teremos um fragmento testemunhal, alguma coisa para ver, tocar, conhecer? Embora não seja possível singularizar cada vida destruída na guerra, certamente existem formas de registrar as populações atingidas e destruídas sem incorporá-las à função icônica da imagem” (BUTLER, 2015, p. 65-66)

Por conseguinte, se “[...] alguém mata ou é morto na guerra, e a guerra é patrocinada pelo Estado, investido por nós de legitimidade, então, consideramos a morte passível de luto, triste, desafortunada, mas não radicalmente injusta [...]” (p. 68). Tais observações demonstram como os atos simbólicos agem, mormente na questão fúnebre, pois “[...] nossa comoção nunca é somente nossa: a comoção é, desde o começo, transmitida de outro lugar [...]” (BUTLER, 2015, p. 81).

Em “Braddock II, o início da missão” a figura do Capitão Ho (personagem vietnamita) é de um homem cruel, como se ele representasse os líderes comunistas, de forma binária e contrária. Já a figura de Ronald Reagan é exposta como alguém democrático e complacente, que preza pela vida do seu povo. Tal representação é encontrada logo no início do filme quando o personagem discursa perante o ritual fúnebre.

“Braddock II, o início da missão” conta com uma cena em que um soldado é queimado vivo. Isto pode ser entendido como a tentativa de evidenciar o barbarismo “oriental”. Nesse sentido, infere o “barbarismo” do “Outro”, o não-eu, a frieza e crueldade dos hábitos e costumes. No filme “Braddock II, o início da missão” trata-se de enquadramento interpretativo, “[...] quando uma população parece constituir uma ameaça direta à minha vida, seus integrantes não aparecem como “vidas”, mas como uma ameaça à vida [...]” (BUTLER, 2015, p. 69). Quando o protagonista queimou outras pessoas não foi encarado como barbárie, mas como vingança contra seus algozes, não há cenas, como no filme “Platoon”, de soldados norte-americanos que maltratam civis. “Braddock II, o início da missão” faz a construção do imagético que produz o Outro, o não-eu, passando pelo dualismo “bem” e “mal”, de “Oriente totalitário, ditador e comunista” versus “Ocidente democrático, livre e capitalista”.

“Platoon”


“Platoon” é um filme de 1986 e conta a história do personagem Chris, que em 1967 partiu para combater como voluntário no Vietnã. Na batalha, seu idealismo acaba ao vivenciar as dificuldades da guerra. O filme retrata a realidade de muitos jovens que são seduzidos pelas ilusões de glória e nacionalismo relacionados com a guerra, mas acabam em decepção ao encarar a realidade. Além disso, o filme apresenta vários dramas e problemáticas, para além do protagonista, pontuando as rivalidades entre soldados, a figura dualista novamente presente, agora entre o soldado “bom” e o “mau”. O embate entre o sargento Barnes e o sargento Elias dão novas camadas de dramatização ao longa. O sargento Elias tem nome de um personagem bíblico que foi arrebatado e a obra fala da guerra com perspectiva de redenção, sendo que a própria capa é moldada neste sentido, como é possível conferir em seguida:



“Platoon” é um filme aclamado por cineastas e recebeu prêmios de cinematografia, tornou-se assim um clássico sobre a Guerra do Vietnã. A obra foi uma das primeiras a trazer o tema com um novo olhar, sendo o diretor, Oliver Stone, um ex combatente da guerra, a abordagem foi realizada a partir da própria experiência. Nesse sentido, em “Platoon” vislumbra-se um olhar sobre a guerra não mais focado na glamourização patriótica, e sim na realidade de embate em que vidas são tiradas, nesse conflito as vítimas estão presentes de ambos os lados. “Platoon” retrata ainda a condição de soldados inexperientes que são enviados para campos de batalha sem instrução. Desse modo, lança olhar para a instituição militar e a lógica hierárquica que transforma aqueles homens.

Nessas circunstâncias do lançamento de “Platoon” filmes com a abordagem de guerra em viés antibélico e humanista já haviam sido produzidos, como “Glória feita de sangue”, de 1957. “Glória feita de sangue” é uma obra pioneira em fazer um enfoque contra-histórico, pois retrata a corrupção moral e o comportamento robótico esperado dos soldados como desumanização. Entretanto, em se tratando de Vietnã, “Platoon” também pode ser considerado pioneiro, porém o filme não é propriamente sobre a guerra do Vietnã, e sim uma visão da violência e abusos cometidos contra vietnamitas. Outro mais é que o filme retrata a transformação psicológica sofrida pelos soldados, bem como as tentativas de fugir da realidade com a utilização de drogas, e ainda mostra a repressão das emoções em campo de batalha.

O diretor, em “Platoon”, levanta a temáticas como o estupro, o consumo de drogas, o preconceito, a instabilidade psíquica e emocional e a destruição da inocência. Stone aposta, no filme “Platoon”, na subjetividade dos indivíduos, o esfacelamento do desejo de se tornar um herói de guerra, algo que foi comum em muitos dos jovens mais abastados, como Chris, que queriam servir “ao seu país”, dando um “sentido para suas vidas”. Um elemento interessante é que vários soldados não professavam discursos de oficiais com patriotismos, muitos querem apenas sobreviver e voltar para casa. Diferentemente de conflitos anteriores, os Estados Unidos não saíram vitoriosos deste, ou seja, ficou difícil manter uma imagem mítica presente em outras obras cinematográficas que transmitiam essa ideia (como a segunda obra analisada neste trabalho), da Guerra de Secessão até a Primeira ou Segunda Guerra.


Duas outras figuras importantes de análise em “Platoon” são Barnes e Elias. Os dois personagens representam ideologias de forma implícita, são elas: as motivações da guerra e o maniqueísmo presente entre os blocos durante a Guerra Fria. Barnes e Elias são figuras metafóricas não apenas no sentido dicotômico do “bem” e do “mal”, mas da própria polarização nos Estados Unidos e no mundo com a cortina de ferro, seja no quesito daqueles que desejavam o fim do conflito ou dos que queriam a continuidade.

Elias passa o tempo com os colegas em um santuário que possui um cartaz com o rosto do Ho Chi Minh, eles fumam e, entre os que ali estão presentes, é maior a quantidade de homens negros, se comparado com o adversário. Enquanto isso eles estão ouvindo uma música de um grupo psicodélico da década de 1960, essa é a época do Festival de Woodstock, do movimento hippie e de seu apogeu. Entrementes, em outro cenário, na qual o Barnes se faz presente e conta com séquito, observa-se uma maioria de homens brancos, e apenas um homem negro, que fala sobre a condição dos homens negros, eles conversam sobre maconha e o hábito de “fugir da realidade”, como faziam os seguidores de Elias. Além do mais, elaboram frases sexistas e racistas, na sequência é possível visualizar, ainda, a bandeira dos Estados Confederados e uma foto de Jesus Cristo rodeada de velas com a inscrição “Jesus is Lord”, na qual um dos soldados reza.

Nesse sentido, analisando o ambiente na qual esses dois personagens convivem junto aos seus colegas e “seguidores”, o que falam, suas atitudes e toda a ambientação a qual estão inseridos, é possível perceber como as ideologias estão presentes. O filme “Platoon” tem a finalização com a frase: “A guerra era contra nós mesmos, o inimigo está em nós”. Nota com isto como a obra foca na soberania norte-americana.

Cristiane Nova apontara que “[...] Ferro alude ao processo de criação, por alguns cineastas, de uma espécie de contra-história, em que estes se contrapunham muitas vezes de forma implícita, aos poderes instituídos e, consequentemente, à história oficial [...]” (200, p. 147). É notável que Stone em “Platoon” fez esta contraposição à história oficial, rompendo com as barreiras de uma sociedade ainda rancorosa com a derrota, rompendo, sobretudo, com o heroísmo que o segundo filme analisado busca passar, de heroísmo constante, como se todos os soldados viessem das mesmas circunstâncias. Mesmo uma sociedade que tenta transmitir a imagem de homogeneidade ainda possui distinções. Afinal, “o nacionalismo funciona, em parte, produzindo e mantendo uma determinada versão do sujeito [...] ele é produzido e mantido por meio de poderosas formas de mídia” (BUTLER, 2015, p. 77).

CONSIDERAÇÕES FINAIS


As obras cinematográficas “Corações e Mentes” (1974), “Braddock II: O Início da Missão” (1985) e “Platoon”, (1986) foram incorporadas na sociedade norte-americana e em outros países de formas distintas, afinal “[...] um povo não aceita todos os elementos culturais do outro, mas apenas parte, e, mesmo assim, dando a eles novos sentidos [...]” (TOTA, 2000, p. 193). Como era uma era de tensão mundial, teve efeitos em outros países, mas isso daria outra pesquisa. Fato é que é preciso estar atento aos discursos das produções, encarando suas zonas de realidades não visíveis, se possuem elementos de contra-história, quem a produz e a recebe.


A alçada do cinema norte-americano é composta de elementos de culturas, povos, etnias, “[...] a representação de árabes que seguem a fé islâmica é, nos blockbusters do cinema norte-americano, majoritariamente ligada a papéis de vilões. E não é de hoje, desde o início, a produção cinematográfica daquele país consolidou um grande poder de influência [...]” (ESTEVES, MELO, 2014, p. 01), uma influência com tal representação imagética nos espectadores.

Em suma, a partir das três obras cinematográficas foi possível perceber como o viés do diretor é exposto e pode ser diagnosticado na produção final. No primeiro, “Corações e Mentes”, um documentário pioneiro em evidenciar um lado da história na guerra geralmente não apresentado na representação que a sociedade norte-americana faz da figura do “outro”, distante, diferente e “primitivo”, como colocado nos discursos de ex-combatentes.


Sendo assim, “[...] é preciso esclarecer sobre o discurso cultural e o intercâmbio no interior de uma cultura que o que costuma circular não é “verdade”, mas representação. [...]” (SAID, 1990, p. 33). Assim, Peter Davis coloca as contradições discursivas por meio da convergência de imagens e discursos, trazendo a contra-história, a desmistificação de discursos que se tornavam hegemônicos em setores da sociedade. Como narra Ferro “[...] confrontar os diferentes discursos da História, a descobrir, graças a esse confronto, uma realidade não visível. [...]” (1992, p. 77), isto é, realidades não visíveis para setores daquela sociedade naquele momento, como no caso do filme “Corações e Mentes”.


“Braddock”, retrata as camadas do anticomunismo da época e as políticas governamentais, um filme feito para a sociedade norte-americana desejosa de heróis. Enquanto que “Platoon” surge na contramão desse discurso heroico, expondo as minúcias dos que iam lutar naquela guerra, suas aflições, ambições e temores. Sendo assim, é posto a discrepância presente nas três obras, marcando o papel do cinema como fonte de protesto ou de complacência em nível nacional e mundial.

 

COMO CITAR ESSE ARTIGO


PRADO, Kelvin Oliveira do. Cinema e História: A Guerra do Vietnã. In:. Revista Me Conta Essa História, a.I, n.09, set. 2020. ISSN 2675-3340. Disponível em: https://www.mecontaessahistoria.com.br/post/cinema-e-hist%C3%B3ria-a-guerra-do-vietn%C3%A3 . Acesso em:

 

BIBLIOGRAFIA


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[1] Aquilo que é um contradiscurso, batendo de frente com a narrativa hegemônica, oficializada, que estabelece caráter de verdade absoluta e é conquistada por meio da violência, seja ela física ou simbólica, ou seja, o consenso advém da violência perpetrada. É possível aprofundar-se em exemplos de contra-história com: “Contra-história do liberalismo” de Domenico Losurdo; “O silêncio dos vencidos” de Edgar de Decca; ou “Genealogia do racismo” de Michel Foucault.

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