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CONTOS ERÓTICOS ESCRITOS POR SENHORAS:LITERATURA NA CONTRAMÃO DA PANDEMIA DO ABSURDO


 

RESENHA

 

LEPH - Revista Me Conta Essa História Abr. 2020 Ano I Nº 004 ISSN - 2675-3340 UFJ.

 

Por Clarissa Adjuto Ulhoa


Professora do Curso de História da UFJ e coordenadora do clube de leitura escrtitAS.

 

Uma resenha da obra:

JASWAL, Balli Kaur. Escola de contos eróticos para viúvas. São Paulo: Planeta do Brasil, 2019 [Primeira edição: 2017].

 

Estou aqui, em pleno isolamento social por conta da pandemia do coronavírus, imbuída de apresentar um pouco da obra Escola de contos eróticos para viúvas, da talentosa Balli Kaur Jaswal. É que, apesar de não estar me sentindo muito animada para escrever diante das circunstâncias, não posso guardar essa preciosidade só pra mim, sabe como é? Mas também não tenho como ignorar que escrevo desde o que estou chamando de pandemia do absurdo.


Minha rotina, assim como a de outras pessoas no mundo inteiro, mudou completamente, meio que do dia pra noite. Mas, tem coisas que parecem nunca mudar. Das desigualdades sociais, raciais e de gênero, novidade mesmo só o componente covid. Pobres, negros, indígenas e mulheres seguem sendo negligenciados, naquele conhecido estilo salve-se quem puder. Do presidente brasileiro, novidade mesmo só a máscara-tapa-olho (tendência!). Egocentrismo, negacionismo e elitismo continuam a ser a tônica de seu governo, o que dá aquele desespero adicional. Da parte de seus séquitos, novidade mesmo só as carreatas em defesa de algo que futuramente os poderá prejudicar diretamente. Não, espera... nem mesmo isso é novidade! Idolatria, cegueira e irresponsabilidade celadas com apertos de mãos de saúde duvidosa seguem sendo motivos para se aglomerarem no cercadinho próximo ao Palácio do Planalto.

Do primeiro caso de coronavírus registrado no país pra cá, temos experimentado tantos absurdos que nem sei. É ministro da economia propondo dois trocados de renda emergencial, enquanto passeia todo faceiro pela orla de Ipanema. É ministro da educação imitando o Cebolinha para incitar ódio contra os chineses, mostrando ao mundo que tem competência para substituir o personagem quando o assunto é plano infalível. É empresário de sanduíche que ignora o impacto das mortes provocadas pela covid em nome do seu próprio lucro, o que, cá pra nós, só acentua minha preferência por pão com mortadela feito em casa mesmo. Mas, dentre os inúmeros absurdos possíveis, quero destacar um: a naturalidade com que algumas figuras têm demonstrado completo desdém diante da necessidade de se preservar a vida dos idosos. Para essa gente, as sinapses funcionam assim: se morre um punhado de idosos não tem problema, pois, aos olhos do mercado, não são mesmo exemplos de produtividade. É liberalismo econômico recheado de preconceito, receita muito apreciada pelos endinheirados.

Um deles é bastante conhecido pelos brasileiros, não porque acompanhamos a lista de ricaços da Revista Forbes, mas porque apresentou um programa sobre negócios que acumulou alguma audiência no país. Roberto Justos, em uma mensagem de áudio que escapou de sua intimidade, disse o seguinte: “quem entende mesmo de estatística vê que os números são irrisórios. E quem morre mesmo são os velhinhos. E, mesmo os velhinhos, só 10%, 15% deles morrem”. Reparem o tom de tudo-bem-se-for-alguns-porcento. Reparem que usa “velhinhos” ao invés de “velhos”, como se quanto mais idade tiver menor será seu valor. Reparem que tenta desculpar sua própria desumanidade na suposta ignorância do outro: coitado, ele não tem culpa se entende tanto de estatística. Em uma única mensagem, além de mostrar que só se preocupa com a própria fortuna, o empresário expressa seu preconceito etário. Ou melhor, exala seu desprezo pelos idosos das classes trabalhadoras, claro, porque ele próprio, na altura de seus 64, de tão rico nem idoso é. Partindo de uma retórica machista, ele está na categoria de “coroa charmoso” que, segundo fontes seguras, é imune ao corona e salve a cloroquina.

Diante dessa pandemia do absurdo, somado ao isolamento social, eu provavelmente teria um treco se não fosse, obviamente, o meu histórico de atleta (vai que cola!). Mas o que tem mesmo segurado minha onda é a literatura, que, mais do que nunca, tem me oferecido não apenas alimento para a alma e acalento para o coração, como também parâmetros para compreender e intervir na realidade. Por uma enorme coincidência, no momento em que a mídia mais frequentemente divulgava toda sorte de discursos pautados no preconceito etário, eu tinha acabado de iniciar a leitura de uma obra que narra as experiências de um grupo de mulheres viúvas. Enquanto lia, me percebi pensando que sem aquelas personagens, sem aquelas interessantes senhoras, a história perderia por completo sua potência. Ou melhor, ela sequer existiria! E o mesmo raciocínio serve para as muitas histórias e para as muitas experiências que existem nesse mundão afora, não é? Em se tratando de literatura, tem hora que acredito um pouquinho em mágica, como se o livro soubesse o momento certo de se apresentar a nós.

Está bem, deixa eu assumir: o nome da obra me chamou atenção logo de cara. Escola de contos eróticos para viúvas? Uau! Pensei cá comigo que um tantinho (ou um tantão, porque não?) de erotismo na quarentena cairia bem. Também me instigou bastante a possibilidade de conhecer os escritos de uma autora singapurana, como é o caso de Balli Kaur Jaswal, que tem dois livros publicados antes deste de 2017. E, ao percorrer os capítulos, me dei conta do enorme número de temas abarcados, além, claro, da sexualidade das mulheres viúvas, tais como identidade, conservadorismo, comunidade, imigração e feminismo. Gostei muito de ler uma história escrita por uma mulher, em que as personagens mais importantes também são mulheres, cada uma delas reconhecíveis em suas características mais particulares. E, para completar, o enredo se encontra perpassado por um mistério, daqueles do tipo cinema suspense. Lá pelos últimos capítulos o mistério se desmancha e podemos compreender melhor tudo que se passou até ali. Desfecho doloroso, mas sobre o qual nós precisamos falar!

Londres é a cidade em que a história se passa. Não uma Londres qualquer, certamente, mas sim aquela que nos é apresentada pela personagem principal, uma jovem chamada Nikki. Ela circula entre uma tradicional comunidade indiana punjabi, cultura em que foi criada por seus pais, e o prédio em que mora e trabalha, situado no subúrbio londrino. Nikki nos apresenta questões típicas dos filhos de famílias imigrantes: de um lado, as influências da cultura punjabi, de outro, as influências da cultura inglesa. Embates decorrentes dessa experiência de fronteira atuam como espinha dorsal do enredo, atingindo, portanto, a experiência de quase todas as personagens. Em uma passagem interessante, Nikki e Mindi, sua irmã, discutem sobre o costume dos casamentos arranjados entre os punjabi. Nikki, que se aproxima das ideias do feminismo, critica a prática matrimonial, ao contrário de Mindi, que se empenha em achar alguém que queira se casar segundo a tradição. Em nome de sua busca, Mindi convence Nikki a pregar no mural do templo punjabi um anúncio a procura de marido.

Mesmo contrariada, Nikki atende ao pedido da irmã. E, ao passar o olho pelo mural do templo, percebe que o mesmo não era usado apenas para procurar ou encontrar pretendentes, pois um dos folhetos buscava alguém para dar aulas de escrita para uma turma de mulheres punjabi na Associação Comunitária Sikh, coordenada por uma senhora chamada Kulwinder. Nikki, que recebia muito pouco em seu emprego, decide se candidatar ao posto de professora, confiando que seu interesse pela escrita seria suficiente. Para sua surpresa, ela é selecionada. Nervosa, em seu primeiro dia de aula Nikki aguarda um número grande de alunas, mas, em um primeiro momento, aparecem só cinco: Preetam, Tarampal, Sheena, Arvinder e Manjeet. Com o andar das aulas, as coisas fogem do que a professora tinha imaginado a princípio, pois as alunas passaram a elaborar contos eróticos, cheios de detalhes e ricos em metáforas. Nikki decide incentivar as viúvas a continuarem às escondidas. Mas, ao mesmo tempo em que considera os contos uma forma de expressão potente, sabe que são igualmente perigosos, inseridos que estão em uma comunidade que reivindica dessas mulheres nada além do recato.

Não tem como saber ao certo a idade de todas aquelas alunas e garantir que pudessem ser chamadas de “velhinhas”. Não sei se elas entrariam de fato nos 10% ou 15% que podem morrer segundo Roberto Justus. Mas parto da ideia de que, em uma comunidade conservadora como a punjabi relatada na história, das viúvas se espera algo parecido com o que o empresário parece atribuir aos idosos em geral: uma espécie de não existência. Em uma das passagens que destaquei no decorrer da leitura, Manjeet conta que o grupo conversou sobre os contos no ônibus, a caminho da aula. Quando perguntadas se não tinham receio de serem ouvidas, Arvinder responde: “ninguém fica ouvindo conversa de senhoras. Para as pessoas, nossa voz não passa de um ruído de fundo. Elas acham que estamos falando de dor no joelho e planos para o funeral” (p. 118). Percebam que, por um lado, elas têm consciência de que pouco são notadas em seus cotidianos, mas, de outro, se apropriam estrategicamente dessa realidade em nome de alguma liberdade para conversar sobre seus contos até mesmo dentro do ônibus.

O Escola de contos eróticos para viúvas nos lembra a todos que os nossos “mais velhos” são, antes de mais nada, sujeitos ativos de suas próprias histórias e, sendo assim, mobilizam estratégias, negociam espaços, expressam saberes. Essa obra nos mostra que um grupo de senhoras pode ser central nas e para além das páginas de uma obra literária, se constituindo, inclusive, como a ala mais criativa de todo o enredo e de toda a vida. Nos recorda que os idosos podem se expressar de maneiras diversas, inclusive eroticamente se assim quiserem, ao mesmo tempo em que podem usar os seus corpos para terem sensações inúmeras, inclusive tesão se assim desejarem. É que os nossos “mais velhos” existem, sabe como é? Não que eu queira limitar a existência à sexualidade, mas, se a considerarmos como parte importante do ato de estar no mundo, acho que cabe partirmos dessa referência, para então pensarmos sobre toda a complexidade inerente à ideia do que é estar vivo. Indignada por notar que isso não é óbvio pra todo mundo (como pode?), o que quero mesmo é destacar que essas vidas importam, tal como a minha, tal como a sua. Ninguém pode morrer, nem um porcento.

Nos últimos dias, minhas redes sociais têm me apresentado a todo instante um tutorial sobre como lidar com o isolamento: faça isso, faça aquilo. Boa parte deles não me convencem e, se quer saber, tem alguns que me dão até nervoso. Então, saiba que não quero ser mais uma pessoa que dá uma dicazinha esperta que você nem pediu. Mas, preciso confessar que meus dedos estão coçando para digitar: leia literatura, especialmente no isolamento, hashtag fica a dica! Leia o Escola de contos eróticos para viúvas e me chama pra conversar sobre! Só que quero que fique tranquilo(a), não vou escrever isso. Não mesmo (risos!). No fim das contas, queria apenas compartilhar com vocês, assim, meio despretensiosamente, que a literatura tem sido uma fonte importante de alento e de análise, tem me auxiliado a digerir e dirigir minha indignação. Tem uma outra coisa também: saudades de conversar com outras pessoas além daquelas que se isolaram comigo (me perdoem, companheiros de quarentena, não me abandonem, por favor). Então... oi, como está você desse lado aí? Eu estou assim: em tempos de pandemônio do absurdo, dentro das possibilidades que os meus privilégios asseguram (que não deveriam ser privilégios de alguns, mas sim garantias para todas e todos), me agarro na literatura, no álcool em gel, nas mãos limpas, no fique em casa e, claro, no FORA Bolsonaro.

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COMO CITAR ESSA RESENHA


ULHOA, Clarissa Adjuto. RESENHA: Contos Eróticos Escritos Por Senhoras:Literatura Na Contramão Da Pandemia Do Absurdo. In:. Revista Me Conta Essa História, a.I, n.04, abr. 2020. ISSN 2675-3340. Disponível em: <https://www.mecontaessahistoria.com.br/post/contos-er%C3%B3ticos-escritos-por-senhoras-literatura-na-contram%C3%A3o-da-pandemia-do-absurdo> Acesso em:

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