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HISTÓRIAS TÃO ESQUECIDAS: A PRODUÇÃO DE SILENCIAMENTOS SOBRE O HOSPITAL PSIQUIÁTRICO ADAUTO BOTELHO

LEPH - Revista Me Conta Essa História Mai. 2021 Ano II Nº 017 ISSN - 2675-3340 UFJ.

 

Por Douglas Duarte Nunes [1] & Natália Alves de Almeida [2] & Vitor Alves Souza Alecrim [3]

[1] Discente do Curso de História, 6º período, pela Universidade Federal de Jataí - douglasduarteufj@gmail.com

[2] Discente do Curso de História, 6º período, pela Universidade Federal de Jataí - natyalves928@gmail.com

[3] Discente do Curso de História, 6º período, pela Universidade Federal de Jataí - vitordalecrim1@gmail.com

 

RESUMO


O presente ensaio faz parte da disciplina Patrimônio Cultural da Saúde, ministrada no período 2020.3. Nossa intenção é produzir uma análise acerca das disputas de memória em torno dos patrimônios, partindo de um caso específico, que é o Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho de Goiânia, cujo tombamento foi pedido em 1997, mas foi negado, propomos buscar uma reflexão do porque esses espaços são ressignificados além disso queremos analisar o porquê da dificuldade de se lidar com espaços ligados com a dor e com a miséria, produzindo esquecimentos sobre esses espaços, os acontecimentos, mas principalmente, sobre as pessoas que ali viviam e que tiveram suas vidas roubadas pela negligência do Estado.

Palavras-Chave: Ressignificação. Patrimônio Cultural. Esquecimento.

 

INTRODUÇÃO


O Patrimônio sempre esteve muito ligado à história nacional e a comemoração, mas nunca soube muito bem lidar com a dor, a tragédia, e a miséria humana. Mas porque patrimonializar lugares onde há tantas memórias de dor? Segundo Juliane Serres “preservação do patrimônio corresponde também ao reconhecimento de identidades[...]luta pelo direito à memória, na qual os atores sociais, envolvidos nesses processos, convertem-se em atores patrimoniais, exigindo o reconhecimento e a legitimidade de seu(s) patrimônio(s).” (SERRES, 2015. p 1412).


Nossa proposta é desenvolver uma análise acerca da Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, construído em 1954, localizado em Goiânia. Atualmente no lugar onde ficava localizado o hospital, há o funcionamento do CRER (Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr Henrique Santillo) e ao lado fica o Parque Agropecuário. Pretendemos discutir quais os interesses que estão ligados a ressignificação do hospital, para um lugar de superação que é o CRER, além disso, analisar quais são as disputas de memória acerca do Patrimônio e porque se produz esquecimento sobre determinadas espaços e acontecimentos, e se mantém certas continuidades.


AS DISPUTAS PELO PATRIMÔNIO


Os patrimônios contam história e fazem parte do dia-a-dia da população em geral, responsáveis por criar narrativas históricas, nisso percebemos um profundo interesse no que se escolhe preservar e quem faz essas escolhas, pois criando narrativas, eles também geram questionamentos, ressignificam imaginários sociais e fazem parte da construção das nossas identidades. Nisso podemos questionar o porquê da falta de hospitais que são tombados como patrimônio, entendemos que há o desejo de silenciar as memórias desses espaços, silenciando também suas vítimas, além disso, quando nos distanciamos dessas memórias dolorosas, também estamos negando uma identidade que é nossa, pois “a memória pode tanto reforçar (no caso da lembrança) e enfraquecer (no caso do esquecimento) o sentimento de nossa identidade"(CANDAU, 2010, p 47). e dar voz a essas memórias nos faz também construir um exercício de empatia com elas.


Antes de adentramos propriamente nas Disputas pelo Patrimônio, vemos como necessário falar um pouco sobre o Hospital Psiquiátrico de Adauto Botelho, o qual foi criado em 1954, com o intuito de dar assistência para pessoas com doenças mentais, onde os considerados indesejáveis sociais eram colocados naquele espaço e lá passavam a sua vida inteira, tendo suas vontades negligenciadas. Como aponta Ronivaldo Santos, o Adauto representa, portanto, uma cultura do encerramento e do controle, desta forma, “Se a cultura é de controle, suas instituições são ao mesmo tempo a produtora do discurso e do combate efetivo aos considerados desviantes: criminosos, mendigos, alcoólatras, loucos e todos os outros anormais possíveis.” (SANTOS, 2018, p 115).


Sendo fechado em 1997 após a descoberta das violações dos Direitos Humanos, anos depois em 2001, seria criado a Lei Antimanicomial, qual iria traçar um plano da saúde mental, ou seja, uma exigência normativa que desativava os manicômios criados até a efetivação da lei. Valéria Bergamini, nos diz que a luta manicomial é marcada por uma série de resistências, isso desde da década de 1960 e que permaneceram mesmo com as leis, estas resistências aparecem sempre como uma tentativa de enterrar os erros e ressignificá-los de alguma forma.


O tombamento do espaço do hospital foi pedido, mas foi negado [1], pois havia um interesse da SGPA (Sociedade Goiana de Pecuária e Agropecuária) em expandir o Parque Agropecuário, nisso percebemos o interesse econômico pelo terreno do Hospital, mais do que isso, há uma vontade de esquecer o que se passou no espaço do Adauto, como aconteceu em outros tantos hospitais, mas consideramos que o esquecimento é uma enorme violação para com as pessoas vítimas desses hospitais, pois, se continuamos a silenciar esses sobreviventes e vítimas estamos violentando pela segunda vez, e simbolicamente negando sua memória. Durante este pedido de tombamento houve por parte do Secretário da Cultura, ou seja, uma figura representativa do Estado, um descaso para com o pedido de tombamento por parte do Fórum Goiano de Saúde Mental [2], ou seja, o Estado buscando retirar a culpa que poderia recair sobre ele, referente ao Hospital.


A produção do esquecimento, além de vir da sociedade em geral também vem do Estado, pois muitas vezes ele tinha conhecimento das atrocidades que aconteciam. Sua intenção, ao não declarar abertamente a verdade sobre o Hospital, o abstém de assumir responsabilidades para com os sobreviventes e as vítimas, pois a partir do momento que ele assume que tais fatos ocorreram, ele passa a ter uma dívida histórica de reparação. Desta forma o processo de ressignificação do espaço em questão se torna uma forma de varrer para baixo do tapete as responsabilidades vinculadas ao Estado.


O registro da memória é certamente seletivo, logo esquecer tem objetivos, se produzir um esquecimento sobre determinado acontecimento, ou seja, dizer que ele não ocorreu, no caso do Adauto Botelho. O processo de esquecimento mais voraz, foi a demolição do Antigo Hospital e a criação de um moderno Centro de Reabilitação (CRER). Os patrimônios contam histórias e fazem parte do dia-a-dia da população em geral, responsáveis por criar narrativas históricas, a partir do momento que se nega o tombamento do hospital, a narrativa que se cria é da inexistência dos acontecimentos, e a criação do CRER, entendido como um espaço de superação, constrói uma outra narrativa, pois como já citamos anteriormente, a questão do patrimônio nunca soube lidar com a dor, nisso podemos ver o quanto a criação do Centro de Reabilitação ressignifica as história dos hospital.


E QUE RESSIGNIFICACÇÃO É ESSA QUE O CRER CRIA?


O CRER, cria ao nosso ver, continuidades, rupturas e transformações, com sua ressignificação do espaço pertencente ao antigo Hospital Adauto. O processo de demolição e construção do Centro, por si só, já se opera como um forte aspecto da ressignificação, pois apaga por completo a memória físico-patrimonial do Hospital, o retirando do imaginário social, como um edifício que existiu e que manteve um processo de memória traumática. Outro aspecto que ressignifica o espaço, é a nova metodologia da medicina que por muito tempo apenas isolava e excluía seus pacientes. Por meio de várias lutas e protestos, os profissionais da saúde, foram assegurados pela lei, e a implantação do tratamento humanizado. Apesar da reforma, devemos nos atentar a elaboração prática, para que tais tragédias nunca mais ocorram.


O CRER como nova instituição manteve certos aspectos referentes ao antigo hospital, mesmo com a Lei Antimanicomial, ele ainda carrega consigo uma áurea Manicomial, uma continuidade percebida nas entrelinhas da instituição, pois ainda é visto de certa forma como um espaço de “depósito”, mas comparado ao antigo hospital, os novos indesejáveis sociais selecionados pelo CRER, são os dependentes químicos.


CONCLUSÃO


Nós percebemos, a partir do exposto, e verificamos que as intencionalidades acerca do que se preservar parte de vários motivos, a negação da dor, a negação por parte do Estado e sua conduta eugenista, a negação de uma identidade que é baseado na tragédia, além disso, ainda que haja novos sujeitos históricos e novas demandas de narrativas, o patrimônio ainda é muito ligado à história nacional e a comemoração.


Concluímos também que a importância de se haver hospitais e espaços ligados à saúde, com memórias traumáticas faz com que essas vítimas e sobreviventes não sejam mais uma vez silenciados e negligenciados, pois suas memórias geram questionamentos, principalmente sobre as doenças mentais, ainda carregadas de estereótipos na nossa atualidade, com suas memórias sendo ouvidas, produzimos, enquanto sociedade, um exercício de empatia para com aquelas pessoas, e conhecendo suas histórias, construímos uma consciência de que se é preciso sempre estar atento para que tais fatos nunca mais ocorram.


Em termos de comparação, ao nosso ver podemos fazer uma ligação com A Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, o qual Flávia Azevedo Monteiro, em sua tese, discorre sobre o processo de mudanças e ressignificações que a Santa Casa sofreu, desta forma é possível perceber que tais processos não são meramente modernos, mas sim, utilizados em períodos históricos diferentes. Revelando que ressignificar e provocar mudanças em espaços de memória traumática e ligados a saúde, é algo comum e que ainda continua a ser colocado em prática até hoje, como uma forma de não tratar ou falar sobre as memórias traumáticas destes lugares.

 

COMO CITAR ESSE ARTIGO


NUNES, Douglas Duarte; ALMEIDA, Natália Alves de; ALECRIM, Vitor Alves Souza. Histórias Tão Esquecidas: A Produção de Silenciamentos Sobre o Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho. In:. Revista Me Conta Essa História, a.II, n.17, mai, 2021. ISSN 2675-3340. Disponível em: . Acesso em:

 

REFERÊNCIAS


CANDAU, Jöel. Bases antropológicas e expressões mundanas na busca patrimonial: memória, tradição e identidade. Revista Memória em Rede, v.1, n.1, p.43-57. 2010. Disponível em: https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/Memoria/article/view/9564.


BERGAMINI. Os sentidos do museu da loucura e a ressignificação da cidade de barbacena em quinze anos de reforma psiquiátrica. In: SAPPIL, 2018, NITEROI. Anais do IX SAPPIL - Estudos de Linguagem, 2018. Disponível em: http://www.anaisdosappil.uff.br/index.php/IXSAPPIL-Ling/article/view/1094.


SANTOS, Ronivaldo De Oliveira Rego. O Projeto Do Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho De Goiânia Em Uma História Da Loucura No Brasil (1930-1950). 2018. 192 F. Dissertação (Programa De Pós-Graduação STRICTO SENSU Em História) - Pontifícia Universidade Católica De Goiás, Goiânia-GO. Disponível em: http://tede2.pucgoias.edu.br:8080/handle/tede/3923.

SERRES, Juliane Conceição Primon. Preservação do patrimônio cultural da saúde no Brasil: uma questão emergente. História, Ciências, Saúde? Manguinhos, Rio de Janeiro, v.22, n.4, p.1411-1426, out./dez. 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/hcsm/v22n4/0104-5970-hcsm-22-4-1411.pdf.


MONTEIRO, Flávia de Azevedo. O Patrimônio Arquitetônico da Saúde. Discussões sobre Arquitetura Hospitalar Brasileira no Século XIX. 2014. Dissertação (Mestrado em Artes) da Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2014, p.63-102. Disponível em: http://www.artes.ufes.br/pt-br/pos-graduacao/PPGA/detalhes-da-tese?id=8198.

 

ANEXOS


Anexo 1:

[1] Um anexo referente a este tema pode ser encontrado ao final do Ensaio, uma tira do O Popular de 1997.

 

Anexo 2:


[2] Um anexo referente a este tema pode ser encontrado ao final do Ensaio, sobre o SPGA e a demolição.

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