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INVISIBILIDADE, MARGINALIZAÇÃO DE TRAVESTIS: UMA PEQUENA REFLEXÃO


 

LEPH - Revista Me Conta Essa História Jul. 2020 Ano I Nº 007 ISSN - 2675-3340 UFJ.

 

Por Cássio Santos Franco


[1] Universidade Federal de Jataí - UFJ

 

INTRODUÇÃO


A compreensão do conceito de identidade de gênero é composta de diversas proposições de caráter religioso, filosófico e científico, mas que dependendo de suas similaridades podem ser apresentadas em conjunto. Nas palavras de Lincoln Rondas e Lucília Machado: “A identidade de gênero se refere ao conceito que alguém tem de si próprio com respeito às suas características biopsíquicas e culturais, se masculinas, femininas ou ambivalentes.” (RONDAS, 2015) (MACHADO, 2015). O termo travesti então, pode se definir, nas palavras de Borba e Ostermann como: "indivíduos biologicamente masculinos que, através da utilização de um complexo sistema de techniques du corps, moldam seus corpos com características ideologicamente associadas ao feminino" (BORBA & OSTEMANN, 2008, p.410).


Diante destas informações, proponho a seguinte reflexão: Alguém que nasceu com um pênis, imediatamente é associado a um menino. Cria-se um universo de expectativas sobre esse alguém, antes mesmo de nascer. Um universo com a cor azul, projetando um alguém que vai nascer, crescer rodeado de outros meninos brincando de futebol ou alguma característica associada ao universo masculino, se comportando como um homem na fase adulta e que se veste como tal. De acordo com Butler: “Sujeitado ao gênero, mas subjetivado pelo gênero, o “eu” nem precede, nem segue o processo dessa “criação de um gênero”, mas apenas emerge no âmbito e como a matriz das relações de gênero propriamente ditas” (Butler, 1993). Algo extremamente “normal”. Mas por que isso é algo considerado inquestionável e natural? Quais são os argumentos para se considerar algo “normal”? São verdades impostas pela sociedade e que são consideradas inquestionáveis, ligadas diretamente a uma hierarquia baseada nas relações de poder prescritas. Mas de fato existe uma verdade inquestionável? Nenhuma “verdade” é neutra, soberana e imutável. Ela é relativa e precisa ser contextualizada (Foucault, 2008).


Inseridas nessa sociedade, onde na verdade não estão, as travestis e transexuais são invisibilizadas. Seguindo o sentido contrário ao que se espera levando em consideração ao gênero atribuído ao nascimento ou mesmo antes dele, e assumindo a sua real identidade de gênero, tornam-se corpos invisíveis aos direitos humanos para todos, estipulados por lei, juntamente com o convívio social e principalmente às oportunidades no mercado de trabalho.


Contraditoriamente, a sociedade assassina e hipócrita que as marginalizam e as matam todos os dias, é a mesma que objetificam e desejam seus corpos. O Brasil é o país que mais procura por pornografia que envolve travestis e transexuais no Redtube (GERMANO, 2018). O site pornô fez um levantamento, não revelando números exatos, mas deixa bem evidente o desejo do brasileiro. “Shemale” é o termo gringo que é usado em sites adultos para a busca de vídeos pornôs com transexuais, sendo o quarto tópico mais buscado pelos brasileiros. O Brasil matou ao menos 868 travestis e transexuais nos últimos oito anos, o que o deixa, disparado, no topo do ranking de países com mais registros de homicídios de pessoas transgêneras. (TGEu, 2016).


Essa marginalização, começa dentro do âmbito familiar. Elas saem de casa muito jovens, ou são expulsas, fazendo com que a prostituição, na maioria dos casos, seja a única escolha, funcionando como uma válvula de escape para a sua sobrevivência e como uma única forma de se manter financeiramente. Através das entrevistas que irão ser realizadas no desenrolar deste trabalho com as travestis e transexuais que residem na cidade de Jataí, pretendo me aprofundar mais, utilizando de suas próprias experiências e problematizando essa questão.

DESENVOLVIMENTO


Estamos inseridos em uma sociedade heteronormativa, onde a heterossexualidade é validada como a única condição sexual “normal”, ou até mesmo a condição “correta” que deve ser seguida. Segundo Michel Foucault:

[...] cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro. (FOUCAULT, 2000, p. 12)

Homens assumindo seus papéis de homem predestinados socialmente, assim como as mulheres assumindo seu papel de como a mulher deve ser e se comportar. Assim, Butler afirma: “O gênero é o mecanismo pelo quais as noções de masculino e feminino são produzidas e naturalizadas, mas ele poderia ser muito bem o dispositivo pelo qual estes termos são decontruídos e desnaturalizados” (Butler, 2006). As travestis e transexuais são desviantes diante dessa norma imposta, seguindo um caminho contrário ao que a sociedade espera.


Assumindo a sua real identidade, a exclusão social se dá início no âmbito familiar, onde são expulsas de casa pela própria família logo na adolescência, quando não são assassinadas. Simultaneamente, o ambiente escolar é um outro obstáculo. Onde deveria ser um âmbito de socialização e de integralização das diferenças, é um lugar onde os colegas, funcionários e os próprios professores não conseguem assimilar o processo de transição em que elas se encontram em relação a mudança do nome social e no processo das mudanças físicas, sendo rejeitadas e violentadas, fazendo com que encerrem precocemente a trajetória acadêmica. É mais do que urgente que a discussão sobre sexualidade e gênero se faça presente nos conteúdos em sala de aula. Como as travestis e transexuais terão visibilidade e serão incluídas na sociedade se a própria sociedade não tem a informação necessária para isso, e se os próprios profissionais da educação não são capacitados e instruídos acerca das discussões para que possam lidar com as diferenças presentes dentro de uma sala de aula? Assim como a construção da ideia de heteronormatividade foi imposta e repassada de geração em geração e a sociedade compreende e respeita, se houver a presença da discussão sobre sexualidade e gênero, as oportunidades provavelmente tendem a ser igualitárias.


No mercado de trabalho, a escolaridade é quase sempre imprescindível para que se possa ter uma oportunidade. Associando a interrupção precoce da educação à aparência desviante do que a sociedade espera, as chances de uma travesti e uma transexual conseguir um emprego é quase nula, fazendo com que a prostituição seja, em vários casos, a única e última saída como forma de se manter financeiramente. Quando em empregos formais, a maioria das travestis tem contato com pessoas que costumam tratá-las de modo derrisório, desrespeitoso e humilhante (Kulick, 2008).


Não há a presença de políticas públicas que ajudem a parcela da população em questão. É-lhes negado - ou severamente limitado - o acesso aos espaços públicos (Kulick, 2008). É mais do que necessário que haja a criação de projetos, em todas as áreas que possam atender às necessidades dessa parcela da população que são vistas como objetos desprezíveis, e não como seres humanos.


Guacira Lopes Louro compreende o conceito de gênero e sexualidade como uma construção social. Para Louro:

“Os corpos ganham sentido socialmente. A inscrição dos gêneros — feminino ou masculino — nos corpos é feita, sempre, no contexto de uma determinada cultura e, portanto, com as marcas dessa cultura. As possibilidades da sexualidade — das formas de expressar os desejos e prazeres — também são sempre socialmente estabelecidas e codificadas. As identidades de gênero e sexuais são, portanto, compostas e definidas por relações sociais, elas são moldadas pelas redes de poder de uma sociedade.” (LOURO, 2000).

Segundo Berenice Bento, a construção do gênero está ligado em algumas instituições. De acordo com Bento:

[...] podemos analisar gênero como uma sofisticada tecnologia social heteronormativa, operacionalizada pelas instituições médicas, linguísticas, domésticas, escolares e que produzem constantemente corpos-homens e corpos-mulheres. Uma das formas para se reproduzir a heterossexualidade consiste em cultivar os corpos em sexos diferentes, com aparências “naturais” e disposições sexuais diferentes. (BENTO, Berenice, 2006, p. 1).

Para Butler: “expressões tais como “problemas de Gênero”, “gender blending”, “transgêneros” e “cross-gender” já sugerem o ultrapassamento deste binarismo naturalizado” (Butler, 2006).

 

COMO CITAR ESSE ARTIGO


FRANCO, Cássio Santos. Invisibilidade, Marginalização De Travestis: Uma Pequena Reflexão. In:. Revista Me Conta Essa História, a.I, n.07, jul. 2020. ISSN 2675-3340. Disponível em: < https://www.mecontaessahistoria.com.br/post/invisibilidade-marginaliza%C3%A7%C3%A3o-de-travestis-uma-pequena-reflex%C3%A3o> Acesso em:

 

REFERÊNCIAS


BENTO, Berenice. Corpos e próteses: dos limites discursivos do dimorfismo. Florianópolis: UFSC, 2006.


BORBA, R. & OSTEMANN, A. C. Gênero ilimitado: a construção discursiva da identidade travesti através da manipulação do sistema de gênero gramatical. Estudos Feministas. 2008.


BUTLER, Judith. Bodies that Matter: On the discursive limits of “sex”. New York, Routledge, 1993.


BUTLER, Judith. Défaire le Genre. Paris, Éditions Amsterdam, 2006.


CUNHA, Thaís. Brasuk lidera ranking mundial de assassinatos de transexuais. Disponível em: http://especiais.correiobraziliense.com.br/brasil-lidera-ranking-mundial-de-assassinatos-de-transexuais. Acesso em: 25 jun. 2019.


FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. São Paulo: Forense Universitária, 2008.


FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2000.


GERMANI, Felipe. Brasil é o país que mais procura por transexuais no RedTube – e o que mais comete crimes transfóbicos nas ruas. 2016. Disponível em: https://super.abril.com.br/comportamento/brasil-e-o-pais-que-mais-procura-por-transexuais-no-redtube-e-o-que-mais-comete-crimes-transfobicos-nas-ruas/. Acesso em: 25 jun. 2019.


IBGE - INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Dados socioeconômicos do município de Jataí – Goiás. Jataí, 2018. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/go/jatai/panorama. Acesso em: 25 jun. 2019.


KULICK, Don. Travesti: prostituição, sexo, gênero e cultura no Brasil. (Trad. Cesar Gordon), Rio de Janeiro: Editora Fiocruz. 2008.


LOURO, Guacira. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.


OLIVEIRA, Thiago. Espacialização e territorialização da prostituição na cidade de Jataí-GO no ano de 2014. Jataí, 2014. Disponível em: https://geoinfo.jatai.ufg.br/up/928/o/Espacializa%C3%A7%C3%A3o_e_Terrotorializa%C3%A7%C3%A3o_da_Prostitui%C3%A7%C3%A3o_Na_cidade_de_Jata%C3%AD-_Go_no_Ano_de_2014.pdf?1491504171. Acesso em: 25 jun. 2019.


RONDAS, Lincoln. & MACHADO, Lucília. Inserção profissional de travestis no mundo do trabalho: das estratégias pessoais às políticas de inclusão. São João Del-Rei: 2015.

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