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JEAN DE JOINVILLE E A SÉTIMA CRUZADA


 

Sant-Louis. Cruzadas. Medieval.

 

LEPH - Revista Me Conta Essa História Mar. 2020 Ano I Nº 003 ISSN - 2675-3340 UFJ.

 

Por João Victor Nunes Bernardes


[1] Graduando pelo Curso de História da Universidade Federal de Goiás (UFG/REJ)

 

Jean de Joinville nasceu em 1224 na província francesa de Champanhe, faleceu em 24 de dezembro de 1317 na sua cidade natal. Durante sua vida foi considerado como braço direito de Luís IX rei da França, por sua influência de vida em companhia do rei foi solicitado a Joinville, após a morte de Luís IX que escrevesse uma crônica para Joana de Navarra, rainha e esposa do rei Felipe IV, também conhecido como Felipe, o belo, neto de Luís IX. Joinville já estava com os seus 80 anos quando começou a produzir a obra sobre a vida de São Luís, que deu origem a crônica em prosa, História de São Luís (Histoire de Saint-Louis). Essa seria então a obra prima de sua vida. A crônica serviu de base para vários historiadores e estudiosos que procuravam e procuram saber da vida e governo de São Luís e sobre a Sétima Cruzada. A versão original foi perdida logo após a conclusão, a versão que temos atualmente é derivada de um manuscrito inferior que sofreu várias alterações no decorrer dos séculos.


A obra Histoire de Sant-Louis foi iniciada por volta do ano 1270 com rascunhos feitos por Joinville até a obra final ter sido encomendada pela rainha de Navarra. A rainha morre antes da obra ter sido completada então quando pronta Jean entrega o manuscrito a seu filho Luiz X, bisneto de São Luís. A obra ficou desaparecida e sem conhecimento de sua existência durante dois séculos, quando em 1547 é encontrado o manuscrito inferior e impresso cópias dando assim ao povo conhecimento de São Luís, sobre a visão pessoal de Jean de Joinville, seu grande amigo e conselheiro do rei.


Figura 1 - Jean de Joinville (1224 – 1317), Vie de saint Louis. Jean de Joinville entrega a História de São Luís a Luís X de França. Miniatura do século XIV.


Joinville era um membro da nobreza de champanhe filho de Simon de Joinville e Beatriz de Borgonha, era o segundo casamento de seu pai. Desse casamento ele foi o filho primogênito, foi educado na corte de Teobaldo I de Navarra, foi acompanhando-o que Joinville se uniu a corte de São Luís, onde por ocasião acabou conhecendo o rei em uma cerimônia que celebrava sua entrada na maioridade cavalheiresca, era apenas um escudeiro quando o conheceu, nessa data tinha apenas 17 anos e Luís IX era dez anos mais velho que ele.


O rei realizou uma grande reunião da corte em Saumir, Anjou; e eu fui lá, e vos testemunho que essa foi a melhor cerimonia de investidura de cavaleiro que jamais vi. Porque na mesa comiam, junto dele, o conde de Poitiers, que ele tinha feito novo cavaleiro na festa de São João; e depois do conde de Poitiers comia o conde Jean de Dreux, que ele também tinha feito novo cavalheiro; depois de Jean de Dreux comia o conde de La Marche; depois do conde de La Manche; o bom conde Pierre da Bretanha. E diante da mesa do rei, em face conde de Dreux, comia meu senhor o rei de Navarra, de cota e manto de cetim, belamente enfeitado por uma correia, uma presilha e uma bandeira de ouro; e eu estava diante dele (JEAN DE JOINVILLE,1567 apud Le Goff, São Luís, 1999, p. 128).

Jean, casou-se com Alix de Grandpré, filha de Henrique, conde de Grandpré, e Maria Garlanda, o noivado foi celebrado em julho de 1231 na presença do Teobaldo, conde de Champanhe. O casamento só foi acontecer em 1240 após Jean de Joinville ter se tornado senhor de Joinville e senescal de champanhe, o casamento de Joinville foi um casamento político que tinha como objetivo a união de duas famílias, Joinville e Grandpré, colocando suas diferenças de lado.


Durante a Sétima Cruzada Joinville tornou-se conselheiro e íntimo confidente do rei São Luís, ajudando-o em boa parte de suas decisões tomadas durante a cruzada, ele mesmo o aconselhou a não participar da Oitava Cruzada. A amizade de Luís IX e Joinville teve um grande desenvolvimento no período em que ficaram presos em um cerco armado contra eles, durante a cruzada. Como tinha ficado bem próximo ao rei dividia seu tempo entre a corte real e seu feudo de Joinville, pois após a morte de seu pai ele assumiu como novo governante. Ele se recusou a acompanhar o rei na Oitava Cruzada que tinha destino a Terra Santa, alegava ao rei que era loucura e suicídio.


A cruzada nunca sequer chegou ao seu destino por causa de uma peste que pairava a região de Túnis e atacou o exército francês incluindo o próprio São Luís que morreu juntamente com um de seus filhos, resultando no fim da Cruzada como um total fracasso. O filho sobrevivente de Felipe, o Ousado voltou para a França após ter firmado um tratado de paz com o sultão, ele foi coroado rei em agosto do mesmo ano. Jean ainda viveu para ver Luís IX ser canonizado (1282) e sua promulgação (1298), ele administrou seu domínio até a sua morte aos 93 anos de idade.

Assim como já foi dito Histoire é um relato pessoal do autor que conta as façanhas, narrativas da vida de Luís IX, seu reinado, morte e canonização como santo da igreja, mas que também monstra Joinville como um homem cheio de grandes qualidades que compunham um bom homem digno de ser o braço direito do rei, além disso a obra também mostra relatos sobre as cruzadas e sobre a cultura muçulmana importantes para a história e para o desenvolvimento do ocidente em aspectos como técnicas de navegação, táticas de batalhas, tecnologias bélicas entre outras coisas.


Figura 2 – Crônica de São Luís, rei de França, Jean de Joinville


A Sétima Cruzada teve início em 1248, porém, um dos principais motivos dela ter acontecidos ocorreu somente em 1244. São Luís foi tomado por grave doença que o deixou muito debilitado a ponto de alguns terem sua morte como certa, assim como Jean descreveu na crônica, “Chegou-se a tal extremo, como se dizia, que uma das damas que o vigiava quis puxar-lhe o lençol sobre o rosto, dizendo que ele estava morto”. (JOINVILLE, 1567, p. 61), vários atos religiosos foram feitos para a melhora do rei e o próprio em leito de cama faz um voto, caso sobrevivesse, partiria em uma nova campanha para libertar o santo sepulcro. “Porque longamente meu espírito esteve além-mar, e lá irá este meu corpo, se Deus o deseja, e conquistará a terra sobre os sarracenos”. (LE GOFF, 1999, p. 146).


A organização da cruzada demorou quatro anos, da qual teve a contribuição das cidades de Gênova, Veneza e Marselha com a maioria dos barcos e mantimentos que são necessários para a expedição, outras cidades e igrejas da França contribuíram financeiramente juntamente com a Ordem dos templários, Joinville mesmo se espantou com a grande quantidade de recursos que o rei conseguiu reunir para a cruzada. Finalmente em 12 de junho de 1248, Luís parte acompanhado da rainha Margarida da Provença, e de seus irmãos Carlos de Anjou e Roberto I de Artois e muitos senhores, juntos deles o senescal de Champanhe, fizeram uma para em Lyon onde encontraram o papa Inocêncio IV, que deu a benção apostólica ao rei, eles partem de Marselha para Chipre onde o rei foi obrigado a permanecer durante o inverno por causa de uma peste que aflige parte de seus soldados, porém, São Luís consegue convencer o rei de Chipre, Henrique I de Lusignan, a se juntar a ele na campanha, aqui foi onde o senhor de Joinville entrou a serviço do grande rei e sua corte, e permaneceu até a morte de São Luís. Embarcam juntos com destino a Damieta, onde permaneceram seis meses sobre pressão dos sarracenos, foi aí que a amizade dos dois se fortaleceu.


Damieta foi a primeira cidade a ser conquistada em 1249, ela foi usada como base militar para a conquista da Palestina, Luís IX conseguiu formar um grande exército com cerca de 35 000 homens. O exército dirigiu-se para o Cairo onde sofreram ataques contínuos do emir Fakhr ek-Din, quase conseguiu conquistar a cidade só não conseguindo por causa de uma inundação no Nilo e principalmente porque os muçulmanos roubaram a provisões de alimento do exército. As consequências disso foram graves, fome e doenças tomaram conta do exército causando muitas baixas quase o dizimando forçando assim o rei a recuar, um traidor espalhou boatos que rei tinha se rendido causando a perca de fé em seus soldados fazendo a maior parte deles se renderem e serem aprisionados, São Luís também foi um dos aprisionados. O irmão do rei Roberto I de Artois foi morto na batalha pela cidade do Cairo. Enquanto estava preso em Almançora, o rei colocou a rainha para conduzir a cruzada, São Luís e seus soldados foram resgatados com o pagamento de 800 mil peças de ouro que foi pago pela Ordem do Templo, também conhecida como os templários.


Agora livre Luís resolveu estender sua estadia pelo que restava dos reinos cristãos na Palestina, onde permaneceu por quatro anos na terra santa, reforçando as defesas dos reinos que ainda estavam em posse dos cristãos, conduziu uma diplomacia para resgatar os restos de seus soldados que estavam em prisões muçulmanas. O fim da cruzada e da peregrinação de São Luís pela Terra Santa chega em 1254, quando ele recebe a mensagem de que sua mãe Branca de Castela havia morrido, o obrigando a voltar para a França a qual Luís tinha deixado sobre a regência da rainha sua mãe. Ele parte rumo a França deixando boa parte de seu exército na cidade de Acre para a defesa da mesma contra os muçulmanos, os cruzados embarcaram em Tiro no dia 25 de abril de 1254 e chegam a França em julho do mesmo ano, o retorno do rei a Paris e aclamado pelo papa Clemente IV e o rei da Inglaterra, Henrique III.


As cruzadas de São Luís são – como La Mort Le roi Artu (A morte do rei Arthur) marca a apoteose fúnebre da cavalaria – o canto de cisne da cruzada, dessa fase agressiva de uma Cristandade penitencial e auto sacrificial. Luís IX encarnou, em seu último e mais alto grau, esse egoísmo da fé que, ao preço do sacrifício do crente, mas para sua salvação em detrimento do ‘outro’, traz a intolerância e a morte. (LE GOFF, São Luís, 1999, p. 188).

Em sua volta para França Luís IX fez paradas por várias cidades no trajeto até sua terra natal, Joinville acompanha o rei até eles pisarem em território francês, onde o rei passa por algumas cidades no seu retorno a Paris, em especial Saint- Denis, onde deposita a auriflama e a cruz que ele tinha carregado consigo por toda a cruzada. Após seu retorno, São Luís tem uma mudança drástica que o faz se tornar ainda mais devotado a sua fé. Segundo Joinville:


Depois que rei voltou de além-mar, viveu tão devotamente que nunca mais desde então vestiu peles de qualquer tipo de esquilo, nem escarlate, nem estribos nem esporas douradas. Suas vestes eram de camelim e de um tom de azul suave; as peles de seus mantos e de suas vestes eram de uma espécie de camurça, ou de pernas de lebres, ou de cordeiros. Era tão sóbrio no comer que não exigia absolutamente nada quanto a seus pratos, além daquilo que seu cozinheiro lhe apresentava; punha-se o prato diante dele e ele o comia. Temperava seu vinho e o tomava num copinho de vidro, e punha água em proporção que dependia da qualidade do vinho, e mantinha o copinho à mão, enquanto que se temperava seu vinho por trás da mesa. Dava sempre de comer aos pobres, e depois da refeição mandava que se lhe dessem seus denários. (JEAN DE JOINVILLE,1567 apud Le Goff, São Luís, 1999, pp. 196).

A simplicidade e devoção entre outros fatores que tomaram conta de São Luís vão ter influência diretamente na sua canonização, o processo de purificação feito por ele mesmo, seus princípios religiosos, o cuidado com o seu reino e seu povo, representado nas diversas obras referentes a esse mostram as características marcantes desse rei.


Figura 3 - Luís IX de França Por Emile Signol, 1839, Palácio de Versalhes.

 

COMO CITAR ESSE ARTIGO


BERNARDES, João Victor Nunes. Jean De Joinville E A Sétima Cruzada. In:. Revista Me Conta Essa História, a.I, n.03, mar. 2020. ISSN 2675-3340. Disponível em: <https://www.mecontaessahistoria.com.br/post/jean-de-joinville-e-a-s%C3%A9tima-cruzada> Acesso em:

 

REFERÊNCIAS


LE GOFF, Jacques. São Luís. 1. ed. São Paulo, 1999.


JOINVILLE, Jean de. Cronica de San Luis, Rey de Francia. 1. Ed. Toledo, 1567.

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