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O COMÉRCIO DA LOUCURA EM BARBACENA: TRAUMA, MEMÓRIA E TESTEMUNHO


 

LEPH - Revista Me Conta Essa História Abr. 2021 Ano II Nº 016 ISSN - 2675-3340 UFJ.

 

Por Luana Clara [1]


[1] Estudante do curso do 7º período de História - Universidade Federal de Jataí.

 

O hospital Colônia se manteve com o apoio da Igreja Católica desde 1.903, e foi um verdadeiro Holocausto Brasileiro, vinculado ao propósito da teoria eugenista, que defende a ideia de limpeza social, justificando a desumanização daquelas pessoas majoritariamente negras. Colocado isso, interessa a este ensaio utilizando a obra Holocausto Brasileiro, mostrar como o Estado, responsável pela tutela desses indivíduos, agiu acionando o dispositivo de biopoder de Michel Foucault adiantando as mortes desses sujeitos considerados inaptos para a vida em sociedade, produzindo ainda, um esquecimento sobre essa memória traumática, que pode ser superado através da patrimonialização dos espaços da doença e memória testemunhal.


MORTOS QUE DÃO LUCRO:MEMÓRIA TRAUMÁTICA, E ESQUECIMENTO


Desciam do “trem de doido”[1], homens, mulheres e crianças, ou levados pela polícia, ao chegar ao campo tinham as cabeças raspadas, tomavam banho frio coletivo, eram trancafiados, espancados e violados, se alimentando de ratos e bebendo urina, sendo torturados por choques, dormindo ao relento sobre capim, uns sobre os outros para se manterem aquecidos, num “círculo compacto, alternando os que ficavam no lado de fora e no de dentro, na tentativa de sobreviver. Alguns não alcançavam as manhãs.” (ARBEX, 2013, p. 14). Esta descrição combina muito com o imaginário construído sobre os campos de concentração alemães, mas aconteceu em Barbacena, Minas Gerais.


Sabemos como o hospício se configura como um mecanismo de controle de corpos. No entanto, os hospitais psiquiátricos a exemplo do de Barbacena, parece um mecanismo para gerar não só segregação da “degeneração", mas também para gerar mortes, como dispositivo do Estado. E não quaisquer mortes, morte a todos que não se encaixavam no padrão de modernidade, moral religiosa e nacionalismo hegemônico, seja pelo “deixar morrer”, ou pelo adiantamento da morte pela forma desumana de tratamento, que gerava lucros. Morte não só dos corpos físicos, mas também o total apagamento da identidade. O filósofo francês Michel Foucault cria o conceito de Biopoder para referir-se às práticas dos estados modernos ao regular os sujeitos por meio de numerosas técnicas para subjugar os corpos e controlar populações.

“Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos foram decompostos em ácido, no pátio do Colônia, na frente dos pacientes, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Nada se perdia, exceto a vida.” (ARBEX, 2013, p 13)

O Hospital Colônia de Barbacena foi referência para tratar dos pacientes mentais em Minas Gerais, com apoio do Estado e da medicina psiquiátrica da época. Arbex revela que, 70% dos internos sequer sofriam de doença mental, revelando que eram aprisionados, pessoas que fugiam do padrão social imposto, mães solteiras, alcoólatras, LGBT’S, moradores de rua, pessoas sem documentos, alvos políticos, ou quaisquer sujeitos que consideravam ameaça à ordem vigente, ou que tinham a tristeza como sintoma. O Estado, além não cumprir com seu dever na criação de políticas públicas para o amparo dessa população, resolveu segrega-los e ainda agiu de forma soberana ao decidir sobre a vida e morte desses indivíduos. Como escancara a jornalista, esse espaço foi transformado em matadouro humano, onde a morte era antecipada para gerar lucros, “Os pacientes do Colônia morriam de frio, de fome, de doença. Morriam também de choque.” (ARBEX, 2013, p. 23-24)


Mas a violência não se aplicava somente na vida em morte causadas pelo estado de exceção, há também o apagamento dessa história, visto o interesse do estado no silenciamento dessas memórias de torturas, encarceramentos indevidos, abandono e exploração através do “comércio de morte”. A produção desse esquecimento por parte do Estado age como mais uma forma de impor sua verdade soberana, dando continuidade à violência, e fruto de uma narrativa de poder que pretende jogar para debaixo do tapete tudo aquilo do qual se envergonha, em detrimento das histórias dos heróis da nação.


Essa construção narrativa, não permite que o trauma seja superado. Historicamente falando, o trauma dificulta sociedades presentes a confrontarem e/ou superarem seu passado, se configurando como uma experiência estruturante que perpassa diferentes temporalidades e alcança gerações. Atente para o fato dessa experiência ser paradoxal: um passado que não pode ser esquecido e, no entanto, não pode ser acessado ou lembrado. Um passado que não passa, a medida em que é revivido no presente pela memória individual e coletiva. Por isso, a memória do Colônia em Barbacena, pode ser considerado um trauma social, na medida em que percebemos a dificuldade em admitir o horror e flagelos causados a mais de 60 mil pessoas tuteladas pelo Estado, em ação conjunta com a medicina e a sociedade, que foi omissa para isso, além de contribuir com internações de parentes que queriam se livrar. Os funcionários do lugar em entrevista a Arbox, contam que, desejavam denunciar o sistema imposto aos pacientes, mas não havia quem se dispusesse a ouvir ou zelar pelas pessoas dali. Entre sua criação em 1903 até 1980, Minas Gerais teve 28 presidentes do Estado, entre interventores federais e governadores, 10 diretores, e ainda assim esse crime durou décadas. “apesar de ninguém ter apertado o gatilho, todos carregam a morte nas costas.” (pag,39).


CONSIDERAÇÕES FINAIS


Como anteriormente colocado, há uma grande dificuldade em expressar através da linguagem, os traumas sociais, sendo necessárias outras alternativas que supere a objetividade reivindicada pela historiografia. A patrimonialização desse espaço pode propiciar uma reflexão acerca de doenças como patrimônio, que também ensinam, e também repensar como foi tratada a doença mental no Brasil, demonstrando que a segregação não é o caminho. Os locais da doença têm a possibilidade de diminuir a distância entre o passado e nosso tempo presente, possibilitando que outras gerações relembrem as tragédias que não vivenciaram, e assim promovem a empatia e crescimento de reflexão acerca não só da doença, mas da própria vida e existência humana. Ou seja, sob esta perspectiva, o sofrimento pode ser entendido como um acontecimento histórico capaz de suscitar novos arranjos sociais e que influenciam nas identidades. Mas é necessário abrir espaço para as doenças, a dor, perda, tragédia e sofrimento, pois assim, podemos superar o trauma.


Nesse sentido, a memória aliada a narrativa testemunhal, que tem compromisso ético com o passado e o presente, permitem apreender de outras formas o trauma, que nem sempre são possíveis de serem narrados através de discursos científicos rígidos. Desta forma, essas memórias se tornam condição para que esse passado não se repita. Por isso, é tão importante fazer o resgate dessas histórias silenciadas pelo discurso de poder dominante, reconstruir e aprender com elas é dar voz a esses sujeitos, para que eles, e nós, como a sociedade omissa para tudo isso, possamos reviver com eles esse trauma, para superar esses horrores a de tê-los como exemplo de como não tratar os pacientes mentais, e perceber os mecanismos do biopoder entrelaçados aos discursos científicos, para fazer um ajuste de contas com esse passado ao invés de tentar silencia-lo, para possibilitar a formação de uma nova consciência para essas questões.

 

COMO CITAR ESSE ARTIGO

MAGALHÃES, Juscilaine Lopes; ULHOA, Clarissa Adjuto. O Comércio da Loucura em Barbacena: Trauma, Memória e Testemunho. In:. Revista Me Conta Essa História, a.II, n.16, abr. 2021. ISSN 2675-3340. Disponível em: . Acesso em:

 

REFERÊNCIA


ARBEX, Daniela. Holocausto Brasileiro: vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil. São Paulo: Geração, 2013.


GRUNER, Clóvis. Memória, trauma e testemunho. 1 vídeo (21m:18s) fonte:publicada pelo canal do youtube: <https://www.youtube.com/watch?v=uHTh4nAm_ok > acesso em: 22/11/20 as 20:46.


MUTÁBIS, Espaço. Holocausto Brasileiro" I 2016 I Documentário completo. 1 vídeo (1h:30m). fonte: publicada pelo youtube: <https://www.youtube.com/watch?v=y6yxGzlXRVg&t=3808s> acesso em 22/11/20 as 12:36.


FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber; tradução de Maria Thereza da Costa e J. A. Guilhon Albuquerque. 22. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2012.

 

[1] Em sua obra “Primeiras Estórias” (1962) Guimarães Rosa retrata no conto “Sorôco, sua mãe, sua filha” a ida de duas mulheres para o hospital de Barbacena pelo trem de doido, resgatando a situação dos trens que chegavam lotados de gente à capital brasileira da loucura, em busca de “tratamento” psiquiátrico.

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