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OS DESAFIOS ENCONTRADOS PELA COMUNIDADE QUILOMBOLA DO CEDRO NA PRESERVAÇÃO DA MEDICINA POPULAR

LEPH - Revista Me Conta Essa História Mai. 2021 Ano II Nº 017 ISSN - 2675-3340 UFJ.

 

Por Aline Teles Barbosa & Daniela Silva Amaral & Lázaro Luciano de Franco Lima e Souza & João Manoel Martins Pereira.

 

RESUMO


A prática da medicina popular, é uma tradição no território brasileiro, a qual mesmo passando por obstáculos, foram de certa forma perpetuadas devido ao repasse de geração para geração através das tradições orais pelas várias culturas existentes no país. No Quilombo do Cedro, situado em Mineiros Goiás, temos um forte traço do tradicionalismo dentro desses parâmetros, os quais a utilização das plantas para fins medicinais se encontra fortemente presente. Essa prática, acabou por se transformar em uma atividade social econômica e ecológica viável, que teve início com incentivo de pastorais da igreja católica, que reuniam as famílias para a realização de exames biométricos das crianças e produção dos fitoterápicos, que eram distribuídos gratuitamente para a comunidade. Logo, a procura pelos medicamentos processados aumentou e como consequência ocorreu o início da comercialização dos produtos manufaturados coletivamente. Com isso, veio a necessidade de profissionalizar a preparação dos remédios fitoterápicos, criando-se assim o “Centro Comunitário de Plantas Medicinais do Cedro” em 1997. Mesmo com algumas dificuldades ao longo do caminho, como a grande redução de famílias moradoras do Quilombo, os mesmos que ainda restam têm por objetivo repassar o conhecimento e manter viva a tradição secular.


PALAVRAS-CHAVE


Quilombo; Cedro; Fitoterapia; Tradição; Mineiros;

 

INTRODUÇÃO


Este trabalho, é um estudo relacionado a medicina popular fitoterápica na comunidade quilombola do Cedro (Mineiros-Go). Sua criação teve início através da determinação e do exaustivo trabalho realizado por Francisco Antônio Moraes (Chico Moleque) ex-escravo alforriado, que através dele, adquiriu sua liberdade, e também parte da fazenda Flores do Rio Verde, onde se originou a comunidade do Cedro que ainda hoje permanece ativa integrando a sociedade mineirense e contribuindo com seus conhecimentos no campo da medicina alternativa do sudoeste goiano. Um dos pontos principais da pesquisa que resultou nesta produção, foi a constituição do sistema médico tradicional que se deu pelas trocas de conhecimento, que no caso desta comunidade, são o das plantas medicinais. Ao longo da nossa trajetória de pesquisa, percebemos que infelizmente vem surgindo alguns obstáculos que podem impactar na preservação desses processos culturais, como por exemplo a perda de espaço físico que a comunidade vem sofrendo. Para mais, é importante sempre destacar a sua importância e contribuir para a dinamização desse saber, que é parte fundamental da cultura cedrina e mineirense.


SOBRE A PRÁTICA DA MEDICINA POPULAR


O crescente emprego da farmacopeia indígena[1] na cura de determinadas doenças, ampliou as possibilidades terapêuticas de missionários instalados no Brasil, que, além da feitura e distribuição de fórmulas, os religiosos das mais diversas ordens foram responsáveis pela criação e manutenção das Santas Casas de Misericórdia, instituições “especialmente recomendadas pela Coroa portuguesa” e propagadas além mar. Porém, a pequena quantidade de médicos disponíveis no Brasil e o baixo poder de cura que a medicina oferecia para a população deram causa, até meados do século XIX, à hegemonia das práticas terapêuticas populares em relação à medicina científica. Contudo, as transformações políticas e econômicas ocorridas no Brasil no século XVIII, fizeram com que a medicina fosse introduzida no cotidiano da sociedade, auxiliando no processo de legitimação do poder do Estado, resultando na organização da formação de profissionais habilitados no país, além de criar legislação que reprimisse curadores, rezadores, feiticeiros, homeopatas e outros mais.


O controle da profissão médica e o combate às “práticas ilegais de cura”, no entanto, não ocorriam de modo eficiente, e, mesmo com algumas denúncias e prisões, não havia punição, devido à falta de respaldo social para que a legislação fosse cumprida, principalmente porque antigas práticas de cura estavam bastante arraigadas no cotidiano da população.


Buscando explicações para essa popularidade dos curandeiros, desde os tempos da colônia, Tânia Pimenta (2003, p. 323) argumentou sobre os motivos que levava a população a recorrer aos seus serviços:

O modo como boa parte da população via os curandeiros, cujos serviços não eram solicitados apenas por falta de médicos ou cirurgiões, ou porque não podiam pagá-los, como pretendiam esses últimos. Os curandeiros eram requisitados, muitas vezes, por serem mais eficientes, fosse para tratar moléstias leves, fosse para cuidar das sérias. (PIMENTA, 2003).

Segundo a historiadora, a frequência dos anúncios dos curandeiros oferecendo seus serviços nos jornais da Corte sinaliza para o fato de que o conceito da população a respeito dos curadores se tenha mantido ao longo de várias décadas, de modo que mesmo diante de inúmeras contendas e obstáculos, o conhecimento de cura e demais formas de medicina alternativa foram sendo repassadas de geração para geração pelas variadas culturas existentes em solo luso-brasileiro. Seja por tribos indígenas, por membros de igrejas, ou mesmo por escravos vindos do além mar, traziam consigo saberes a respeito das diversas áreas do conhecimento como culturas, religiões, línguas, artes, ciências, tecnologias, etc.


INÍCIO DA FORMAÇÃO DA COMUNIDADE DO CEDRO


No decorrer dos anos de escravidão no Brasil, escravos saíam das garras de seus senhores e feitores escondendo-se mata a dentro, e, por inúmeras vezes lá permaneciam e, por conseguinte, aplicavam ali, seus saberes. Tal fato gerou uma grande preocupação colonial portuguesa à respeito da articulação dos escravos negros que constituíam quilombos.


Em Mineiros, sudoeste do estado de Goiás está localizada à Comunidade Quilombola do Cedro, objeto do presente trabalho. Sua criação, partiu do trabalho e esforço de um escravo chamado Francisco Antônio de Moraes, conhecido como “Chico Moleque”, que, trabalhando em domingos e feriados, adquiriu sua liberdade, a de sua esposa e a de sua filha, e ainda conseguiu adquirir parte da Fazenda Flores do Rio Verde, no ano de 1885, do Sr. Galdino Gouveia de Morais e sua esposa, D. Izabel Cândida da Silva, de acordo com as folhas 6 e 73 dos autos de Ação de Divisão da fazenda, depositada no Cartório do 2º Ofício de Mineiros-GO, com tamanho de 284,95 alqueires, onde se originou o quilombo do Cedro (SILVA, 2003; BAIOCCHI, 1983).


Assim, em que pese a ação dos anos, traços da cultura da Comunidade do Cedro ainda são preservados há mais de um século de história: a forma de lidar com a terra, com os poucos animais, as festas tradicionais, danças típicas como a dança do quilombo, as comidas, religiosidade, o relacionamento próximo entre ser humano e natureza, onde a utilização de plantas para fins medicinais se faz presente. A cultura de comunidades tradicionais está ligada aos seus ambientes materiais. Nesses lugares, “as relações são mantidas, perpetuadas e ressignificadas no âmbito de seus símbolos, crenças, fraternidade e amor ao próximo e ao ambiente.” Complementando com Lewis (2006), não há nada no ambiente natural que não seja social ou culturalmente construído.


Nessa dinâmica da cultura, o manejo sobre as plantas medicinais provém de um conhecimento transmitido de geração em geração, “que por um motivo ou outro, carregam consigo essas preciosas informações, recebidas dos ancestrais” (GUARIM NETO, 2006, p. 72). São nessas trocas de conhecimento sobre plantas medicinais que se forma um sistema médico tido como tradicional (COUTINHO et al., 2002). Dessa maneira os recursos vegetais são identificados, colhidos no ambiente natural ou nos canteiros domésticos, preparadas com ou sem os atributos sobrenaturais (rezas, benzeções, cultos), seguindo rituais específicos para cada caso dentro de um “universo permeado de técnicas e misticismo” (JANUÁRIO, 2006, p.85).


Nesse sentido, a comunidade do Cedro trabalha com diversas espécies de plantas medicinais, que servem de matéria-prima para a preparação de remédios fitoterápicos feitas no Laboratório de Plantas Medicinais do Cedro com fins de comercialização, doação ou feitas em suas casas para o próprio consumo. Assim, a utilização de plantas medicinais e a preparação de remédios fitoterápicos configuram-se como uma atividade social, econômica e ecológica viável, na qual identificamos que o conhecimento tradicional é transmitido no âmbito familiar, mas também ocorrem conhecimentos que são obtidos em cursos e seminários específicos. Esses conhecimentos adquiridos de forma não tradicional objetivaram atender às exigências de controle sanitário para preparação dos remédios fitoterápicos. Os membros da comunidade precisaram se qualificar para trabalhar dentro de normas, e assim, conseguir continuar a desenvolver a atividade.


Para o trabalho proposto, busca-se compreender o conhecimento tradicional enraizado na cultura da comunidade, o que, segundo Geertz (1989), “trata-se de uma análise essencialmente semiótica [...], não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura de significado” (GEERTZ, 1989, p. 15). Para Geertz (1989) “é através do fluxo do comportamento, ou, mais precisamente, da ação social que as formas culturais encontram articulação, apresentando uma coerência no sistema cultural” (GEERTZ, op. cit., p. 27).


Devemos ressaltar também, a importância da etnografia, pois é através dela que tentamos compreender os “significados das ações sociais dos membros da comunidade da construção das construções” (DAMATTA, 1991; GEERTZ, 1989), “dos atores como também dos espectadores” (MALINOWISK, 1975), “aprendendo, interpretando e apresentando os resultados através da “descrição densa”, ou seja, a mais completa possível do sistema cultural”. (GEERTZ, 1989). Segundo DaMatta (1991) a tarefa do etnólogo consiste em transformar o exótico em familiar e/ou transformar o familiar em exótico para que possamos fazer uma análise sociológica. Vale ressaltar que as interpretações nunca são exatas, por ser a interpretação da pretensão de outras pessoas, podendo ser até de vários informantes um passando para o outro, apresentando diversos níveis de informação. Neste sentido,

[...] só existe antropólogo quando há um nativo transformado em informante. E só há dados quando há um processo de empatia correndo de lado a lado. É isso que permite ao informante contar mais um mito, elaborar com novos dados uma relação social e discutir os motivos de um líder político de sua aldeia. São justamente esses nativos (transformados em informantes e em etnólogos) que salvam o pesquisador do marasmo do dia-a-dia. (DAMATTA, 1991, p. 172).

O INICIO DA PRODUÇÃO FITOTERÁPICA DO CEDRO E A IMPORTÂNCIA DAS MULHERES NESSE CONTEXTO


A produção de fitoterápicos bem como sua comercialização e/ou doação, foi incentivada pela Pastoral da Criança e do Movimento Popular da Saúde (MOPS), ambas da Igreja Católica que reuniam as famílias para a realização de exames biométricos das crianças e produção dos fitoterápicos, que eram distribuídos gratuitamente para a comunidade. Com isso, os remédios eram preparados embaixo de grandes mangueiras, onde se reuniam mulheres e meninas que se responsabilizavam por esta tarefa. Logo a procura pelos medicamentos processados aumentou e como consequência ocorreu o início da comercialização dos produtos manufaturados coletivamente.


Com objetivo de profissionalizar a preparação dos remédios fitoterápicos e gerir de forma sustentável o manejo de plantas medicinais, foi criado, no ano de 1997, o projeto “Centro Comunitário de Plantas Medicinais do Cedro” (IORIS & PIO, 1999). Esse projeto incluía um laboratório destinado à preparação controlada, comercialização e distribuição de remédios feitos de plantas medicinais, atendendo às normas sanitárias vigentes.


Segundo Ioris & Pio (1999), houve resistência por parte das pessoas que preparavam os remédios nas suas residências em mudar essas atividades para o laboratório. Para os moradores locais esse espaço (laboratório) passa a ser “vigiado”, interpretação esta que tem pertinência nos termos em que coloca Foucault (2004). Para este autor a vigilância é um poder que atinge os gestos dos indivíduos, seus discursos, suas atividades, sua aprendizagem, sua vida cotidiana. Nesse caso, a vigilância passa a ser um instrumento de ressignificação das práticas tradicionais, e no caso das plantas medicinais, uma ressignificação de um dos aspectos da cultura cedrina. Nesse contexto efetiva-se o controle sanitário e a composição dos remédios prevalecem em relação à prática tradicional.


Ultrapassada essa barreira, os medicamentos preparados no Laboratório são preparados na forma de xaropes, sumo, garrafadas, óleos, sabão, pomadas, cremes, chás, tinturas, consumidos in natura, seguindo uma linha de produção rigorosa, atendendo principalmente as normas sanitárias conforme apresentado a seguir em oito fases, sendo elas: coleta de plantas, limpeza das plantas colhidas, corte, desidratação, embalagem, preparação ou manipulação, envasamento e comercialização ou doação.


Nesses momentos de socialização de plantas e remédios é que são estreitados os laços afetivos entre as pessoas da comunidade, onde ocorrem as trocas de vegetais e/ou os conhecimentos relacionados a eles, além dos “proseios” que contam histórias, causos e fatos atuais sobre a comunidade do Cedro e de Mineiros, fomentando assim a rede social da comunidade. Segundo Amorozo (2002), “estas relações contribuem para manter viva as tradições locais, como para disseminar germoplasmas de interesse para a população” (AMOROZO, 2002).


No seio da unidade familiar os remédios são preparados em dosagens aprendidas verticalmente que, na maioria dos remédios, possuem dosagens mais fortes, com a utilização de plantas ou parte de plantas diferentes em relação aquelas usadas no laboratório. Em alguns casos são utilizadas rezas ou orações em conjunto com a preparação ou durante a aplicação dos remédios. Nesses casos, o remédio preparado com o objetivo de prevenção ou cura de males que comprometem a saúde, veicula componentes material e espiritual que não se dissociam durante a atividade de preparação e aplicação. Em práticas dessa natureza se efetiva uma interação mais intensa e respeitosa com os recursos naturais.


Assim, as plantas medicinais vêm sendo utilizadas como terapêutica pela comunidade há mais de um século e são empregadas conforme a sintomatologia apresentada. O preparo se dá de duas formas e em locais distintos, sendo no laboratório de plantas medicinais da comunidade e nas residências. O primeiro tem a finalidade de produzir fitoterápico para comércio e doação na comunidade, enquanto que o segundo destina-se exclusivamente à necessidade imediata da família. Registra-se que a motivação da criação do laboratório teve como base o conhecimento empírico das famílias.


OBSTÁCULOS PARA A CONTINUIDADE DA PRODUÇÃO FITOTERÁPICA NA COMUNIDADE DO CEDRO


A comunidade do Cedro se consolidou como referência em produtos fitoterápicos na região. Contudo, pelos estudos realizados, constatamos que a comunidade vem perdendo espaço físico no município de Mineiros devido ao fato de suas terras serem propriedades particulares dos próprios quilombolas, que vão vendendo e se mudando para a cidade ou passando para os herdeiros após a morte do antigo dono, diminuindo cada vez mais o território inicial da comunidade do Cedro que era de 284,95 alqueires em 1885 (BAIOCCHI, 1983) passando para menos de 50,2 alqueires atualmente.


Além disso, tem uma população de 143 pessoas em 29 residências, corresponde à aproximadamente 0,3 % dos 45.189 moradores do município, conforme o FIBGE, 2007. Na década de 1970 havia 232 habitantes em 37 unidades domésticas.


Nota-se certa pressão provocada pelos centros urbanos sobre as comunidades tradicionais, fazendo com que muitos aspectos culturais estejam em processo de ressignificação, assim, torna-se ainda mais necessário o resgate desses conhecimentos. (PASA et al., 2006).


Diante disso, verificamos que as pesquisas já publicadas sobre a comunidade, buscou-se enfatizar o trabalho com plantas medicinais, documentar os conhecimentos tradicionais sobre o uso dessas plantas pela Comunidade Quilombola do Cedro, por meio de seu registro, identificação botânica e indicação terapêutica das mesmas. Tal objetivo não seria alcançado sem o conhecimento tradicional enraizado na cultura da comunidade, o que, segundo Geertz (1989), “trata-se de uma análise essencialmente semiótica [...], não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura de significado” (GEERTZ, 1989, p. 15).


Além da comercialização e/ou doação de medicamentos fitoterápicos, cumpre destacar que a comunidade ainda preserva modos de vida de seus ancestrais, dentre eles, o manejo braçal das culturas agrícolas como: mandioca, cana, milho, feijão-andu, café, abacaxi, fumo, pequi, manga, laranja, fruta-pão, côco, abacate, cajá, jenipapo, guariroba, pimenta, entre outros.


A CULTURA E SUA CONSTANTE DINÂMICA


Vislumbra-se que desde o início da formação da comunidade do Cedro no ano de 1885, no município de Mineiros, através de aquisição do imóvel de 284,95 alqueires, por escravo forro de alcunha “Chico Moleque”, inúmeras mudanças foram percebidas ao longo dos anos, especialmente quanto ao uso de plantas nativas do cerrado, manuseadas pela comunidade do Cedro e transformadas e fontes de medicamentos fitoterápicos, não somente destinados ao uso das famílias ali instaladas, mas também ao público em geral que por ali passam.


Evidentemente que com o passar dos anos, a comunidade do Cedro vem sofrendo considerável diminuição de seus habitantes (em 1970 232 habitantes e em 2007 143 habitantes), bem como do seu território (antes com 284,95 alqueires e, atualmente 50,2 alqueires), e assim, a evasão de moradores continua sofrendo forte influência da urbe mais próxima, sendo que muitos moradores abandonam suas origens e partem para a cidade de Mineiros (distante cerca de 5 km da comunidade).


Além disso, ressaltamos ainda que a transmissão dos conhecimentos adquiridos ao longo dos anos, correm o risco de se perder com o tempo, uma vez que as gerações recentes estão priorizando outros conceitos, numa tensão contrária em manter a tradição na manipulação de plantas bem como a produção de medicamentos fitoterápicos.


Sobre as mudanças pelas quais vem passando a Comunidade do Cedro, cumpre destacar o ensinamento do antropólogo Roque Laraia[1], que vem enfatizando que a cultura é dinâmica, e, portanto, sofre alterações ao longo do tempo, seja motivada por influencias internas ou externas, as vezes de forma lenta as vezes de forma rápida.


Exemplo dessa ocorrência foi justamente as mudanças ocorridas com o tratamento das plantas e a produção de medicamentos, passando a ser uma pratica laboratorial diferentemente do que se praticava antes nas residências dos moradores da Comunidade do Cedro.


Roque de Barros Laraia argumenta que:

(...) cada sistema cultural está sempre em mudança. Entender esta dinâmica é importante para atenuar o choque entre as gerações e evitar comportamentos preconceituosos. Da mesma forma que é fundamental para a humanidade a compreensão das diferenças entre povos de culturas diferentes, é necessário saber entender as diferenças que ocorrem dentro do mesmo sistema. Este é o único procedimento que prepara o homem para enfrentar serenamente este constante e admirável mundo novo do porvir.

Para Diegues (2008), não existe nenhuma cultura tradicional em estado puro, “as populações ou culturas tradicionais se acham hoje transformadas em maior ou menor grau” (DIEGUES, 2008, p. 94).


CONCLUSÃO


Não restam dúvidas sobre a importância da medicina popular praticada por determinadas culturas brasileiras, que, desde a colonização vem se mantendo ao longo dos séculos, sendo transmitidas de geração para geração, ainda que tenham experimentado transformações e ressignificações, mesmo encontrando inúmeros obstáculos de cunho legal. Exemplo da manutenção dos conhecimentos acerca da medicina popular brasileira, a Comunidade do Cedro, através de seus precursores adquiriram e mantiveram a pratica de manipulação de plantas medicinais, antes preparadas em residências da comunidade e mais recentemente preparadas em laboratório dentro da própria comunidade, fato que corrobora o relevante papel na preservação desse processo cultural. Notadamente que a produção de medicamentos naturais, feitos especialmente de plantas do cerrado, reforça a importância do Cedro não só para as cidades circunvizinhas, mas principalmente para inúmeras pessoas que, ao longo dos anos, buscam na comunidade a fitoterapia para o tratamento e cura de inúmeros males.


Ressalte-se por derradeiro que embora a cultura seja dinâmica, experimentando mudanças de toda sorte, determinados moradores da comunidade do Cedro buscam propagar seus conhecimentos, e assim, manter essa tradição secular.

 

COMO CITAR ESSE ARTIGO


BARBOSA, Aline Teles; AMARAL, Daniele Silva; SOUZA, Lázaro Luciano de Franco Lima; PEREIRA, João Manuel Martins. Os Desafios Encontrados Pela Comunidade Quilombola do Cedro na Preservação da Medicina Popular. In:. Revista Me Conta Essa História, a.II, n.17, mai. 2021. ISSN 2675-3340. Disponível em: . Acesso em:

 

REFERÊNCIA


CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. A crise do colonialismo luso na América Portuguesa: 1750/1822. In: LINHARES, Maria Yedda L. (Org.) História geral do Brasil. 6. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1990.


GUARIM NETO, G. O Saber Tradicional do Pantaneiro: as Plantas Medicinais e a Educação Ambiental. Revista Eletrônica do Mestrado em Educação Ambiental, Rio Grande do Sul, v. 7, julho a dezembro de 2006.


LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico, 21º edição. Zahar: Rio de Janeiro, 2007.


MIRANDA, Carlos Alberto Cunha. A arte de curar nos tempos da colônia: limites e espaços da cura. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife. 2004.


PIMENTA, Tânia Salgado. Terapeutas populares e instituições médicas na primeira metade do século XIX. In: Chalhoub, Sidney (Org.) Artes e ofícios de curar no Brasil: capítulos de história social. Campinas: Unicamp. p.307-330. 2003.


SANTOS, Fernando Santiago dos. Indígenas, Jesuítas e a farmacopeia verde das terras brasileiras: os segredos da triaga brasílica. Prometeica revista de filosofía y ciências, 2013.


THIAGO, Fernando. A Comunidade Quilombola do Cedro, Mineiros, Goiás: Etnobotânica e Educação Ambiental. Cáceres: UNEMAT, 2011. 109 p. (Dissertação – Mestrado em Ciências Ambientais).



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