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OS MECANISMOS DE NECROPOLÍTICA E EPISTEMICÍDIO APREENDIDOS EM LETRAS DE RAP QUE SURGIRAM EM CONTEXTO


 

LEPH - Revista Me Conta Essa História Fev. 2021 Ano II Nº 014 ISSN - 2675-3340 UFJ.

 

Por Ana Luiza Gomes Guimarães & Laís Fernanda Fernandes Dutra


[1] Estudante do curso de História, 1° período, Universidade Federal de Jataí.

[2] Estudante do curso de História, 3° período, Universidade Federal de Jataí.

 

RESUMO


O presente ensaio tem por objetivo elaborar uma análise teórica sobre como o conceito de Necropolíca, formulado por Achille Mbembe e Epistemicídio, desenvolvido por Boaventura de Sousa Santos incorporam-se nas letras do gênero rap produzidas durante a pandemia. Sendo as músicas Lei Áurea, do rapper Borges e produtor musical L3onzin e Favela Vive 4, idealizada pelo grupo ADL, produzida por Índio e Tibery. Dessa forma, verifica-se como essas práticas se relacionam com a crise sanitária vivenciada em 2020 e em demais períodos no Brasil, partindo do que é comunicado nas composições.

 

Ao considerar uma crise sanitária a Organização Mundial da Saúde (OMS), que devido ao surto decorrente do vírus SARS-cov-2 ou COVID-19, no dia 11 de março de 2020, declarou inúmeras medidas de proteção contra essa doença. Dentre as medidas, está o isolamento social. O questionamento que surge é: diante de um vírus que biologicamente atinge a todas as pessoas, de qual forma este seria sentido socialmente nos diversos grupos sociais, em específico as pessoas negras residentes nas periferias? Além das inúmeras facetas que se tornaram mais expostas, o capitalismo mostrando-se cada vez mais falho e os abismos sociais ainda mais marcantes, por fim, é perceptível que as violências e o racismo estão explícitos, sendo gradativamente mais filmados.


Dessa forma, esse ensaio pretende analisar brevemente as articulações dos mecanismos de Necropolítica, articulado por Achille Mbembe, e Epistemicídio desenvolvido por Boaventura de Sousa Santos, a partir das produções musicais do gênero rap. E assim, realizar uma reflexão teórica buscando entender, durante esse contexto de pandemia, as realidades descritas e a relação com os conceitos, sendo as músicas Lei Áurea do rapper Borges, e Favela Vive 4, com contribuição de inúmeros artistas, sendo eles: ADL Lord, Mc Cabelinho, Kmila CDD, Orochi, Cesar Mc, ADL Dk, e Edi Rock.


Compreendendo a partir desses contextos como esses mecanismos manifestam-se e as consequências dessas articulações, e dentre todas as notícias circuladas na mídia, como são transformados e sentidos os impactos de estar diante de uma ruptura com um estado de aparente normalidade, eventos deploráveis para a população preta e periférica, e presenciar um projeto de genocídio dessa população.


Destacando que os compositores dessas letras residem em locais no Brasil e no tempo, de forma que pensar as letras é, também, pensar os espaços e tempos que esses artistas experienciam, que segundo a lógica introduzida por Conceição Evaristo, a Escrevivência é justamente a junção de escrever ou falar da experiência e história de uma coletividade negra, das observações, e de tudo que permeia seus espaços, do mesmo modo que esses artistas o fazem.


Em virtude dos fatos mencionados, é necessário compreender o que é, e qual é a importância do movimento hip hop e como o Rap atua dentro deste movimento. Em resumo, o movimento hip hop surge com fundamento de afirmação racial e construção de uma identidade, onde as relações de um grupo étnico-racial manifestam-se a partir do local de moradia (rua, vila e bairro).


Este movimento surge nos Estados Unidos em um contexto onde bairros periféricos estavam expostos à pobreza, ausência de espaço, tráfico de drogas, racismo, educação precária e à violência, surgindo assim gangues formadas por pessoas residentes dessas regiões. Dessa forma, alguns jovens que organizavam festas de rua resolveram criar disputas de dança dentro dos bailes, com o intuito de minimizarem as guerras de gangues, surgindo assim o break dance. Incentivaram também a desenvolver o grafite como forma de arte e não como demarcação de território, passando a retratar a realidade da periferia, e dessa forma pensar sobre os problemas dela comparando à realidade urbana. E em seguida, os “djs”, artistas que criaram “loops”, um estilo musical para se dançar o break.


O rap ganha espaço, posteriormente, como estilo musical onde suas letras canalizam toda crítica social de seus protagonistas para uma discussão que dá espaço para que aqueles que nunca foram ouvidos possam manifestar suas opiniões e emoções, diante da realidade a qual estão inseridos, e consolida-se como aparato de autoafirmação da identidade coletiva e do protesto social. Por conseguinte, percebe-se assim uma necessidade de compreender os problemas que assolam sua tribo, para tanto o conhecimento e a conscientização passam a ser um dos elementos mais importantes que compõem o movimento hip hop, não permitindo assim que este passe mais um modismo ultrapassado e banalizado, o que fez com que o hip hop se espalhasse pelo mundo e alcançasse um público maior e mais variado, sem deixar que este perdesse o objetivo de sua causa inicial.


Dessa maneira, o hip hop chega ao Brasil nos anos 80 através da mídia, onde jovens das periferias viam pela televisão uma dança contagiante e a tentaram reproduzir. Assim por diante, aqueles que se sentiam atraídos por esse estilo passaram a se reunirem nas escadarias da Galeria 24 de maio, local onde se encontra o maior acervo da história cultural do movimento negro, para as competições de dança, substituindo aqui também, as brigas de gangues de bairro.


Em um primeiro momento de formação o hip hop no Brasil era apenas um movimento de expressão corporal que visava mais uma maneira de sociabilidade do que um movimento consciente do seu papel, que é o estilo de dança chamado break. Entretanto, esse cenário só começa a mudar quando pioneiros do break passam a ter contato com pioneiros do hip hop estadunidense, e a partir desse momento tomam consciência dos principais expoentes do movimento, dando espaço para o surgimento dos primeiros rappers brasileiros, e à criação de associações culturais e posses (instrumentos de conscientização e organização do movimento hip hop) estas serviam para reunir adeptos do movimento para discutir os problemas que afligem jovens periféricos, com uma narrativa de protesto que ganha corpo no canto falado nas letras de rap, organizadas por um “Mestre de Cerimônia” (MC).


Por fim, o hip hop no Brasil, possui a intenção de reconstruir a autoafirmação cultural e social dos negros e afrodescendentes, que historicamente as perderam em um contexto de escravidão seguido da falta de oportunidades de ingressar em uma educação de qualidade e um mercado de trabalho, desta forma, através da arte e da cultura, estes jovens estão conquistando seu espaço na sociedade enquanto cidadão.


Perante esse cenário descrito, é possível entender que, uma das causas desses problemas surgiram devido ao epistemicídio, desenvolvido na tese de Sueli Carneiro, com base na definição do conceito de Santos. Em que, o epistemicídio funciona como um aparelho de dominação étnico/ racial, que contribui excepcionalmente para a propagação do racismo no Brasil. Isso acontece através de diversos fatores, entre eles a exclusão cultural, onde acreditavam que diante do imaginário pós abolicionista, os negros iriam entravar o desenvolvimento cultural da sociedade brasileira, onde só é possível haver civilidade advinda de um ramo da raça branca, segunda a visão de Nina Rodrigues.


Em síntese, este conceito vai para além da desqualificação, ou subordinação do indivíduo, é a constante produção de indigência cultural. Ocorrendo assim, a morte das formas de conhecimento dos grupos subjugados.


Isso nos permite perceber a que instâncias tudo o que é dito nas letras traduz diversos tempos e realidades, que se fazem presente em um momento pandêmico. Compreendendo, através desses mecanismos, tanto discussões que estão sendo travadas a muito tempo, quanto refletir as transformações que surgiram durante a disseminação do coronavírus. A música Lei Áurea foi lançada no dia 28 de julho de 2020, no canal do Youtube do rapper Borges e nas demais plataformas de entretenimento. A música tem duração de 2 minutos e 45 segundos, o rapper faz parte da gravadora Mainstreet, sendo o produtor musical desta música, L3onzin.


Ao reparar nos versos iniciais, quando Borges diz “Alguém me acorda desse pesadelo/ 111 tiros acertam um preto /Menor jogado com corpo no beco /Nossa pele faz nós já nascer suspeito”, relembra um acontecimento em 2015 na cidade do Rio de Janeiro, onde a polícia militar matou cinco jovens com 111 tiros de fuzil e pistola. Na justificativa desses PMs, os jovens atiraram e eles apenas revidaram, portanto, peritos alegam que nenhum disparo ocorreu de dentro para fora do carro.


Os policiais foram presos e acusados de homicídio doloso e fraude processual. Este acontecimento está inserido em um processo histórico de criminalização da pobreza, onde pode ser exemplificado em leis que aumentam a pena simplesmente pelo fato de o sujeito ter sido preso em uma favela, apresentando assim a sociedade que “violência na favela é uma característica inerente dela e não como um resultado sistêmico da desigualdade social”, como podemos ver no vídeo “Criminalização da pobreza” de 2 minutos e 33 segundos na plataforma do YouTube, no canal Jornal Antijurídico.


De forma que, ao cantar “Ágatha, Duda, Kauan, João Pedro/ E dizem que só quem morre é traficante /Guerra licenciada pelo Estado/ Favela alimenta sua fome de sangue/ Durmo sem saber se vou acordar”, Borges salienta que, neste contexto de crise sanitária, podemos perceber a ação da política, da morte estabelecida socialmente diante da pandemia, e em Favela Vive 3 quando o Mc Cabelinho diz:

E minha filha, criança ainda/ Traumatizada, acordou chorando e veio correndo pros meus braço/ Playboy não sabe o quê que é um tiro de fuzil na hora da troca/ Atravessando a janela do seu quarto/ O povo aqui em cima pede socorro/ Indignado quando a bala come/ Eles têm grana pra guerra no morro/ Mas nunca consegue acabar com a fome. (ADL,2020).

Ou seja, ao negar que certos grupos foram e estão sendo marginalizados, estes tem sua humanidade negada através de discursos que sempre se modificam, porém sempre dentro da ótica da necropolítica, implantada pelo Sistema Capitalista, vem crescendo ainda mais, não somente devido às mortes causadas pelo novo vírus, mas também o aumento da violência policial nas favelas, onde a polícia mata dentro de casa, fora o fato das pessoas pretas e pobres serem mais expostas ao vírus por ter que garantir seus empregos. E diante da desigualdade social, a guerras as drogas é tida como prioridade, e não acabar com a fome.


Assim, podemos expor o exemplo do caso de João Pedro, onde o rapaz de 14 anos, que foi baleado na barriga dentro de casa durante uma operação policial, no dia 19 de maio de 2020, estes chegaram atirando e impediram a família do rapaz de entrar na própria casa enquanto estavam lá dentro.


Como se não bastasse, nos versos de Lei Áurea “Explica que o herói é quem mata/ E o vilão é quem te deu chuteira” a contradição que existe nesses espaços, o herói que mata é a polícia, representação do estado, com o papel de proteger a população (qual população?) e o vilão é quem dá a chuteira, essa concepção de comunhão dos residentes na comunidade para assim sobreviverem, onde até quem é o inimigo segundo uma visão do estado, faz mais que ele mesmo.


É importante salientar que, a partir da noção que Necropolítica, é a organização do poder para a produção da morte, aquele que deve morrer é tido como o inimigo. E muitas vezes esse inimigo é impreciso, portanto, jovens negros mortos durante operações policiais são confundidos com bandidos, e pra isso basta portar um celular, guarda-chuva, só residir na favela, ou perto de um local visto como perigoso, a polícia já constata quem é o inimigo que procuram, o corpo preto que historicamente é construído como perigoso.


Já a música Favela Vive 4, é parte de um projeto idealizado pelo grupo Além da Loucura (ADL), de Teresópolis, Rio de Janeiro, que tem como um dos integrantes os rappers Lord, Dk 47, e o produtor musical Índio, com o intuito de denunciar racismo, violência policial e descaso com as periferias, realizando o encontro de várias gerações do rap nacional. Esta música foi lançada no dia 12 de novembro de 2020, na plataforma do Youtube, através do canal do grupo ADL, com duração de 13 minutos e 55 segundos, foi produzida por ADL Índio e Tibery.


Outrossim, nos versos do ADL Lord, ao citar “Você me pergunta de onde vem tanta raiva/É do descaso da patroa com o filho da empregada/Tratamento diferenciado e liberado /Aí o preço pago é vinte mil na vida favelada”. Nos permite relembrar o caso ocorrido no 02 de junho de 2020, em que a funcionária deixa o seu filho sob os cuidados da patroa, para ir passear com o cachorro desta, e o descaso da patroa com a criança, contribuiu para que ocorresse o acidente, onde Miguel de 5 anos, cai do 9º andar do prédio, após ser deixado sozinho no elevador. Sari Corte, primeira dama da cidade Tamandaré, foi indiciada de homicídio culposo, porém, após pagar 20 mil de fiança, responde em liberdade.


Em vista disso, fica o questionamento explícito no verso do Cesar Mc, ao dizer “A mídia abafa, o tempo voa e uma vida não se paga (não, não) / Nesse país, a nossa dor não vale nada/ Pensa se a patroa perde o filho e a culpa é da empregada? /O Brasil para!”.


E, tendo consciência de que muito dos problemas atuais são fantasmas do passado que se fazem presentes, Dk deixa claro quem é responsável por manter determinados discursos, quando diz “Me ensinou o latrocínio e como invadir residência/ Quinhentos ano que os branco tão na porra do Brasil/ Dando um curso intensivo de como agir com violência”. Nos suscita a pensar que a partir do colonizador europeu os discursos foram legitimados em diferentes períodos, seja para afirmar-se enquanto ser civilizado, a partir da construção do não-ser, até mesmo no papel da igreja no Brasil de legitimar a escravidão e racismo afirmando que o negro não tem alma e que por isso não era responsabilidade da mesma garantir sua liberdade individual. Intensificando-se no século XIX com o cientificismo que através do racismo científico que passar a vigorar o processo de embranquecimento da população, onde quanto mais distante do negro melhor, e desta forma compreendemos que a violência já estava acontecendo a séculos.


Ao considerar que as duas músicas surgiram no contexto de pandemia, e as inúmeras mazelas que sempre existiram, mas que sempre voltam à tona, o fato do Cesar Mc enfatizar sobre a visão dele em relação às manifestações no Brasil, após o acontecimento do assassinato do George Floyd, por um policial branco em Minneapolis no dia 25 de maio de 2020, os versos:

Vidas pretas importam!/ Tem quem reclame dessa frase/ Enquanto balas nos invadem e joelhos nos sufocam/ Ei, nunca ligaram pra essa causa/ É hashtag, tela preta pra fingir que nos suportam/ A cada 23 minuto morre um jovem negro, mais um negro drama/ Tipo o João Pedro, ei/ Mas por aqui, a dor só gera comoção quando a manchete é americana/ Quantos George Floyd morreram no anonimato?/ Aí que eu me pergunto/ Se os #TelaPreta se comoveram, por que nunca tocaram no assunto? Ainda que eu morra, eu vou denunciar/ Até meu último suspiro por aqueles que não podem respirar/ Tipo o filho da empregada que é morto pela patroa[...] A idolatria é cega e a tragédia é óbvia/ E o presidente da família só pensa na própria/ Vida de pobre foi cobaia pra salvar a economia/ Tem sangue no Excel que enriquece a burguesia/ A fome não foi pra pauta, somente a mão de obra/ Não ligam pra nossa falta, protegem a própria sobra. (ADL,2020).

Diante dessa realidade, nos permite pensar que o posicionamento do atual presidente da república perante ao cenário de pandemia, onde este demonstra ser contrário às recomendações de proteção propostas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), argumentando que essas medidas podem trazer impactos negativos para a economia, gerando o enfraquecimento de empresas, aumento do desemprego, da falência e da fome. Desse modo, a atitude do presidente de priorizar questões econômicas e não medidas preventivas, explicita o desdém do mesmo para com a vida, e o bem estar da população como um todo, e desconsidera que terá consequências diferentes para determinados grupos da população.


Por conseguinte, neste contexto de crise sanitária, esse discurso se estende a ideia de “doença democrática”, a qual dita que o vírus não tem predileção racial, o que de fato é uma verdade, pois todos estão sujeitos a se contaminarem. Porém, com a soma destes dois discursos, percebe-se a política da morte estabelecida socialmente diante da pandemia, ou seja, ao negar que certos grupos foram e estão sendo marginalizados, estes têm sua humanidade negada através de discursos que sempre se modificam e são legitimados através da prática da necropolítica. Desse modo, o descaso do Estado para conter a crise e a despreocupação em oferecer melhores atendimentos, testes e medicações a estes grupos excluídos, só contribui para que, além uma maior exposição e contaminação, estes tenham maiores chances de morrerem.


Com efeito, na música Dk 47 ao expor “Quem nasce em meio ao massacre/ Tem o ódio de amostra grátis/ Que minha vida não é um Tik Tok/ Minha vida é um tic tac ”, nos faz refletir sobre a configuração da favela como um estado de exceção descrito por Giorgio Agamben, onde as realidades constituídas nessa territorialidade destoam de outros espaços, logo enquanto existem aqueles que estão em casa utilizando a rede social tik tok, para outras pessoas a vida passa como um tic tac.


Por consequência, está sujeito a lidar constantemente com a possibilidade de ser morto, de ter e ver pessoas próximas sendo mortas, e ainda refletir não só a morte física, mas também a subjetiva, sendo a impossibilitado de viver o futuro enquanto projeto, pois diante de uma zona de terror, o perigo é iminente, sendo privados assim de visualizar-se no futuro, e por ser minado não consegue ser além do que já está sendo, e o verso transgressor do rapper Orochi alia-se a essa noção quando expressa “Sou a prova que a favela venceu/ Sou o contrário do que querem pra mim”.


Ademais, durante a fala do Dk 47, “Quer matar um favelado antes que ele fique rico?/ Quanto mais nós é falado, mais eles ficam falido/ Agradece se tu pode chegar em casa hoje vivo/ Porque tu é sobrevivente de um plano de extermínio”, além de estar exposto a contaminação pelo Covid-19, para garantir seus empregos, diante da falta de suporte durante esse momento, e relembrando a atitude do presidente de priorizar o mercado, essa noção neoliberal, leva a sobrecarga dessas pessoas de lidar com a exposição devido ao trabalho, e também em frente desse projeto de extermínio da população das comunidades.


Considerando o modo de produção capitalista que precisa da manutenção da desigualdade social, estar diante da pandemia é entender as inúmeras instâncias de poder responsáveis por gerar morte, que mesmo sendo alarmante os números de óbitos por covid, ainda sim são naturalizados, e pensando a realidade de negros marginalizados, sendo a experiência colonial a base para entender as tecnologias de biopoder, a partir da falta de acessibilidade, violência destinada a esses sujeitos e dentre outros fatores. Constrói-se o não-ser nos espaços, e devido ao cerceamento desses indivíduos, define assim a territorialização da pobreza.


Por fim, reconhecendo como operam as práticas de epistemicídio e necropolítica, na estrofe do último artista de favela vive 4, na ocasião em que o Edi Rock apresenta:

Em cada telha de Eternit, click, em cada lajota/ Em cada torneira faltando água pra lavar as mãos/ Em cada pólvora e bala nessa direção/ Lá vem o Caveirão, diabo que mandou/ Crianças nesse tapetão, na TV a mãe chorou/ Se existe alguém, quem que vem para nos salvar?/ Deus num guenta mais, tá difícil de contra-atacar/ Plá, plá, plá, plá, vai pro chão e reza forte/ Reza porque não é igual no filme, onde o crime é trote/ Aqui é a morte, milícia e BOPE, azar e sorte/ Em cada lote uma família, a trilha aqui tá sempre forte/ Contra doença, contra sentença, contra violência/ A conta não enche se é contra a demência, contra essa falência/ Em cada quintal, que bem ou mal, em cada qual uma crença/ Racistas fardados matam mais com mais uma licença.(ADL,2020).

O rapper ao nos descrever uma realidade, nos leva a pensar que por mais que o Estado não seja o único responsável por gerir a morte, ao entender a polícia como agente do mesmo, diante da violência destinada a um grupo específico, e vislumbrando que as leis na comunidade são diferentes, por mais que a polícia entre armada na favela procurando a figura do traficante, na justificativa de combate ao crime organizado ou tráfico de drogas, inúmeros inocentes são mortos, seja eles adultos, jovens ou crianças, muitas vezes por residir dentro daquele espaço, devido a construção imprecisa da figura desse inimigo.


Logo, os residentes das periferias percebem que o alvo são eles, porque se realmente almejassem acabar com o tráfico não estariam procurando na favela, pois muitas vezes quem fornece drogas e armas não fazem parte dessa classe social. Possivelmente, diante dessa realidade pandêmica, o COVID-19 é mais uma justificava para que essas ações ocorram, sendo permitidas e legitimadas. Porque, diante da possibilidade de morte pelo vírus, existe esses mecanismos operando, sendo reafirmados nas falas e atitudes do presidente do país. Nos faz questionar então, como essa lógica neoliberal contribui com a necropolítica.


Dessa maneira, é possível compreender que as duas letras escolhidas, tanto Lei Áurea como Favela Vive 4, identificam na figura do governo a responsabilidade pelos inúmeros problemas que abarcam as realidades desses moradores, como a desigualdade social, se expor ao vírus para trabalhar, o medo da fome, mas também pelas mortes. Sendo essas amplificadas nesse contexto, por envolver não só a doença, mas também as violências que acontecem nas periferias. O descaso com a vida dessa população sempre mostrou-se evidente, percebendo então um processo genocida. Assim concluímos com o questionamento levantado pelo Edi Rock “Quantos morreram e quantos vão morrer bem antes de encontrar a vacina?”.

 

COMO CITAR ESSE ARTIGO


GUIMARÃES, Ana Luiza Gomes; DUTRA, Laís Fernanda Fernandes. Os Mecanismos de Necropolítica e Epistemicídio Apreendidos em Letras de Rap Que Surgiram em Contexto. In:. Revista Me Conta Essa História, a.II, n.14, fev. 2021. ISSN 2675-3340. Disponível em: < https://www.mecontaessahistoria.com.br/post/os-mecanismos-de-necropol%C3%ADtica-e-epistemic%C3%ADdio-apreendidos-em-letras-de-rap-que-surgiram-em-contexto>. Acesso em:

 

REFERÊNCIAS


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