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(RE)EXISTÊNCIA LGBTQ+ ATRAVÉS DO PAJUBÁ: COMUNICAÇÃO NO COLETIVO LUANA MUNIZ DE JATAÍ- GO


 

Pajubá, LGBTQ+, Resistências, Iorubá, Linguística.

 

LEPH - Revista Me Conta Essa História Jan. 2020 Ano I Nº 001 ISSN - 2675-3340 UFJ.

 

Por Jéssica Marques da Costa;

Hugo Ribeiro de Souza;

Catharina Gomes Araújo Faria;

Kamilla Luiza Lima;


[1] Graduanda em História pela Universidade Federal de Jataí - UFJ

[2] Graduado em Psicologia pela Universidade Federal de Jataí - UFJ

[3] Graduanda em Direito pela Universidade Federal de Jataí - UFJ

[4] Graduanda em Direito pela Universidade Federal de Jataí - UFJ

 

RESUMO


Este trabalho de caráter interdisciplinar foi feito para a conclusão da disciplina de Introdução à Antropologia, e têm o intuito de refletir sobre a construção do Pajubá como dialeto LGBTQ+ e a consequente caracterização de resignação e resistências. Para tanto, contextualizaremos historicamente a constituição do Pajubá que possui referenciais diretas da língua Iorubá e discutiremos também sobre variações linguísticas. Além de aplicarmos um questionário denominado “Pajubá: significações que caracterizam uma resistência” por meio do Google Forms a fim de investigarmos os usos do Pajubá em meio ao Coletivo LGBTQ+ Luana Muniz.

 

O Pajubá é considerado um dialeto , utilizado por algumas pessoas LGBTQ+, que é construído a partir da variação linguística do Iorubá, formada a partir de línguas regionais do Sudoeste da Nigéria e no Reino de Queto, que hoje é à República de Benin. Seus primeiros registros escritos são datados do século XIX, tendo Samuel Ajayi Crowther, um homem negro escravizado como o responsável por grafar o Iorubá e ensinar os missionários que se apropriam desse conhecimento com o fim de facilitar a catequização e dominação. Esse idioma, que é parte importante para a construção e caracterização do Pajubá, veio para o Brasil através do processo de travessia do atlântico com a escravidão.

No regime de escravidão, a cultura foi fundamental para que se fizesse um elo entre os africanos que estavam no Brasil e seu lugar de origem ancestral. As religiões dematriz africana tiveram um importante papel nesse processo. O candomblé e a umbanda são duas vertentes que surgiram nesse contexto dando aos povos que sofreram com o regime escravista a noção de laços familiares nos terreiros. No decorrer do processo, os rituais se adaptaram.


O candomblé que naturalmente também passa por ressignificações consegue manter um pouco de suas raízes devido à resistência por meio da língua Iorubá que ainda é usada na liturgia de seus rituais. Sendo uma religião oriunda de África, e estabelecida a partir de segregação sociorracial, cria – se uma visão demonizadora, em que tais religiões estão associadas à magia negra.


Ainda hoje é perceptível que este discurso, marcadamente eurocêntrico, permeia os meios sociais através da estrutura racista, resultando em manifestações de intolerância acerca dessas religiões, como o ataque aos praticantes e a comunidades, tornando estes espaços, espaços de resistências, que lutam para a preservação de suas culturas.


Homossexuais e travestis começaram a frequentar os terreiros de candomblé, em geral, pela abertura e aceitação que eram dirigidas a elas, visto que, assim como as filhas e filhos de santo do terreiro, também estavam postos à margem. Segundo Yeda Pessoa de Castro, foi a partir dessa conjuntura que o dialeto do Pajubá se constitui: o contato entre o Iorubá praticado nos terreiros do candomblé e a comunidade LGBTQ+, tornando-se um código de resistência.

O estudo das relações entre a língua e a sociedade que a utiliza é encontrado dentro de um ramo da linguística denominado sociolinguística. Para essa corrente a língua é uma instituição social, não podendo ser estudada como uma estrutura autônoma independente do contexto situacional, da cultura e da história das pessoas que a utilizam como meio de comunicação (Cezario & Votre, 2009).

É possível notar através do que já foi que o dialeto é entendido como uma linguagem indesejada, visto que o seu surgimento foi com base em uma resposta a uma marginalização, sendo acessível apenas para uma minoria. Araújo (2008) destaca que a gíria de um grupo é transformada em comum, já que a linguagem está em constante “atualização”.

Assim como as outras línguas, o português brasileiro é munido de inúmeras variações. A língua ensinada nas escolas não é a única e pura, muito menos a padrão, estudar apenas essa forma é excluir os demais complexos de variedades. Diante disso, temos o Pajubá como uma variante linguística utilizada pela comunidade LGBT+, com suas próprias gírias e estruturas. Seus falantes a utilizam na “comunidade de prática”, para falar entre si ou como código para que os outros ao redor não entendam. Sua formação vem da ressignificação do Iorubá, além de novas palavras e expressões que seus falantes adicionam – proveniente, em sua maioria, da linguagem da internet e dos “memes”.

Um ponto a ser levantado sobre a linguagem é o fato de que um mesmo significante pode possuir diferentes significados, diferenciando-se conforme o contexto e a comunidade que está inserido. Por exemplo, a palavra “erê” vem do Iorubá e hoje é falada tanto na umbanda quanto no Pajubá, possuindo no primeiro o significado de criança e no segundo de adolescente. Outras como “viado” se refere ao gay, mas pode ser usado de forma pejorativa ou sem menosprezo, dependendo do emissor.

A fim de compreendermos como o Pajubá é utilizado em meio a um grupo LGBTQ+, realizamos um questionário sobre seus usos e ressignificações no Luana Muniz, criado em 2017. Para isso, nos baseamos na compilação de termos do Iorubá feitas por Cruz & Tito (2016) que selecionaram palavras comumente faladas nas religiões de matriz africana como o candomblé e a umbanda, e apropriadas no meio LGBTQ+, importante destacar que os autores escolheram palavras mais comumente utilizadas nas regiões nordeste e sudeste do país:

Sendo assim, foi feito um questionário intitulado “Pajubá: significações que caracterizam uma resistência” por meio do Google Forms composto por cinco perguntas, entretanto aqui focaremos na segunda e quarta perguntas. Este questionário foi enviado em um grupo de aplicativo de comunicação (WhatsApp) do coletivo e respondido entre os dias 18 de fevereiro à 04 de março de 2018, sendo que de 67 integrantes 35 responderam.


Na segunda questão "Quais dessas gírias você utiliza?" utilizamos a lista dos autores Luan CRUZ e Raphael TITO (2016), a maioria das pessoas que responderam que não utilizam nenhuma das gírias postas (57,1%). Em relação a quarta questão “Você usa outra gíria que não foi encontrada neste formulário? Se sim, coloque o nome e o significado dado a gíria”, as respostas nos levam a crer que sua origem seja da mídia e redes sociais, segue abaixo as respostas.

Concluímos que o Pajubá além de estar presente na comunidade LGBTQ+ das regiões nordeste e sudeste do país, também se encontra no cotidiano do coletivo “Luana Muniz” como meio de socialização, os distinguindo de qualquer grupo social, proporcionando assim a afirmação da existência de cada pessoa LGBTQ+ do coletivo. Enquanto grupo, a comunidade LGBTQ+ se apropria de outras de expressões e palavras visando uma demarcação/afirmação e também a ruptura de paradigmas constituídos socialmente. Vimos ainda que apesar de uma maioria não conhecer as palavras do pajubá postas no questionário, o grupo possui suas próprias gírias e ressignificam expressões que por vezes, advém da internet, espaço em que muitas pessoas LGBTQ+ se encontram e criam laços.

 

COMO CITAR ESSE ARTIGO


COSTA, Jéssica Marques da; FARIA, Catharina Gomes Araújo; SOUZA, Hugo Ribeiro de. (Re)Existência Lgbtq+ Através Do Pajubá: Comunicação No Coletivo Luana Muniz De Jataí-GO. In:. Revista Me Conta Essa História, a.I, n.01, jan. 2020. ISSN 2675-3340. Disponível em: <https://www.mecontaessahistoria.com.br/post/re-exist%C3%AAncia-lgbtq-atrav%C3%A9s-do-pajub%C3%A1-comunica%C3%A7%C3%A3o-no-coletivo-luana-muniz-de-jata%C3%AD-go> Acesso em:

 

REFERÊNCIAS


ARAÚJO, J.C. Chats na Web: Linguagem proibida e a queda de tabus. Revista linguagem em discurso, Santa Catarina, v.8, n.2, p. 311-334, maio/ago. 2008.


CASTRO, Yeda Pessoa de. Falares africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro, Rio de Janeiro: Topbooks, 2005.


CEZARIO, M. M. VOTRE, S. Sociolinguística. In: MARTELOTTA, Mário Eduardo (org.). Manual de linguística. São Paulo: Contexto, 2009.


CRUZ, L. & TITO, R.P. A comunidade LGBT+ no desdobramento da Língua Iorubá. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE LINGUÍSTICA E FILOSOFIA, 2016.

Rio de Janeiro: CiFEFiL, 2016. p. 9-21. Disponível em:


FASCÍNIO, R. Entre compassos e descompassos: um olhar para o "campo" e para a "arena" do movimento LGBT+ brasileiro. Revista Bagoas, v. 0 n.4, p. 131-158, 2009.


GEERTZ, C. A Interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1989.


HONÓRIO, Ceci-M. A. Ensino de línguas e Identidade: entre o real e o imaginário. In: CORREA, Djane Antonucci; SALLEH, Pascolina Bailon de Oliveira (org.). Estudos da Linguagem e currículo: diálogos (im) possíveis. Ponta Grossa: EDUEPG, 2009.


LAU, D. H. A (des) informação do bajubá: fatores da linguagem da comunidade LGBT+ para a sociedade. Revista Temática. v.11, n.2, 2015.


LOURO, G.L. Gênero, Sexualidade e Educação: uma perspectiva pós - estruturalista. Rio de Janeiro: Vozes, 1997.

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