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UMA DISTOPIA: ANÁLISE DOS ELEMENTOS DESUMANIZADORES NO NOVO SISTEMA DE HILDA HILST


 

Distopia. Literatura.

 

LEPH - Revista Me Conta Essa História Fev. 2020 Ano I Nº 002 ISSN - 2675-3340 UFJ.

 

Por Cássio Santos Franco, Natália D’ Ambros e Natacha Oliveira Lassi De Ázara

 

A utopia representa uma sociedade idealizada, fazendo com que a sua concretização no mundo real não seja possível. Constata-se que há uma insatisfação da sociedade moderna com o tempo presente, visto que, projetam na utopia uma esperança de um futuro platônico. Como exemplifica BARROS (2017):

Os homens da modernidade estão em busca do perfectio, para eles este ideal se realizaria com o futuro, ou seja, as utopias moveram escritos literários, ideais e pensamentos, nos quais se lançavam no futuro por recusar seu presente. (BARROS, 2017, Sp).

Constatando que existe na sociedade moderna uma idealização do futuro e que a mesma não se concretizou, pelo contrário, o que se vê na História são os desastres desencadeados pela evolução da ciência, a distopia surge como uma visão negativa do desenrolar dos elementos sociais. Portanto, “a distopia, em suma, se refere a um olhar divergente do futuro, se o homem moderno almeja o futuro, o homem pós-moderno tenta retardá-lo” (BARROS, 2017, Sp). Logo, pode-se considerar a distopia como uma utopia reversa, que busca analisar as consequências da barbaridade presente na sociedade. Sendo assim, a distopia é a representação de uma condição existencial pior do que aquela que vigora socialmente.


Já, os interesse sobre os conceitos distópicos perpassa por inúmeras áreas e se modifica a partir da metodologia em que é utilizada. Para quem lê e escreve, a distopia traz aspectos céticos e elementos que transportam o leitor para uma realidade desagradável.


Hilda Hilst é uma autora brasileira com um enorme arcabouço literário, produziu mais de 40 obras literárias, dentro delas poemas, romances e teatros, sendo assim, detêm o poder de configurar, ou “desconfigurar” a linguagem para que suas obras tragam uma visão crítica da sociedade para o leitor.


A literatura é um “ser” fictício, que é respaldada por fatores sociais, pois seu mecanismo de produção, a linguagem, é interativa, calcada nas relações sociais entre o falante e o ouvinte, numa troca sem fim do eu para o outro. Como diz Octávio Paz, em seu livro O Arco e a Lira, “A arte se nutre sempre da linguagem social. Essa linguagem é, do mesmo modo e sobretudo, uma visão do mundo.” (PAZ, 1982, P.352). Visto isso, a distopia, com sua construção exagerada do pessimismo, representando uma visão de mundo, é um gênero literário afundado nas relações sociais da época escrita, que pela ressurreição trazida pelo leitor ecoa por vários séculos.


Visto isso, Hilst escreve O Novo Sistema em 1968, o que possibilita uma análise comparativa com o momento da escrita e o conceito de temporalidade. O momento da produção da obra é representado pelo período da ditadura militar no Brasil, tendo início em 1964, através da chegada dos militares ao poder do governo. Sendo assim, em vários trechos da obra a autora apresenta elementos que remetem ao governo militar, deixando evidente a reflexão de que o ambiente em que ela escreve e o contexto histórico estão ligados direta ou indiretamente à sua obra.


A ditadura representou um período político extremamente autoritário, com a restrição à liberdade de expressão, a repressão dos grupos que tinham ideias contrárias à forma de governo através da tortura, aniquilação de uma massa social e a censura. Deste modo, demonstramos através de um trecho da obra de Hilda como esse modo de governo ditatorial é representado:

ESCUDEIRO 2: O senhor ainda não deduziu: (ri)
PAI: O Escudeiro-Mor dará uma solução...aos tais da física.
ESCUDEIRO 1: Se eles não colaboram… a solução mais prática… (sorri e alisa o poste). (HILST, 1968, P.332).

Na colocação do Pai, os tais da física são contra a forma de governo do novo sistema, pois não enxerga a física como uma ferramenta de doutrinação, mas apenas como um conceito científico, sendo assim, o Escudeiro-Mor como uma representação de maior poder que os demais escudeiros controla suas vidas. Também, fica evidente a censura e a opressão advindas do novo sistema, pois, a oposição ao sistema, será punido com a morte, visto que, alisar o poste onde os homens estão mortos significa uma ameaça à vida. E assim se dá o paralelo a forma de governo ditatorial em que a autora está inserida, ao qual perpassa a obra.


Portanto, Hilda Hilst, escreve a distopia O Novo Sistema, ao qual será analisado aqui, com um alto grau de complexidade, visto que, as reflexões sobre um estado opressor, autoritário e desumanizador é algo recorrente para se pensar em maneiras de governar o Estado da época, porém, não só no período ao qual a obra foi escrita, constatando que a literatura é atemporal, quando as obras são relidas e revividas pelos leitores, os coautores, o referencial se repete quase como uma gradação na sociedade. Portanto, n’O Novo Sistema, a distopia cumpre seu papel, como conceitua Lucas Henrrique de Barros (2017), o de servir como um aviso de incêndio, ao qual encontra no gênero teatro seu reforço.


Ao falarmos que a distopia pode ser vista como gênero crítico que serve de alerta para os leitores sobre a negatividade da sociedade, ela encontra no teatro épico sua fertilidade e reforço, ao constatamos isso, levamos em conta o contexto social ao qual a obra foi produzida, o gênero teatro e o gênero distopia, para demonstrar como a produção de Hilda Hilst, O Novo Sistema, é um teatro épico distópico respaldado por elementos do contexto social.


O conceito de Bertolt Brecht (1898-1956), sobre teatro épico demonstra uma visão mais didática do que colocava Aristóteles sobre o teatro clássico, pois BRECHT enxerga esse gênero mais como uma relação de reflexão crítica a trazer para o expectador/leitor do que uma sensação a ser alcançada pela catarse, com isso, o expectador não se sente como o personagem, através do afastamento desses dois elementos, o encenador/personagem e o espectador/leitor, o segundo sente estranhamento sobre o enredo posto na produção, refutando sobre aquelas colocações, e, como as mesmas interferem no seu meio social. Como diz RODRIGUES (2010) a produção teatral épica segundo BRECHT “dirige-se não só aos que estão no palco, mas também diretamente ao público” (RODRIGUES, 2010, P.6-5), dando reforço para o objetivo que a distopia quer alcançar, o de atingir o público de forma mais direta, para transmitir um aviso, de que as opressões demonstradas em cenas não são tão irreais, visto que, a partir de uma certo tempo os regimes autoritários são palpáveis, como consta, também, Mário Vilança “o desafio lançado pelo teatro épico é, em última análise, a criação de um teatro responsável socialmente”. (RODRIGUES, 2010, P.8).


Portanto, o teatro de Hilda vem em encontro ao que o gênero épico se propõe a fazer, produzir uma obra pautada na realidade social, para que o espectador, ao olhar a reformulação do lugar onde ele está inserido, no caso da distopia uma sociedade autoritária, consiga adquirir uma visão crítica da sua sociedade. Como exemplifica RODRIGUES (2010):

Brecht desenvolve a proposta primordial do teatro épico, que é a de narrar os acontecimentos relacionados à realidade, com o objetivo de despertar o senso crítico no espectador diante das cenas apresentadas. (RODRIGUES, 2010, P. 15).

Para a análise da obra, também nos atemos aos conceitos de humanização e desumanização. Portanto, o processo de desumanização do indivíduo é uma característica presente dentro de uma distopia, comumente, o ser desumanizado e alienado se coloca em uma posição sub-humana, onde ele deixa de responder por si mesmo e passa a seguir um ideal que não advêm se seus desejos, obedecendo ordens e agindo de uma forma massificada e coisificada que coloca o sujeito em uma posição de características animalescas.


Freire (1970, P. 53), diferente dos animais o homem tem uma noção de tempo e espaço que os possibilita que se livrem dessa prisão onde não se tem noção do tempo corrido, criando uma ideia de constante renovação onde o ser pode lidar com as suas limitações, vendo sem si a capacidade de ultrapassar as “situações-limites”. Dando conta de que essas situações não são barreiras para o nada mais sim uma fronteira entre “o ser e o mais ser”.


A priori devemos caracterizar o que seria humanizar o sujeito, para Freire (1970, P. 54) o homem só seria capaz de se humanizar, a partir do momento em que o mesmo deixa as situações opressoras que desumanizam o indivíduo, sendo que os mesmos devem superar essas “situações-limitadoras” que deixam o homem em uma posição coisificada.


Trazendo ainda a ideia de que o homem humanizado seria aquele que não somente vive para si como um animal, mas aquele que existe no mundo como sujeito em si, determinando e mudando sua história a partir de seus objetivos e desejos pessoais como dito por Freire no seu livro Pedagogia Do Oprimido:

“Detenhamo-nos nesse ponto. Mesmo que possa parecer um lugar comum, nunca será demasiado falar em torno dos homens como os únicos seres, entre os “inconclusos”, capazes de ter, não apenas sua própria atividade, mais em si mesmo, como objetivo de sua consciência, o que o distingue do animal incapaz de separar-se de sua atividade.” (FREIRE, 1970, P. 50).

Partindo desse ponto podemos dizer que a desumanização é o processo onde o homem é privado dessas situações que o libertam, passando por uma educação que não o dignifica, mas o oprime, um regime familiar que é autoritário e não liberador. Não deixando o ser humano somente neste mundo onde ele deve apenas existir como vida biológica, mas também como um sujeito que tem necessidade de afeto, de se sentir útil no meio em que está, apresentando uma necessidade especifica de se sentir vivo e parte do seu ambiente. Como diz Rego:

“Ela [a cultura] desempenha o papel, como afirmei, de imagem e de chave de compreensão do mundo, sem a qual cada um teria a impressão de estar submerso em um caos angustiante. Ela serve de vínculo à comunidade que a compartilha e permite que seus membros se comuniquem entre si. [...] Ela fornece a matéria e as formas indispensáveis para que cada indivíduo venha a construir a própria personalidade. O ser humano não se contenta com uma vida biológica, mas ele tem necessidade de se sentir vivo, o que só pode provir de sua inserção na sociedade especificamente humana: essa constitui seu meio incontornável porque ele é incapaz de encontrar, em si mesmo, as provas dessa existência”. (REGO, 2014, P. 43).

Deixando o homem em um papel de objeto, que não representam nada além de uma coisa, retirando a autonomia desse ser humano, o tratando como uma massa de indivíduos deixando o homem desumanizado como no texto de Hilda Hilst, onde a filha do escudeiro mor descreve como o sistema e a reação de individuo com a sociedade funciona, para o garoto com a maior nota de física:

“Menina: Você pensa que está só porque agora você não pode mais falar apenas de si mesmo. Você não compreende? Neste nosso tempo você só existirá-se individualmente você representar o ser da coletividade. O ser da coletividade entendeu?
Menino: E a coletividade não vê os homens?
Menina: Não dessa maneira que você vê. Escute os olhos devem registrar essa cena (aponta os homens sem olhar) apenas um instante. Amarrar os homens no poste é uma simples demonstração de poder. É para produzir em nós todos uma reação interior automática, você compreende? Automática. (pausa). Nunca se falou tão claro.” (HILTS, 1968, P. 344).

Freire (1970, P. 51) o homem cria seu espaço consciente de si que está sempre em um processo de transformação, diferente dos animais que vivem sem a compreensão dos limites do aqui e agora não se dando conta de dados temporais ou uma ideia de continuação ou “relação dialética entre os condicionamentos e sua liberdade” (FREIRE, 1970, P. 51). Desumanizar é tirar do homem e da mulher aquilo que os caracteriza, o que é indeterminado do indivíduo.

“Assim, em um âmbito especificamente existencial, o humanizar, ou mesmo o “humanizar-se”, constitui-se sempre num constante fazer-se, num porvir e, dessa maneira, a possibilidade do fazer-se homem/mulher se encontra no ser cuja humanidade é, em si, indeterminável.” (REGO, 2014, P. 44).

Hilda trabalha com esse transformar do homem em um ser vazio de emoções, objetivos e sentido no seu existir, deixando esse ser que é biopsicossocial limitado aos seus sentidos básicos, e alienado a um ponto que o mesmo apenas aceita sua realidade, sem o direito de questiona-la ou de intervir em algum aspecto para mudança, como em Rego:

[...] especificamente os processos, bem como os modos pelos quais os seres humanos, seja individualmente ou em grupos, são excluídos da consideração de “seres humanos” por outros seres de mesma “espécie”, tendo como base para tal exclusão a própria desumanização. Também as considerações de seres como “sub-raça” ou de “segunda ordem” são indícios dessa desconsideração. Nesse contexto, urge fazer um recorte perceptivo que aparece como um pretenso paradoxo: alguns fatos históricos específicos demonstram que a humanidade, fruto de um processo cultural, tem levado alguns de seus membros a emitirem discursos que desconsideram seus semelhantes como seres “humanos”, ou mesmo tratando-os de forma inumana ou impedindo que alguns grupos possam construir para si sua própria humanidade. É esse conjunto de discursos e práticas de uns sobre outros, de opressores sobre oprimidos, por meio de ações violentas ou de descaracterizações e desconsiderações do outro como “humano”, considerando como “detentor” de outro tipo de humanidade que não aquela imposta pelo modelo vigente, com o intuito de subjugá-lo e/ou eliminá-lo, que aqui será denominado de desumanização.” (REGO, 2014, P.45).

Hilda traz essa noção de humano como coisa (ou desumanizado) desde os primeiros diálogos do seu teatro, onde o menino com a maior nota de física questiona os pais sobre o porquê de os homens estarem amarrados no poste e de forma ríspida corrige o filho para que não questione mais sobre o assunto:

“Menino: Eu estou com os pés molhados. E não aguento mais ver estes homens.
Mãe: Mais você tem que se acostumar. Sempre que voltar da escola e passar pelas praças vai ver esses homens.
Menino (angustiado): Sempre?
Mãe: pelo menos durante muito tempo ainda. Hoje são esses, amanhã serão outros.
Menino: Mais você acha que está certo?
Mãe: Menino, pensa na física, pensa na física. Nessas órbitas permitidas, ouviu? [...]” (HILTS, 1968, P. 313).

Presente ainda no teatro de Hilda, a problemática de usar a educação como forma de criar um sentimento de inferioridade no individuo, onde por meio do ensino de física os escudeiros, criam uma noção de que apenas alguns seres dessa sociedade diatópica são sujeitos de direitos, e mesmo esses sujeitos de direitos não estão fora do poder do escudeiro mor sempre estando submissos a alguém ou alguma forma de opressão. Podendo observar essa característica durante o teatro quando o Menino aprende física na escola:

“Menino (diminui a voz) Segundo: “Ao girar ao longo dessas órbitas em torno do núcleo, (levanta a voz) os elétrons são ‘proibidos’ de emitir quais quer ondas eletromagnéticas, embora a eletrodinâmica convencional afirme o contrário.” (HILST, 1969, P.312).

Como Freire afirma na Pedagogia do Oprimido (1970) a educação que não liberta e nem dá autonomia para o indivíduo, cria um ser alienado que apenas segue ordens e não se atenta em criar um senso histórico critico nesse sujeito. Trazendo esse indivíduo para uma situação onde o mesmo não passa de uma massa coisificada que apenas segue as ordens de seus “superiores”. Dentro do teatro de Hilda, podemos ver nos diálogos o demasiado uso dessa arma conceitual que é a desumanização do indivíduo humano.


No Sistema, de Hilda Hilst, a história narrada dá enfoque ao protagonista, o menino, que tem 13 anos, e vive em uma sociedade que diz ser nova, no qual tenta cortar todos os vínculos com a antiga, pois segundo esse novo sistema, o velho sistema não traria coisas positivas para sociedade. Com o intuito de modificar a antiga sociedade, o Escudeiro-Mor cria uma nova comunidade, onde o seu regime é pautado no autoritarismo e na opressão. O personagem Escudeiro-Mor controla a cidade, sendo assim, detém o poder de decisão por completo, a ausência de direitos nessa sociedade é perceptível, pois como conceitua Andityas Soares “as sociedades diatópicas se caracterizam pela inexistência de direitos e garantias fundamentais, sendo altamente autoritárias, quando não totalitárias”. (MATOS, 2017, P.229).


Sendo assim, o novo sistema, para manter seu caráter autoritário tenta erradicar todos os elementos humanitários dos personagens, fazendo com que os mesmos tenham amor apenas ao novo sistema. Para ferramenta de doutrinação os pensamentos da física são postos as crianças, sempre fazendo analogia com o caráter autoritário do novo sistema.


O menino, protagonista da peça, ganha a nota mais alta de física, deixando pressuposto que ele está apto a aceitar as doutrinas do novo sistema, visto que, a física não é mais a representação de uma ciência, mas uma analogia as regras do novo sistema, entendê-las está relacionado a acatar seus mecanismo, assim como, a justificativa do seus atos. Porém, o menino não consegue assimilar a teoria da física com a prática do novo sistema, pois ao passar por uma praça pública onde os homens, que o novo sistema não considera bons, estão expostos mortos, o protagonista os olha muito e indaga os pais do motivo de tal ato. O personagem sente estranhamento com o fato dos homens estarem mortos e pendurados nos postes, sentimento que não pode existir no novo sistema, pois os seres do novo sistema, ao qual conceitos humanizadores como a empatia não fazem parte, precisam entender que aquela ação é justificável, que aquele ato é merecido, como diz na física, ao qual o Escudeiro- Mor cita fazendo analogia:

De todas as órbitas circulares e elípticas mecanicamente possíveis para os elétrons que se movem em torno do núcleo atômico (levanta a voz) apenas umas poucas órbitas altamente restritas são ‘permitidas’. (HILST, 1968, P. 312).

Contudo, é nas demonstrações de humanização do menino que desenrola o enredo da peça, é porque ele olha de mais os homens pendurados no poste, ou por que pergunta, que seus pais são levados para serem mortos. É então nesse momento, quando o menino é afastado dos pais que a personagem, a menina, de 15 anos, filha do Escudeiro - Mor surge, revelando um contraste entre um ser humanizado, o menino, e um ser finalizando o processo de desumanização, a menina.


Linguisticamente a estrutura sintática e vocabular da peça nos dá indícios do autoritarismo do novo estado, assim como, da desumanização dos personagens. Todos os personagens da peça não tem nome próprio, impossibilitando a marcação de uma identidade particular de cada indivíduo, anulando a subjetividade do sujeito, sendo assim, os personagens como a mãe do menino, e, o pai do menino são assim nomeados na peça, assim como, as crianças, os seres da nova coletividade, e os guardas que são identificados por número. Essas colocações demonstram uma representação pela ordem militar, onde os indivíduos são reconhecidos por números, do mesmo modo que, a coletividade, conceito chave para o novo sistema, visto que a subjetividade dos indivíduos é anulada para que, como diz a personagem, a menina, “Neste nosso tempo você só existira se individualmente você representar o ser da coletividade. O ser da coletividade.” (HILST, 1968, P.344).


A estrutura sintática também representa os sentimentos dos personagens, assim como, as ações do novo sistema, por isso, há a constante utilização de reticências ou de frases com o seus sentido subentendido, como nessa passagem:

Mãe: Bem, ele não deixará de olhar os homens (acentua) “demoradamente” e não deixará de perguntar.
Pai (desesperado): Mas isso é para nós dois como uma sentença… de … (O Menino começa a se aproximar do pai) Meu Deus!
(HILST, 1968, P.319).

Deste modo, o uso da reticência marca que mesmo os personagens não vozeando mais palavras, o sentido da última segue se perpetuando, pois, a linguagem não é só o que está sendo falado, ou escrito, neste caso, de forma explícita, mas que contém em seu significado algo implícito, o que nos resta questionar aqui, para um maior entendimento da obra, é o motivo pelo qual os personagens precisam falar implicitamente. A resposta para essa reflexão está no modo em que o Escudeiro-Mor rege o poder, de forma violenta, proporcionando medo nos personagens, visto que, falar de algo, ao qual o estado não permite, pode causar a morte, mesmo que não se possa falar dela. Sendo nesse sentido, que os homens são postos em praça pública, como um aviso para que os seres do velho sistema, os pais, que estão sendo totalmente controlado pelo Escudeiro-Mor, aprendam o que se dá em troca da não aceitação do modo operacional do governo, a punição, ou seja, a morte, como é justificado na peça pela personagem, a menina “Amarrar os homens no poste é uma simples demonstração de poder” (HILST, 1968, P.344).


Já as crianças, por não terem participado do velho sistema, são considerados os seres do novo sistema, visto isso, essa relação entre essas duas gerações, e, como as mesmas são vistas pelo estado é exemplificada nessa passagem da peça, onde a menina diz:

Eu sei que os pais nunca saberão colaborar. Você não vê que é impossível? Ou você pensa que eles realmente se alegram com a tua nota mais alta, pela tua nota mais alta? A alegria desses pais não tem nada da minha alegria, por exemplo. Eu me alegro porque sou o Novo Sistema. Eu sou a coletividade. Os pais se alegram porque, através de crianças lúcidas do Novo Sistema, estão escapando da morte. Você sabe que a morte não será situação do Novo Sistema. Não para nós. Mas os pais carregam a morte porque já estão muito velhos para se esquecerem dela. (HILST, 1968, P.346).

Nessa passagem, a menina, filha do Escudeiro-Mor, tenta justificar para o menino o assassinato dos seus pais. O que se percebe é que a concretização deste modo de governo é um processo em realização, pois, para se consolidar definitivamente como Novo Sistema, excluindo qualquer vínculo com o passado, é necessário que os seres desse sistema não se lembrem do antigo, por esse motivo a coletividade se concretiza nas crianças, que são doutrinadas desde pequenas, através da analogia da física a idolatrar o novo sistema, deixando de lado todos os elementos que o fazem seres humanos.


Por essa razão, cria-se uma dialética distinta entre o menino, e, a menina, visto que, o primeiro sente tristeza pela perda do país, o que deixa pressuposto que o mesmo possui amor paterno e materno. Já a menina, ao qual a mãe foi morta pelo pai, não sente empatia por ela, pois, entende que a sua execução é justificável, assim a figura materna, que é contaminada pelo velho sistema, não é um cenário possível para o novo. Desta forma, faz-se a escolha de uma fala da personagem, a menina, para exemplificar a relação de ausência de amor por parte dos seres do novo sistema:

Menina: Minha mãe também era frágil, desfibrada. Teve o destino de todos os incompetentes e seu corpo foi preparado para ficar exposto durante muitos dias, para que todos soubessem que o meu pai cumpre com rigor as leis do Novo Sistema (HILST, 1968, P.354).

O regime implantado no novo sistema também tenta erradicar toda forma de afeto que os seres humanos podem conter com sua espécie e com os outros. O cachorro, signo tão caro à sociedade ocidental para representar carinho e afeto, aquele ao qual a publicidade cria uma imagem de “melhor amigo do ser humano”, no novo sistema é reformulado, o signo contém outro significante, esse animal vira presa para a humanidade. Como exemplifica a filha do Escudeiro - Mor:

Sua mãe não colabora com o Novo Sistema. Não é permitido levar cachorro para casa. Deve-se chamar o serviço competente. A carne dos cães é um ótimo alimento para nossa grande nação. (HILST, 1968, P.353).

A mãe do protagonista, ao ver o sofrimento do filho, vai contra os dogmas do novo sistema e dá a ele um cachorro, revelando um apego sentimental que existe do menino para com animal. Ressaltado isso, fica explicito a metodologia governamental de doutrinação, sendo o contraste entre o significado e o significante do signo cachorro, posto pela sociedade ocidental, como um ser importante para os seres humanos, ao qual foi domesticado e amado por ele, portanto, ligado a humanização, ao qual o governo proporciona a reformulação da linguagem, ou seja, o significado e significante do signo cachorro, desestimulando o caráter afetivo das relações, e pondo ao animal no lugar apenas de presa, com o intuito de penetrar nos personagens a desumanização.


Contudo, além de conter grande poder de controle social, pautado no medo, o novo sistema, também tenta controlar a língua, visto que, falar é uma ação ideológica, social, por isso, interacionista, o sentido extraído do signo, específico a cada um, é pautado no conceito que determinada pessoa contém sobre o signo e sua imagem mental, sendo, o significante e o significado uma construção social, quando o novo sistema reformula o signo cão “brinca” com a linguagem tentando transformá-la em mecanismo de doutrinação e desumanização.


Outra forma de reformular a língua é a inserção dos jargões e termos técnicos da física nas crianças, os seres do novo sistema, com o intuito de erradicar as variedade linguísticas, marco de subjetividade, sendo assim, de humanização, e para transformar a expressividade da língua, as inúmeras possibilidades de respostas que pode se dar a uma pergunta, em apenas uma, a elaboração decorada pelas crianças da física, ao qual o sistema cria analogias. Em vista disso, podemos pensar em duas formas distintas de comunicar, a primeira, a linguagem, única ao seres humanos, que tem como uma das definições a possibilidade de com um número finitos de regras criar infinitos números de frases, representando a humanização, e a comunicação limitada dos animais, ao qual apenas decodifica coordenadas, emitindo como resposta o mesmo sinal, representando a desumanização que o novo sistema tenta implantar.

 

COMO CITAR ESSE ARTIGO


ÁZARA, Natacha Oliveira Lassi De; D’AMBROS, Natália; FRANCO, Cássio Santos. Uma Distopia: Análise Dos Elementos Desumanizadores No Novo Sistema De Hilda Hilst. In:. Revista Me Conta Essa História, a.I, n.02, fev. 2020. ISSN 2675-3340. Disponível em: <https://www.mecontaessahistoria.com.br/post/uma-distopia-an%C3%A1lise-dos-elementos-desumanizadores-no-novo-sistema-de-hilda-hilst> Acesso em:

 

REFERÊNCIAS


BARROS, Lucas. Presentismo e distopia: O lugar da narrativa distópica em Também o Cisne Morre de Aldous Huxley. In: BENTIVOGLIO, Júlio; CUNHA, Marcelo; BRITO, Thiago. Distopia, literatura e história. Ed. 1. Serra: Milfontes, 2017, p. 146.


BRITO, Thiago. Temporalidades distópicas ou distopias temporais? Um problema para os historiadores. In: BENTIVOGLIO, Júlio; CUNHA, Marcelo; BRITO, Thiago. Distopia, literatura e história. Ed. 1. Serra: Milfontes, 2017, p. 146.


FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Ed. 17. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1970.

HILST, Hilda. Teatro Completo. Ed. 1. São Paulo: Globo, 2008.


PAZ, Octavio. O arco e a lira. Olga Savary. Ed. 2. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1982.


REGO, Patrique. Caminho da desumanização: Análises e imbricamentos conceituais na tradição e na história ocidental. Brasília, p. 170, 2014. Disponível em: file:///C:/Users/natal/Downloads/2014_PatriqueLamounierRego.pdf/. Acesso em: 09 jul. 2019.


RODRIGUES, MR. Traços épico-brechtianos na dramaturgia portuguesa: o render dos heróis, de Carlos Pires, e Felizmente há luar!, de Sttau Monteiro [online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010. P. ISBN 978-85-7983-114-0. Disponível em: SciELO Books <http://books.scielo.org>.

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