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VALOR DA PRESERVAÇÃO BRASILEIRA DA MEMÓRIA DO CÂNCER

O PATRIMÔNIO CULTURAL DIGITAL “HISTÓRIA DO CÂNCER”

 

LEPH - Revista Me Conta Essa História Jun. 2021 Ano II Nº 018 ISSN - 2675-3340 UFJ.

 

Por Lauren Soares Coelho

 

RESUMO


Segundo o Instituto Nacional de Câncer (2019), a conjunção de mais de 100 doenças com seu desenvolvimento desordenado entre células de forma comum, perpassando tecidos e órgãos destruindo de forma agressiva, rápida e incontrolável, esse é o câncer. Determinado por formação de tumores que podem vir a se espalhar pelas mais diversas regiões do corpo, suas duas principais definições são: os carcinomas, que são os tecido epiteliais como pele e mucosas invadidos pelas células cancerígenas, e os sarcomas que se definem através de tecidos conjuntivos como ossos, músculos e/ou cartilagens também igualmente invadidos. Uma vez que esta célula se faz presente no corpo humano sua multiplicação é extremamente rápida, contudo, pode variar entre os tipos de câncer, o nome deste processo de divisão e multiplicação é conhecido como metástase, que se caracteriza pela migração de insumos patológicos através das vias linfáticas, sendo estes provenientes de uma lesão inicial. Em primazia dissertarei neste ensaio sobre o câncer e seu contexto no Brasil, relacionando-o com políticas públicas e ações governamentais, a posteriori irei ressaltar a importância da construção patrimonial em relação a doença no país. E por fim, tratarei sobre o site pertencente ao INCA e a Fundação Oswaldo Cruz, “História do câncer” e sua relevância como museu digital.


SEU CONTEXTO NO BRASIL


No século XIX, poucas eram as medidas para tratar desta doença, a falta de conhecimento e polos científicos para a exploração e testes faziam com que o processo de cuidado se tornasse cada vez mais árduo, inicialmente o câncer possuía uma visão extremamente rudimentar, as terapêuticas para sua contenção visavam principalmente o equilíbrio dos organismos debilitados, pouco depois métodos mais agressivos foram implementados com medidas invasivas para a retirada de tumores, essa especialidade passou a ser uma determinação definitiva em casos relevantes a doença. Com a chegada da comitiva portuguesa ao Brasil, novos esforços foram implementados para a disseminação do conhecimento da medicina com o intento de desenvolver o conhecimento relacionado ao câncer, muitas pesquisas e tratamentos renderam a construção de conhecimentos que também se constituíam em países estrangeiros.

O acesso as terapêuticas era substancialmente limitado aos mais abastados, que tinham o privilégio de receber os melhores cuidados médicos para a época em suas próprias residências, em contrapartida, os menos favorecidos financeiramente eram obrigados a recorrer aos diversos hospitais da Santa Casa de Misericórdia, que ofereciam conforto médico e religioso, assim como cuidados paliativos para os doentes. Os estudos em relação ao câncer no Brasil eram voltados para o cunho filantrópico, ao longo dos anos os países exteriores desenvolveram diversas medidas para conter o avanço desta doença, alguns exemplos são os tratamentos radioativos como o raio x e a radioterapia, que contribuem até os dias atuais, além das atuações sanitaristas e preventivas, que foram desenvolvidas e consequentemente absorvidas pelos esforços em saúde no país, havia pouco ou nenhum investimento por parte do governo, que compreendia sua posição distanciada dos cuidados com a população brasileira.

Só a após a primeira Guerra Mundial que houveram os primordiais investimentos e mobilizações governamentais em relação a saúde no país, novos hospitais e institutos foram criados com intuito de oferecer tratamento gratuito e alargar o conhecimento científico em relação ao câncer, associações e grupos sociais se constituíram para fazer frente as medidas sanitaristas que preveniam a desenvoltura da doença. Em meados do século XX, pairava um otimismo constante sobre a medicina no mundo, com os avanços da utilização de antibióticos, possibilidade de controle das doenças transmissíveis, utilização de tecnologias nos meios hospitalares sugeria possíveis diagnósticos precoces e a descoberta da cura de doenças crônico-degenerativas. Entretanto, com o câncer esse otimismo era relativo, por um lado era possível comemorar os avanços nas cirurgias, que passaram a ser mais precisas e confiáveis além de técnicas efetivas, assim como a quimioterapia. Por outro lado, todos os avanços geraram instrumentos caros e complexos que dependiam de espaços técnicos especializados para a sua utilização, o que dificultou a difusão dos tratamentos para grandes hospitais, ademais, acreditavam que a modernização era um fator para o crescimento dos níveis da temida doença.

Após as Guerras o habito de fumar se tornou popular e as industrias de tabaco investiam fortemente em propagandas de seus produtos que eram vistos como saudáveis, porém, após 1950 iniciou-se pesquisas epidemiológicas que comprovaram que a utilização do cigarro ampliava o risco de câncer, pincipalmente o de pulmão. Nessa época o Brasil também vivia uma grande esperança na melhoria das condições de saúde, a criação e investimentos em ligas e hospitais direcionados ao câncer passou a ser comum.

A partir de 1995 as ações de desenvolvimento do Instituto Nacional de Câncer se ampliariam ainda mais com as propostas governamentais no âmbito da saúde no governo de Kubitschek, embora o câncer não se destacasse frente a doenças como a malária e outras endemias rurais, tornava-se um mal cada vez mais presente, principalmente no imaginário da população, nesse contexto, houve investimentos na prevenção de cânceres femininos como os de colo do útero e principalmente o de mama. A utilização de propagandas que incentivavam as mulheres a se tocarem para realizar o autoexame para a descoberta precoce do câncer de mama além das que divulgavam a importância do exame Papanicolaou foram ações preventivas e eficazes impostas na época.


Na contemporaneidade do Brasil, a Secretaria Nacional de Saúde promulgou diversas portarias, medidas e projetos que visavam regulamentar padronizar e constituir o cuidado em oncologia no país, foram construídas e consolidadas diversas organizações governamentais que iriam colocar em prática cada uma dessas promulgações. Projetos e ações sociais foram mobilizados a fim de minimizar os danos produzidos e até mesmo prevenir uma possível complicação na saúde brasileira. Os avanços desse período foram claros e produtivos, servindo como reflexo na atualidade das projeções, cientificidade e cuidado oncológico.


A IMPORTÂNCIA DA CONSTRUÇÃO PATRIMONIAL DO CÂNCER NO BRASIL


Candau (2010, p.43) apud Serres (2015, p.1412):

Recentemente o campo do patrimônio vem sendo ampliado e incorporado lentamente bens relacionados a saúde. Esse reconhecimento se deve, entre outros fatores, à ampliação da própria categoria de patrimônio. O fenômeno da patrimonialização apresenta-se como um tema muito discutido, e inúmeras argumentações tentam explicar a chamada “compulsão patrimonial” ou “mnemotropismo contemporâneo”, no qual importa tudo preservar por meio da patrimonialização, como uma espécie de salvamento.

Partindo desse pressuposto, compreende-se a necessidade da patrimonialização de âmbitos que dão ênfase ao câncer no Brasil, sendo hospitais, clinicas especializadas, institutos e/ou demais organizações que visam alguma produção relacionada a doença. Se valendo da afirmação de que atualmente há uma ampliação e incorporação de bens voltados para a saúde na perspectiva de patrimônios, não seria diferente com os bens relacionados ao câncer, pois esse importa igualmente como os demais patrimônios da saúde como espécie de salvamento. As memórias vinculadas aos períodos históricos de sua prevalência no país atravessam os mais diversos contextos e refletem numa atualidade nua de caracterizações oncológicas amplamente utilizadas, o que faz valer num lugar de merecimento e preservação, nessa dita compulsão patrimonial.

A ideia de sofrimento toca a perspectiva do ser doentio, que afetado em todas as camadas da constituição do ser, se observa em um declínio constante, a existência de uma doença como o câncer regendo a integridade de uma pessoa lhe propõe profundas marcas que se estendem aos demais, a construção histórica deste período fica marcada como um grande fator de revivência e é constantemente alvo de reflexões. “A memória das tragédias, [...] é feita igualmente de uma memória da afirmação, aquela de um grupo que se mantem ou se constrói na permanência de uma lembrança e reconhecimento de seus sofrimentos” (CANDAU, 2010, p.44). A construção da memória de sofrimento reflete algo que deve ser utilizado como exemplificação para períodos vindouros, todo erro, fracasso e falha pressupõe uma tentativa e é uma oportunidade de produção correta.

Segundo Candau (2010, p.45)

Uma memória de tragédias contribui assim, de maneira diferenciada mas sempre muito predominante, a construção do patrimônio de um grupo e, por consequência, de sua identidade, que pode ser uma identidade realmente sofredora ou um simples miseenscene, encenação do sofrimento.

A patrimonialização representa uma construção da cultura societária, dando enfoque a saúde temos uma possibilidade de preservação dos rudimentos relacionais do passado em relação a doença, que possibilitam o aumento da produção científica nas mais diversas passagens do tempo, seja em períodos pregressos ou contemporâneos (SERRES, 2015).


“HISTÓRIA DO CÂNCER” E SUA RELEVÂNCIA COMO MUSEU DIGITAL


As verbalizações contemporâneas no campo de comunicação sociológica se direcionam para as vivencias fatídicas da obsolescência planejada, ou seja, toda construção tende a ver seu fim. Nessa perspectiva, surgem com as maravilhas trazidas pela modernização e inovação, os museus digitais, oferecendo um novo viés sobre presente e o passado em suas expressões. A possibilidade de mobilização e entretenimento nos museus digitais facilitam a preservação das memórias e anseios, incentivando uma ampla reprodução de conhecimentos, identidades, ideologias e representações (SILVA, 2019). Analisando, através desta ótica, pude perceber a necessidade da existência de alguma produção no campo da patrimonialização relacionado ao câncer, e a oportunização dessa existência se mostrou diante do constructo digital “História do câncer”, neste âmbito há uma ampla reunião de informações, memórias, registros e cientificidades contribuintes para a preservação da doença tratada.

O projeto se articula ao esforço mais geral da Fiocruz de ampliar suas ações no campo das doenças crônico-degenerativas e negligenciadas. Além disso, visa contribuir para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), sobretudo ao produzir conteúdos pertinentes à formação de recursos humanos para a Rede de Atenção Oncológica e integrar-se a uma rede de produção de conhecimentos e tecnologias em parceria com o Instituto Nacional de Câncer. Por fim, deve ser visto como uma contribuição ao campo da história das ciências e da saúde, em particular ao campo da história das doenças (HISTÓRIA DO CÂNCER, 2011).

Com essa afirmação posso validar a importância da produção desse sítio digital, pois a reunião de informações que é apresentado se tornam de extrema validação para o reforço reflexivo sobre o câncer, valendo-se como referência em diversos aspectos técnicos, científicos e históricos. Sua prevalência é valida como forma de imortalizar os períodos temporais das multiplicidades vivenciais da doença no país, um ponto no tempo que emerge vestígios pregressos dos rudimentos da saúde em seu fazer ativo.


As diferentes formas de compra e venda se atualizaram, mobilização e deslocamento de objetos com representações digitais alçaram novas representatividades éticas de circulação. Práticas inovadoras que incluem colaboração, conhecimento e liberdade. A simplificação do processamento de informações gera possibilidades expressivas no âmbito artístico, ou seja, temos a capacidade ou a oportunidade do acesso remoto, indiferente do tempo e espaço (SILVA, 2019).


Assim, o site “História do câncer”, tem a universalidade da premissa de acesso global, transladando as perspectivas de tempo e espaço, demais condicionamentos e requisitos de acesso que antes poderiam representar dificuldades para a consagração da tomada de conhecimento se tornaram facilitadores dessa nova modalidade de museu digital.


CONCLUSÃO


O patrimônio está quase inteiramente ligado a grandes acontecimentos da história oficial e suas dimensões comemorativas, mas quando se analisa em âmbitos catastróficos e traumas ocorridos no país,’ pouco se debate sobre o tombamento dos mesmos. Dessa maneira, quando se patrimonializa um sítio que possuí anteriores envolvendo desastres é possível construir uma memória sensível, no qual se recorda da dor, miséria e vergonha, é de suma importância a sua preservação como serventia de alerta, para que os atos passados não retornem na atualidade (CASTRIOTA, 2019). Ao ter acesso a todas as produções históricas citadas relacionadas ao câncer, tive consciência da necessidade da preservação dessas memórias, portanto, concluo que a criação de uma memória sensível entorno da doença no Brasil se faz imprescindível. Assim, é possível compreender sua relevância na história do país e a evolução dos estudos e cientificidades na área, além de criar uma memória de afirmação e respeito com a mesma, compartilhando então, memórias que ascendem os sentimentos de empatia e compreensão por parte daqueles que vivenciam ou tiveram algum episódio relacionado a doença. Ainda me valho de um apontamento que são as perspectivas futuras de possíveis tombamentos patrimoniais relacionados diretamente ao câncer, pois esse tem uma relevância histórica rica no país, que merece reconhecimento e representatividade.

 

COMO CITAR ESSE ARTIGO


COELHO, Lauren Soares. Valor da Preservação Brasileira da Memória do Câncer: O Patrimônio Cultural Digital “História do Câncer”. In:. Revista Me Conta Essa História, a.II, n.18, jun, 2021. ISSN 2675-3340. Disponível em: . Acesso em:

 

REFERÊNCIAS


CASA DE OSWALDO CRUZ; INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. História do Câncer: Atores, Cenários e Políticas Públicas. Disponível em: http://historiadocancer.coc.fiocruz.br/index.php/pt-br/. Acesso em 17/11/2020.


CANDAU, J. Bases antropológicas e expressões mundanas da busca patrimonial: memória, tradição e identidade. RevistaMemória em Rede, v.1, n.1, p. 43-58, Dez-2009/ Mar-2010, 2010.


INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. O que é câncer?. Disponível em: https://www.inca.gov.br/o-que-e-cancer. Acesso em 19/11/2020.


SERRES, J. C. P. Preservação do patrimônio cultural da saúde no Brasil: uma questão emergente. História, Ciências, Saúde, v.22, n.4,p.1411-1426,Out-Dez, 2015.

SILVA, J. B. Museus, Memórias e Narrativas. MUSEOLOGIA & INTERDICIPLINARIDADE, v.8, n.15, Jan-Jul, 2019.


TEIXEIRA, L. A.; PORTO, M. A.; NORONHA, C. P. O Câncer no Brasil: passado e presente. 1ed. Rio de Janeiro: Outras Letras, 2012.


TV UFMG, Dossiê produzido na UFMG contribui para tombamento de Bento Rodrigues como sítio de memória sensível. Youtube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=82PqYHJAk-E. Acesso em: 24/11/2020.

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