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“É PRECISO TENSIONAR E CONSTRUIR NOVOS HORIZONTES POR ONDE OS NOSSOS CORPOS FAZEM PASSAGEM.”


 

004 - ENTREVISTA

 

LEPH - Revista Me Conta Essa História Fev. 2021 Ano II Nº 014 ISSN - 2675-3340 UFJ.

 

Por Cássio Santos Franco


[1] Discente do curso de História na Universidade Federal de Jataí - UFJ.

 

A entrevista a seguir tem como objetivo refletir e levantar questões acerca do processo de formação continuada, tendo em vista as experiências na graduação até o ingresso ao mestrado. Para isso, tive o privilégio de conversar com o professor e pesquisador Lucas Rodrigues do Carmo, 25 anos, graduado em História pela Universidade Federal de Goiás (2018), mestrando em História pela Universidade Federal de Goiás (PPGH-UFG) e membro do Coletivo Negro e Indígena de Jataí – AFRONTAÍ. Segundo ele, é importante ocupar espaços, mas sem esvaziar o sentido de representatividade e, nesse sentido, ressalta a importância do papel dos movimentos sociais.

 

Lucas Rodrigues do Carmo

 

Questão 1


Cássio: Levando em considerações suas memorias e vivências, durante a graduação, você enfrentou alguma situação em que te fez pensar desistir?


Lucas: Ocupar uma vaga na Universidade Federal sempre foi um sonho. Tive como inspiração a trajetória da minha irmã Jacqueline, enfermeira, também graduada e atualmente doutoranda pela UFG. As dificuldades sempre se apresentam para as famílias pobres e negras no Brasil, mas graças a um esforço coletivo, ancestral, tive a oportunidade de viver a graduação e seguir com o meu processo formativo. Sou grato pelas que vieram antes de mim e abriram os caminhos para que meu sonho se tornasse realidade.


Questão 2


Cássio: A experiência no ensino superior contemplou as suas expectativas?


Lucas: Me lembro de ainda adolescente, passar pelo Campus Riachuelo e me imaginar estudando ali, mesmo sem ter um curso definido. Quando chegou a minha vez, vivi intensamente tudo o que a UFG poderia me oferecer. Me apaixonei pelo Curso de História, participei de projetos de pesquisa, ações de ensino e extensão, mas participar do processo de construção do Coletivo Afrontaí, considero como um divisor de águas na minha pequena trajetória. Conseguir compreender e articular o combate às opressões, ao racismo estrutural, dentro e fora do espaço universitário, molda cotidianamente minha atuação.


Questão 3


Cássio: Qual era sua perspectiva de futuro após concluir o curso? O mestrado acadêmico sempre foi o seu principal objetivo?


Lucas: Por ter me envolvido com atividades de pesquisa desde o 3º período do curso, sempre projetei fazer mestrado e doutorado. Encaminhei minha formação para cumprir esse desejo. E está dando certo. Em breve concluo o mestrado. Aliada ao desejo de seguir carreira acadêmica, está a atuação na educação básica. Desde o último ano da graduação tenho atuado como professor. Sou feliz com as minhas escolhas. Quero atuar nos mais diversos campos, atuando como professor-pesquisador.


Questão 4


Cássio: E como foi o seu processo de preparação para ingressar no mestrado?


Lucas: Em relação ao processo seletivo do mestrado, em abril de 2018 comecei a minha preparação. Escolha do programa, leitura dos editais e suas especificidades, provas de suficiência em língua estrangeira, escrita do projeto de pesquisa, prova teórica... Por ter que conciliar escrita do TCC, estágio e as aulas na rede estadual, tive que me dedicar muito. Não foi fácil, mas no final deu tudo certo. Axé!


Questão 5


Cássio: Depois que você entrou, quais foram as suas principais impressões e considerações? Foi uma experiência muito distinta da graduação?


Lucas: Fiz minha graduação em Jataí e o PPGH/UFG é em Goiânia. Não me mudei, toda semana pegava a estrada com mais dois amigos, Leandro e João Marcos, também mestrandos, para fazermos as disciplinas. Foi cansativo, mas também deu certo! A carga de leitura sem dúvidas foi a principal mudança. No mestrado você se sente mais sozinho do que na graduação. A responsabilidade e o peso no desenvolvimento da pesquisa, a meu ver, foram maiores do que na graduação. O aprofundamento teórico necessário para a escrita da dissertação acontece de forma muito abrupta. Dois anos passam muito rápido. O cuidado com a saúde mental é fundamental para viver a pós-graduação. Apesar dos pesares, amo o que eu faço.


Questão 6


Cássio: Você acha que o mestrado é uma boa complementaridade na trajetória acadêmica?


Lucas: Com certeza. A formação é constante, continuada. Mas não é uma realidade para toda a área da educação. No meu caso, mesmo sem financiamento de pesquisa, tive que priorizar o mestrado por um tempo. Somente no segundo ano, com os créditos cumpridos, pude voltar a atuar na educação básica. As políticas de concessão de financiamento de pesquisa precisam ser inclusivas, engajadas. Não adianta os PPGs garantirem reserva de vagas no processo seletivo, sem pautar políticas de permanência.


Questão 7


Cássio: Ocupar espaços, muitas vezes, representa proporcionar visibilidade à grupos desprivilegiados socialmente. Você acredita que, ao ocupar esse lugar na academia, oportuniza viabilidade a outros jovens negros e LGBTQIA+?


Lucas: Sou um corpo no mundo; um corpo sem juízo, como cantam Luedji Luna e Jup do Bairro. Sou preto, sou LGBT. Ocupar espaços é fundamental, mas sem esvaziar o significado de representatividade. É preciso tensionar e construir novos horizontes por onde os nossos corpos fazem passagem. O epistemicídio é real. A produção de invisibilidades também. O campo da História tem avançado muito nas últimas décadas, graças à atuação dos movimentos sociais, que tensionam as escritas das histórias. Fecho com Nilma Lino Gomes, a atuação dos movimentos sociais proporciona práticas educadoras.


Questão 8


Cássio: Nesse sentido, para finalizar a entrevista, quais são as suas expectativas e planos após concluir o mestrado?


Lucas: Estou em processo de mudança para Uberlândia - MG. Fui efetivado na rede municipal. Quero defender a dissertação e viver o chão da escola, construir uma maior experiência na educação básica, e claro, a experiência de mudar de cidade, morar sozinho. Penso no doutorado, mas uma coisa de cada vez. Quero “viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar e cantar, a beleza de ser um eterno aprendiz”.


Por fim, Fora Bolsonaro!!!


 

COMO CITAR ESSA ENTREVISTA


FRANCO, Cássio Santos. ENTREVISTA: “É Preciso Tensionar e Construir Novos Horizontes Por Onde os Nossos Corpos Fazem Passagem.”. In:. Revista Me Conta Essa História, a.II, n.14, fev. 2021. ISSN 2675-3340. Disponível em: https://www.mecontaessahistoria.com.br/post/%C3%A9-preciso-tensionar-e-construir-novos-horizontes-por-onde-os-nossos-corpos-fazem-passagem. Acesso em:

 

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