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ENSAIO SOBRE A HISTÓRIA ORAL


 

LEPH - Revista Me Conta Essa História Mar. 2021 Ano II Nº 015 ISSN - 2675-3340 UFJ.

 

Por Antoniel dos Santos Gomes Filho [1]


[1] Mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará na Linha de História e Educação Comparada. Professor do Departamento de Psicologia do Centro Universitário Vale do Salgado. Discente de Psicologia na Uninassau e de Sociologia na UNIFAVENI. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/9563145614494252 E-mail: antoniel.historiacomparada@gmail.com / antonielsantos@univs.edu.br

 

RESUMO


O presente ensaio tem como objetivo apresentar os contextos históricos da entrada e desenvolvimento da História Oral no Brasil e discutir os conceitos básicos que estão inseridos nesse método de investigação. Para tal, optou-se por delinear os modos de circulação das ideias sobre História Oral nos espaços universitários e associações de pesquisa. Bem como desenvolver os conceitos de história e memória como suportes teóricos basilares da metodologia em História Oral, a partir dos escritos de Maurice Halbwachse Joël Candau.


PALAVRAS-CHAVE: História Oral. Memória. Pesquisa Historiográfica.

 

ABSTRACT


This essay aims to present the historical contexts of the entry and development of Oral History in Brazil and to discuss the basic concepts that are inserted in this research method. To this end, it was decided to out line the ways of circulation of ideas about Oral History in university spaces and research associations. As well as developing the concepts of history and memory as basic theoretical supports of the methodology in Oral History from the writings of Maurice Halbwachsand Joël Candau.



KEYWORDS: Oral History. Memory. Historiographical Research.

 

I - A Circulação das Ideias no Brasil


A história oral foi introduzida no Brasil a partir da década de 1970, momento em que pesquisadoras/es brasileiras/os regressavam de seus estudos nos centros universitários norte- americanos e europeus, principalmente franceses. Entre as pesquisadoras estava a Professora Aspásia Camargo que, juntamente com Celina Vargas, organizou o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil na Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV)2, iniciando suas atividades no ano de 1973, sendo, no ano de 1975, criado no CPDOC o Programa de História Oral, que, até os dias atuais, vem colhendo depoimentos de brasileiros/as que atuaram no cenário social(FERREIRA, 1998, 2007; D´ARAUJO, 1999; JUCÁ, 2011; CPDOC, 2017, 2017a).


Destarte, o ingresso da história oral no Brasil está relacionado a movimentos internacionais dentro do campo da História, que se abre a novos modos de pensar o fazer histórico, como bem apontam Gisafran Jucá e Ariane Araújo:

O reconhecimento da História Oral ocorreu nos anos sessenta, associado aos movimentos reivindicatórios que teriam continuidade na década seguinte. As primeiras experiências ocorreram nos Estados unidos, em 1948, com as entrevistas realizadas com lideranças políticas, a princípio, e posteriormente envolvendo outros agentes selecionados no meio social. A História Oral tinha como meta democratizar a história, dando espaço aos menos favorecidos, pois o povo deveria surgir como agentes das mudanças registradas. Nos Estados Unidos, a Escola de Chicago, dedicou-se aos denominados “excluídos da história”, como os ladrões e as prostitutas, numa demonstração de uma nova modalidade de explorar os temas em destaque (JUCÁ; ARAÚJO, 2015, p. 120-121).

Marieta Moraes Ferreira (1998) indica que o movimento da história oral não foi apenas universitário, mas também foi influenciado fortemente pelos movimentos sociais dos países nos quais a história oral emergia. No entanto, a autora aponta que o desenvolvimento da história oral se deu de modo tardio, lento e descontinuo na América Latina, inclusive no Brasil.


Aspásia Camargo aponta que os historiadores internacionais do período se dividiam de dois modos: de um lado, historiadores mais tradicionais; do outro, historiadores mais ligados à história social, enleados a Escola dos Annales3, além do momento histórico que vivia o pais em meio a ditadura militar (1964-1985). Nesta divisão, o fazer história encontrava-se num embate, enquanto historiadores tradicionais ancoravam-se numa história mais factual, os historiadores sociais não se interessavam pela história política, voltando-se para a história do social e suas múltiplas possibilidades de novos temas (D´ARAUJO, 1999).


Nestes novos modos do fazer historiográfico, onde novos temas e novos atores sociais emergiam como agentes ativos e formadores da história, houve um interesse em capturar as experiências dos “excluídos da história” em níveis internacionais. O grande exemplo, foi o patrocínio para pesquisas no México e no Brasil, tendo como metodologia a história oral, financiadas pela Fundação Ford via CPDOC, no intuito “[...] de difundir o uso da metodologia de maneira a implementar programas de história oral em diferentes universidades e centros de pesquisa por todo o pais, privilegiando a investigação de temas de interesse local.”(FERREIRA, 1998, p. 20; D´ARAUJO,1999; JUCÁ, 2001; 2011). Sobre esses fundos internacionais, para fomento a investigações com base na metodologia da história oral, escreve Gisafran Jucá:

A proposta da referida Fundação destinava-se ao México e ao Brasil. O projeto oriundo da Ford teve como responsável pela História Oral no México Eugenia Meyer e, no Brasil, Aspásia Camargo, com o apoio de Celina Vargas no CPDOC. Desse modo, a criação do Archivo de la Palabra, no México, e do Programa de História Oral do CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas, concretizaram a proposta oriunda do Oral History Program, da Universidade de Columbia (JUCÁ, 2011, p. 53).

Mesmo diante de significativo fomento na década de 1970, a história oral enquanto metodologia de pesquisa, ganhou adeptos ao longo dos anos, consolidando-se mais enfaticamente nos centros universitários durante os anos 90. Esse entremeio, entre entrada e adesão consistente da metodologia, foi marcado por desconfiança e medo de fala por parte de indivíduos participantes das pesquisas, uma vez que os resquícios da ditatura militar ainda pairavam sobre a sociedade na década de 1980 mesmo diante de uma abertura política (FERREIRA, 1998), tal como indica José Carlos Sebe Bom Meihy (2006, p. 192): “A história oral brasileira, como a do resto da América Latina, esteve sujeita à circunstância da abertura política nacional. Esta marca, aliás, garante o caráter democrático que marca a história oral”.


Na década de 1990, a história oral ganha maior fôlego, expandindo-se e adentrando maisveemente nos centros de pesquisa e universitários a partir do ano de 1994, ano de criação da Associação Brasileira de História Oral (ABHO), sendo, no ano seguinte, realizado o I Encontro Regional de História Oral/Sudeste-Sul, além de ter importante participação na fundação da International Oral History Association (IOHA) no ano de 1996 (JUCÁ, 2001, 2011, 2013; PEREIRA NETO;MACHADO; MONTENEGRO, 2007; CASTRO GOMES, 2014; FERREIRA, 1998, 2007).


Na década de 1990, a história oral ganha maior fôlego, expandindo-se e adentrando mais veemente nos centros de pesquisa e universitários a partir do ano de 1994, ano de criação da Associação Brasileira de História Oral (ABHO), sendo, no ano seguinte, realizado o I Encontro Regional de História Oral/Sudeste-Sul, além de ter importante participação na fundação da ória”(FERREIRA, 1998).


Com a ampliação dos seminários específicos em história oral, juntamente com os mais diversos eventos científicos que buscam tratar sobre o tema, em especial os encontros organizados pela ABHO em todo o pais, pode-se perceber, contemporaneamente, o crescimento e adesão da metodologia não só por historiadores, mas também por outros/as pesquisadores/as de outros campos do conhecimento. Tal constatação pode ser visualizada no estudo intitulado: História Oral no Brasil: uma análise da produção recente (1998/2008), produzido por André de Faria Pereira Neto, Bárbara Araújo Machado e Antônio Torres Montenegro (2007).


Apontam os autores ao estudar a produção acadêmica em história oral, tendo como fontes analíticas: (01) os artigos publicados na revista da Associação Brasileira de História Oral, e (02) os cadernos de resumos das comunicações apresentadas nos encontros nacionais da ABHO, que o perfil dos autores, no que tange à formação, além de ser composta por historiadores, também inclui cientistas sociais, educadores, arquivistas, entre outras áreas do conhecimento. A escolha da história oral, como metodologia, está correlacionada a esse movimento de alargamento da história oral por outras áreas do conhecimento. “[...] É bom lembrar que a opção temática não constitui exclusividade dos profissionais da história.” (JUCÁ; ARAÚJO, 2015, p. 121-122), porém, é necessário que se pense nos conceitos básicos da História Oral, para se desenvolver uma investigação com base nessa metodologia. Assim, apresentados os contextos históricos da entrada e desenvolvimento da História Oral no Brasil, busca-se apresentar e discutir os conceitos básicos que estão inseridos nesse método de investigação.


II - Conceitos Basilares da História Oral


Para apresentar conceitos basilares, que fundamentam a metodologia da história oral, é necessário compreender que a expansão da história oral esteve diante de uma série de embates dentro dos domínios da história. Como apontam os escritos de Marieta de Moraes Ferreira e Janaína Amado (2006) sobreo status da história oral, a mesma está delineada em três vertentes, a saber:(01) técnica, (02) disciplina e (03) metodologia.


Segundo as autoras, aos defensores da história oral como técnica “[...] interessam as experiências com gravações, transcrições e conservação de entrevistas, e o aparato que as cerca: tipos de aparelhagem de som, formas de transcrição de fitas, modelos de organização e acervo, etc.” (Idem, p. XII). Os que dão um status de disciplina partilham a ideia de que “[...] a história oral inaugurou técnicas específicas de pesquisa, procedimentos metodológicos singulares e um conjunto próprio de conceitos [...]” (Idem. p. XIII) deste modo, criou-se todo um rol de conhecimentos que possibilitam a história oral ser organizada como uma disciplina. Mas, como apontam as autoras, os defensores desse olhar têm dificuldades em postular conceitos, características e direções próprias que integrariam a história oral como uma disciplina. Os defensores da história oral como metodologia, por sua vez, não negam as ideias oriundas do olhar sobre a técnica e sobre a disciplina, mas a história oral,

[...] como todas as metodologias, apenas estabelecem e ordena procedimentos de trabalho - tais como os diversos tipos de entrevistas e as implicações de cada um deles para a pesquisa, as várias possibilidades de transcrição de depoimentos, suas vantagens e desvantagens, as diferentes maneiras de o historiador [e demais especialistas] relacionar-se com seus entrevistados e as influências disso sobre seu trabalho -, funcionando como ponte entre teoria e prática. Esse é o terreno da história oral - o que, a nosso ver, não permite classificá-la unicamente como prática. Mas, na área teórica, a história oral é capaz apenas de suscitar, jamais de solucionar, questões; formula as perguntas, porém não pode oferecer as respostas (FERREIRA; AMADO, 2006, p. XVI).

A história oral, como metodologia de investigação, não tem pretensões de apresentar respostas às perguntas por ela realizadas e obtidas através das diversas técnicas de obtenção dos depoimentos. Desse modo, a história oral não oferece um rol epistemológico (que caracteriza uma disciplinas) que proporcionaria ao investigador ferramentas analíticas hermeticamente delineada disciplinarmente, porém o suporte teórico não se furta da perspectiva dos processos metodológicos utilizados.


Como diz Gisafran Jucá (2011, p. 31, 2001), a história oral constitui uma metodologia, que, por sua vez, “[...] necessita de um apoio teórico, a fim de que não seja classificada como uma simples técnica a ser empregada de acordo com as conveniências”, pois, se empregada sem apoio teórico, às investigações que pretendem utilizar a história oral como método tornar-se-ão simples estudos descritivos de entrevistas, sem uma análise reflexiva das fontes produzidas no campo.


Diante das questões apresentadas, pode-se indagar: e de onde vem o apoio/suporte teórico para a metodologia da história oral?


Compartilhando da premissa que a história oral não oferece um rol epistemológico que possibilita aos investigadores analisar os conteúdos obtidos em campo, alia-se a ideia de que a história oral realiza um movimento de abertura para outras disciplinas (outras epistemologias), sendo estas especialidades da própria história(em especial a história cultural)ou outros campos do conhecimento, como, por exemplo, a educação, a antropologia, a psicologia, e a sociologia (principalmente a partir das reflexões de Maurice Halbwachs).


Sobre esse movimento de abertura da história oral, Gisafran Jucá e Ariane Araújo, apontam que esta não é apenas de cunho interdisciplinar, mas sim de ordem transdisciplinar. Nas palavras dos pesquisadores:

A superação das barreiras impostas pela tradição acadêmica é demonstrada não apenas pela chamada interdisciplinaridade, ou seja, a busca de complemento da história nas demais Ciências Sociais, mas o conceito mais plausível, como fundamento explicativo, é o de transdiciplinaridade (cf. DOSSE, 2002, p. 403- 414)4, que deixa clara a necessidade de ruptura com as antigas barreiras antepostas entre os campos a serem explorados pelas Ciências Humanas (JUCÁ; ARAÚJO, 2015, p.122).

Nesse processo transdisciplinar de abertura teórica, percebe-se uma concordância entre os teóricos/as (JUCÁ, 2001, 2011, 2013; JUCÁ; ARAÚJO,2015; PRINS, 1992; FERREIRA, 1998;

FERREIRA; AMADO, 2006; THOMSON; FRISCH;HAMILTON, 2006; ROUSSO,2006; CRUIKSHANK, 2006) no que diz respeito às relações: história e memória; tendo como marco os escritos de Maurice Halbwachs5, contidos na obra: A memória coletiva, bem como os trabalhos desenvolvidos no campo da História Cultural. Assim, diante desses dois grandes aportes, pode-se apontar conceitos básicos da história oral, nos quais muitos estudos vem apoiando-se nas últimas décadas no pais.

Num primeiro momento, pode-se pensar que a História Cultural exclui a história política, visto que está atrelada aos modos tradicionais historiográficos. Como aponta Sandra Jatahy Pesavento (2005, p. 75), a História Cultural traz “[...] novos aportes ao político, colocando questões renovadoras e sugerindo novos objetos”. Nesse sentido, novas representações e capturas das experiências e sensibilidades individuais e sociais, também no âmbito da política, entram em cena, tendo como aporte às questões da subjetividade.

As sensibilidades corresponderiam a este núcleo primário de percepções e tradução da experiência humana no mundo. O conhecimento sensível opera como uma forma de apreensão do mundo que brota não do racional ou das elucubrações mentais elaboradas, mas dos sentidos, que vêm do íntimo de cada indivíduo. Às sensibilidades compete essa espécie de assalto ao mundo cognitivo, pois lidam com as sensações, com o emocional, com a subjetividade (PESAVENTO, 2005, p. 56).

Esse movimento de apreensão das sensibilidades modifica os modos de pensar a história tradicional, pautada na apresentação das grandes narrativas e representações com base nos documentos oficiais, que deixavam de lado a tradição oral, justamente por conta dos aspectos subjetivos que os depoimentos orais sobre determinado fato poderiam apresentar (BURKE, 1992).

Por isso, quando os trabalhos de história cultural utilizam-se das mais diversas metodologias, inclusive a história oral, para pensar as subjetividades, que estão imbuídas de memória, os/as pesquisadores/as, sejam historiadores/as ou outros especialistas repensam “[...] não só as possibilidades de acesso ao passado, na reconfiguração de uma temporalidade, como colocam em evidência a escrita da história e a leitura dos textos” (PESAVENTO, 2005, p. 59, grifo da autora) para além de fatos/eventos e atores elegidos como oficiais no curso histórico, inserindo assim, os “excluídos da história”.


A memória, constituída dos processos de subjetivação e identidade, fornece aos investigadores, que se utilizam da metodologia da história oral, um rol de dados que podem ser utilizados para analisar os processos sociais. Assim, história e memória constitui outra inter-relação no que estamos pensando como conceitos básicos da história oral.


Joël Candau (2014) aponta que a memória e a identidade estão “indissoluvelmente ligadas”. Gisafran Jucá (2014) indica que as histórias de vida de um indivíduo estão correlacionados às memórias, tanto individuais quanto às coletivas/sociais. Desse modo, a memória dos indivíduos é constituinte tanto de sua subjetividade e identidade, como é constituinte da história, já que “[...] nenhuma memória individual existe sem a relação social, da mesma forma que a memória coletiva nada significa sem a presença do individual” (JUCÁ, 2014, p. 33).


Os estudos sobre a memória individual e coletiva tiveram como expoente inicial os estudos de Maurice Halbwachs (1877-1945), quando na obra: A memória coletiva, o autor apresenta conceitos que até os dias atuais são utilizados nos estudos sobre história e memória.

Segundo Maurice Halbwachs, o indivíduo seria capaz “[...] em alguns momentos, de se comportar simplesmente como membro de um grupo que contribui para evocar e manter as lembranças impessoais, na medida em que estas interessam ao grupo” (HALBWACHS, 1990, p. 36).


Nesse sentido, o indivíduo faz um movimento entre suas memórias individuais e as memórias coletivas. Por outro lado, a memória coletiva, “[...] envolve as memórias individuais, mas não se confunde com elas. Ela evolui segundo suas leis, e se algumas lembranças individuais penetram, algumas vezes nela, mudam de figura assim que sejam recolocadas num conjunto que não é mais uma consciência pessoal” (p. 36). Mesmo apresentando essa inter-relação, percebe-se nos estudos de Maurice Halbwachs que há diferenças entre as memórias, pois a memória coletiva “evolui segundo suas leis”, e, nessa evolução, afasta-se do que, no período de produção intelectual de Halbwachs era considerado como história.


Destarte, é necessário apresentar tais conceitos de modo mais detalhado nas palavras do autor.

A memória individual,

[...] não está inteiramente isolada e fechada. Um homem, para evocar seu próprio passado, tem frequentemente necessidade de fazer apelo às lembranças dos outros. Ele se reporta a pontos de referência que existem fora dele, e que são fixados pela sociedade. Mais ainda, o funcionamento da memória individual não é possível sem esses instrumentos que são as palavras e as ideias, que o indivíduo não inventou e que emprestou de seu meio. Não é menos verdade que não nos lembramos senão do que vimos, fizemos, sentimos, pensamos num momento do tempo, isto é, que nossa memória não se confunde com a dos outros. Ela é limitada muito estreitamente no espaço e no tempo (HALBWACHS, 1990, p. 36).

A memória coletiva por sua vez, é uma corrente de pensamento contínuo, de uma continuidade que nada tem de artificial, já que retém do passado somente, aquilo que ainda está vivo ou capaz de viver na consciência do grupo que a mantém. Por definição, ela não ultrapassa os limites deste grupo.


Segundo Maurice Halbwachs, a história se diferencia da memória, pois:

A história, sem dúvida, é a compilação dos fatos que ocuparam o maior espaço na memória dos homens. Mas lidos em livros, ensinados e aprendidos nas escolas, os acontecimentos passados são escolhidos, aproximados e classificados conforme as necessidades ou regras que; não se impunham aos círculos de homens que deles guardaram por muito tempo a lembrança viva. É porque geralmente a história começa somente no ponto onde acaba a tradição, momento em que se apaga ou se decompõe a memória social. Enquanto uma lembrança subsiste, é inútil fixá-la por escrito, nem mesmo fixá-la, pura e simplesmente. Assim, a necessidade de escrever a história de um período, de uma sociedade, e mesmo de uma pessoa desperta somente quando eles já estão muito distantes no passado, para que se tivesse a oportunidade de encontrar por muito tempo ainda em tomo de si muitas testemunhas que dela conservem alguma lembrança (HALBWACHS, 1990, p. 55).

Os conceitos de história e memória não se entrelaçam em Maurice Halbwachs, pois, a história estaria atrelada ao registro escrito. Enquanto a memória se decompõe no grupo, a história se estende no registro. Observa-se que o conceito de memória coletiva apresenta limitações, pois ela “não ultrapassa os limites deste grupo”. Em vista disso, não se estenderia historicamente. Em contraposição, a memória individual numa relação subjetivo-objetivo, refere-se apenas ao que se viu, sentiu, pensou, etc., logo, processos subjetivos. Todavia, tudo que se experimentou está posto pelo social, sendo a captura desses processos sociais isolada em cada indivíduo, assim, um mesmo evento é percebido diferente pelos indivíduos, porém, o indivíduo continua refém do coletivo, uma vez que, vai nessa memória coletiva buscar elementos socialmente compartilhados para assim elaboraras suas memórias individuais.


Resguardadas as conjunturas de tempo e espaço dos escritos de Maurice Halbwachs, vê-se que seus conceitos ainda se perpetuam nos estudos, porém “[...] considerando o avanço teórico e metodológico da história, as diferenças permanecem, mas a teia que as envolve se apresenta de uma forma mais reveladora do contínuo entrecruzamento entre ambas.” (JUCÁ, 2014, p. 33). Dito isto, e agregando o pensamento de Stuart Hall (2006), quando indica que na contemporaneidade o indivíduo comunga de diferentes identidades, juntamente com o posicionamento crítico de Joël Candau (2014, p. 11), quando interroga “[...]sobre a pertinência de noções e conceitos que utilizamos para designar formas coletivas de memória e identidade.”, pode-se afirmar que pontos do trabalho de Maurice Halbwachs não subsidiam um suporte para o desenvolvimento de análises sobre a memória na atualidade, em especial, as limitações no que tange à formação grupal, bem como os novos olhares sobre a memória individual.


Joël Candau(2014) indica que a memória é uma reconstrução atualiza da do passado, assim, o indivíduo, ao ter uma memória, não reconstrói fielmente o fato/evento experiência, a recuperação integral de uma memória parece ser algo “insustentável”. Joël Candau, apresenta uma taxonomia antropológica da memória em três níveis: (01) a protomemória - que está relacionada às memórias da experiência incorporada pelo habitus cotidiano. Não invoca do sujeito questionamentos e está no campo do senso prático. (02) A memória - tal como conhecemos, correlacionada a recordações e/ou reconhecimento. Ocorrea“ [...] evocação deliberada ou invocação involuntária de lembranças auto biográficas ou pertencentes a uma memória enciclopédica (saberes, crenças, sensações, sentimentos etc.)”. Pode ou não utilizar extensões dos fenômenos mais gerais, sendo que faz parte da memória o esquecimento; e,(03) A metamemória constitui-se de uma memória reivindicada, pois, de um lado, se constitui como “[...] representação que cada indivíduo faz de sua própria memória, o conhecimento que tem dela e, de outro, o que diz dela [...]”, remetendo assim às formas de filiação do indivíduo com o passado. Tem-se na metamemória um processo de âmbito individual de representação e afiliação. Por isso quando,

... andamos de bicicleta sem cair ou saudamos uma pessoa que encontramos na rua adotando uma gestualidade incorporada, na qual não nos damos conta: devemos isso à protomemória. Em nossa vida cotidiana, mobilizamos regularmente múltiplas lembranças, recentes ou antigas [...]. Enfim, cada um de nós tem uma ideia de sua própria memória e é capaz de discorrer sobre ela para destacar suas particularidades, seu interesse, sua profundidade ou suas lacunas: aqui se trata então da metamemória (CANDAU, 2014, p. 23-24).

Joël Candau apresenta que a taxonomia da protomemória é válida apenas para as memórias individuais, informando que quando se passa para o nível grupal, a utilização desse termo torna-se inaplicável. Porém, quando se pensa no nível grupal, pode-se pensar na evocação de uma memória ou de uma metamemória. Para o autor, “[...] a expressão “memória coletiva” é uma representação, uma forma de metamemória, quer dizer, um enunciado que membros de um grupo vão produzir a respeito de uma memória supostamente comum a todos os membros desse grupo.” (CANDAU,2014, p. 24). Vale ressaltar que a metamemória da “memória coletiva” se diferencia da memória individual, enquanto a coletiva parte do campo do compartilhamento descritivo de lembranças sociais, a segunda instaura-se no campo da faculdade cognitiva.


Joël Candau (2014) realiza uma crítica ao que ele denomina de Retóricas Holistas, ou seja, as proposições que, de algum modo, tendem a generalizar determinadas realidades. Assim, quando se pensa na expressão “memória coletiva”, de certa forma, faz-se uma generalização, que pode não corresponder a uma realidade coletiva, mas sim de alguns muitos ou poucos membros desse coletivo. A Retórica Holista, para Joël Candau (2014, p. 29), é, “[...] o emprego de termos, expressões, figuras que visam designar conjuntos supostamente estáveis, duráveis e homogêneos, conjuntos que são conceituados como outra coisa que a simples soma das partes e tidos como agregados de elementos considerados, por sua natureza e convenção, como isomorfos.”


Joël Candau, ao conceituar a Retórica Holista, apresenta o problema das limitações e homogeneização da generalização, que podem ser visualizados quando se pensa na memória coletiva. Assim, se em Maurice Halbwachs a memória coletiva de um grupo se apresenta de modo contínuo entre todos os membros, em Joël Candau, a memória não torna-se tão contínua e abrangente a todos os membros do grupo. Por isso, “[...]” toda tentativa de descrever a memória, comum a todos os membros de um grupo, a partir de suas lembranças, em um dado momento de suas vidas, é reducionista, pois ela deixa na sombra aquilo que não é compartilhado” (CANDAU, 2014, p. 34).


Os processos de generalização e/ou holismos, como denomina o autor, deixam a sombra outros fatos/eventos culturais, ou instauram a falta de margem para pensar se um determinado fato/evento chega a atingir a todos os membros do coletivo e/ou social6, já que impõe um status coletivo a determinada memória, que, na maioria das vezes, é compartilhada por uma maioria social, e, algumas vezes, regulada pelo Estado, por isso:

Mesmo que as lembranças se nutram de uma mesma fonte, a singularidade de cada cérebro humano faz com que eles não sigam necessariamente o mesmo caminho. Os atos de memória decididos coletivamente podem delimitar uma área de circulação de lembranças, sem que por isso seja determinada a via que cada um vai seguir. Algumas vias são objeto de uma adesão majoritária, mas memórias dissidentes preferirão caminhos transversais ou seguirão outros mal traçados. Assim, o compartilhamento de memorial será fraco ou quase inexistente (ID, p. 35).

Diante da apresentação dos escritos de Joël Candau, instaura-se um movimento no que tange aos usos das terminologias memória individual e memória coletiva, bem como ressalvas no que tange às análises destas nas investigações que se utilizam das memórias. O autor, através de sua crítica, aos holismos e/ou generalizações alerta os/as investigadores/as no trato analítico, pois deve-se ter cuidado em não expandir determinadas memórias de participantes de um grupo, que, na grande maioria das vezes, constitui a maioria deste, como algo experiencia do pelo todo. Porém, mesmo com as questões postas por Joël Candau, deve se ter a dialogicidade entre a produção de memórias e os fatos/eventos sociais, pois, a partir do momento em que se considera a memória individual, como uma fonte de investigação, instauram-se sobre essa fonte infinitas possibilidades analíticas e conectivas produtoras de leitura social.


À guisa de considerações finais, o presente ensaio: (01) apresentou a circulação das ideias e os status nos quais se pensa a História Oral nas últimas décadas, com ênfase no status de metodologia de investigação, juntamente com o aporte teórico que subsidia as análises dos dados obtidos através desta metodologia. (02) Apontou as contribuições da história cultural. Especialidade histórica que possibilitou a abertura de olhares para além de uma história tradicional. (03) Apresentou as relações história e memória. Relação que é considerada fundamental para o desenvolvimento de investigações que utilizam a História Oral. E, (04) Discutiu os conceitos de memória individual e memória coletiva, a partir da obra: A memória coletiva, de Maurice Halbwachs (1877-1945), e dos escritos de Joël Candau, em especial suas críticas às retóricas holistas.

 
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COMO CITAR ESSE ARTIGO


FILHO, Antoniel dos Santos Gomes. Ensaio sobre a História Oral. In:. Revista Me Conta Essa História, a.II, n.15, mar. 2021. ISSN 2675-3340. Disponível em: https://www.mecontaessahistoria.com.br/post/ensaio-sobre-a-hist%C3%B3ria-oral . Acesso em:

 

REFERÊNCIAS


BOM MEIHY, J. C. S. OS NOVOS RUMOS DA HISTÓRIA ORAL: O CASO BRASILEIRO. In: Revista de História. n. 155, p. 191-203, 2006. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/19041 BURKE, P. Abertura: a nova história, seu passado e seu futuro. In: BURKE, P. (Org.). A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Editorada Universidade Estadual Paulista, 1992. CANDAU, J. Memória e Identidade. São Paulo: Editora Contexto, 2014.


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[2] Para maiores informações ver: http://cpdoc.fgv.br/


[3] Para aprofundamento ver: BARROS, José Costa D’ Assunção. A ESCOLA DOS ANNALES: considerações sobre a História do Movimento. Revista História em Reflexão, Vol. 4 n. 8, 2010.


[4] DOSSE, F. O império do sentido: a humanização das Ciências Humanas. Bauru, SP: EDUSC, 2003.


[5] Para informações biográficas consultar: http://agso.uni-graz.at/lexikon/klassiker/halbwachs/22bio.htm

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