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HISTÓRIA LOCAL E EDUCAÇÃO INTERCULTURAL:POSSIBILIDADES A PARTIR DA EXPOSIÇÃO “TERREIROS DE FÉ”[1]


 

LEPH - Revista Me Conta Essa História Mar. 2021 Ano II Nº 015 ISSN - 2675-3340 UFJ.

 

Por Juscilaine Lopes Magalhães[2] & Clarissa Adjuto Ulhoa[3]


[2] Estudante, Unidade de Ciências Humanas e Letras.

[3] Orientadora, Unidade de Ciências Humanas e Letras.

 

RESUMO


Entre os meses de maio e setembro de 2017 aconteceu a exposição “Terreiros de Fé” no Museu Histórico(MH) Francisco Honório de Campos, ocasião em que o Instituto Brasileiro de Museu promovia a 15ª Semana Nacional de Museus, com o tema “Museus e histórias controversas: dizer o indizível em museus”. A exposição apresentou um panorama da história dos candomblés no Brasil, com especial atenção aos terreiros situados na cidade de Jataí, assim como se centrou em aspectos tais como a cultura material, os ritos, os mitos e as divindades de terreiro. Muito embora o MH tenha realizado outras exposições dedicadas à história e à cultura afro-brasileira antes, “Terreiros de Fé” foi a primeira a se voltar inteiramente para os candomblés, o que significou um importante passo no sentido de romper com a invisibilidade das religiões afro-brasileiras em Jataí, inclusive na produção historiográfica. E, ao ser visitada por professores e alunos das escolas de ensino básico da cidade, a exposição se apresentou como uma possibilidade para a implementação da Lei 10639/2003, que determina o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana. Diante disso, a pesquisa se propôs a analisar a curadoria e o conteúdo da exposição, para, assim, procurar responder às seguintes perguntas: de que maneira exposição e seus materiais podem contribuir para a produção de conhecimento sobre a história local? Quais os subsídios que a exposição oferece para uma educação intercultural? Foi possível observar que, além da exposição em si, a equipe responsável por sua realização produziu documentos orais. Foram entrevistados quatro sacerdotes do candomblé jataiense, que nessas entrevistas contam um pouco de suas trajetórias religiosas. Essas entrevistas se encontram arquivadas no MH e revelam, por exemplo, que começaram seus terreiros em Jataí a partir dos anos 2000, se tornando parte da cultura e da história da cidade. Além disso, é possível considerar que a exposição abre possibilidades para uma educação intercultural, a exemplo do que acontece no evento de abertura, pois os sacerdotes dialogaram com a comunidade jataiense sobre os saberes que são próprios das religiões afro-brasileiras. Como produto final, foi elaborada uma proposta didática a partir das imagens e da matéria dedicada à exposição “Terreiros de Fé” no site da Prefeitura de Jataí.

 

APRESENTAÇÃO


Entre os meses de maio e setembro de 2017 aconteceu a exposição “Terreiros de Fé” no Museu Histórico (MH) Francisco Honório de Campos, ocasião em que o Instituto Brasileiro de Museu promovia a 15ª Semana Nacional de Museus, com o tema “Museus e histórias controversas: dizer o indizível em museus”. A exposição apresentou um panorama da história dos candomblés no Brasil, com especial atenção aos terreiros situados na cidade de Jataí, assim como se centrou em aspectos tais como a cultura material, os ritos, os mitos e as divindades de terreiro. Muito embora o MH tenha realizado outras exposições dedicadas à história e à cultura afro-brasileira antes, “Terreiros de Fé” foi a primeira a se voltar inteiramente para os candomblés.

O candomblé é uma religião afro-brasileira que surgiu no Brasil no início do século XVI, na Bahia, a partir da diáspora negra resultante da escravização por parte dos portugueses, que trouxeram pessoas de diversas regiões da África e consequentemente diversas novas culturas e religiões. Sendo assim, segundo Vagner Gonçalves da Silva (2005),“a necessidade dos grupos negros de restabelecerem sua identidade social e religiosa sob as condições adversas da escravidão e posteriormente do desamparo social, tendo como referência as matrizes religiosas de origem africana fomentou o desenvolvimento do candomblé no Brasil” (p.15).

A partir de estudos feitos acerca do tema, é possível observar que os candomblés estão presentes em Jataí desde pelo menos o ano de 2000, bastante recente tendo em vista sua formação no Brasil no final do século XIX. Isso pode ocorrer devido à tradição presente na cidade ser majoritariamente cristã e conservadora.


A exposição Terreiros de Fé trouxe para Jataí a possibilidade de um debate historiográfico a partir da visão de outros grupos sociais muitas vezes deixados à margem do tema devido à interpretação de grupos favorecidos socialmente.


São extremamente escassas as pesquisas sobre os candomblés na cidade, possuindo até o momento apenas um resumo expandido publicado em anais de evento sobre o tema dentro da região, denominado “Candomblé: miscigenação genuinamente brasileira “uma visão sobre as influências e comportamentos religiosos na cidade de Jataí 2008”, de Thiago Leandro da Silva e Danielle Sousa Marques.


A exposição oferece a possibilidade de uma educação intercultural dentro das escolas, especialmente na disciplina de História, sobretudo a partir da perspectiva da história local. Isso se levada em consideração a presença na exposição de alunos e professores de ensino básico, o que viabiliza a implementação da lei 10639/03, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica.


METODOLOGIA


A pesquisa teve como objetivosapresentar o conteúdodos painéis da exposição Terreiros de Fé; apresentar os principais dados sobre os candomblés jataienses que constam nos documentos orais produzidos na pesquisa que antecedeu a exposição; apresentar uma proposta didática a partir das imagens e da matéria dedicada à exposição “Terreiros de Fé” no site da Prefeitura de Jataí; demonstrar que a exposição Terreiros de Fé propicia subsídios para uma história afro-brasileira em Jataí e para uma educação intercultural e contribuir para a implementação da Lei 10639/2003.


RESULTADO E DISCUSSÕES


Para esclarecer mais detalhadamente o que são os candomblés, será utilizado como base bibliográfica Reginaldo Prandi, que na obra “Segredos Guardados: Orixás na Alma Brasileira” afirma que:

O candomblé é o nome dado a religião dos orixás formada na Bahia, no século XIX, a partir de tradições de povos iorubás, ou nagôs, com influências de costumes trazidos por grupos fons, aqui denominados jejês, e residualmente por grupos africanos minoritários (PRANDI, 2005, p.20).

Já Vagner Gonçalves da Silva, em “Candomblé e Umbanda: Caminhos da Devoção Brasileira”, apesar de trazer a mesma percepção do que é o candomblé, acrescenta dizendo que:

Inicialmente o termo usado para designar os adeptos do candomblé era o “calundu”, palavra de origem banto que está relacionada com a dança, cantos, música, invocação de espíritos, sessão de possessão, adivinhação e cura mágica. O candomblé é a derivação atual desses cultos africanos. Os calundus foram, até o século XVIII, a forma urbana de culto africano relativamente organizado, antecedendo as casas de candomblé do século XIX, e os atuais terreiros de candomblé (SILVA, 2005, p.43).

Apesar de ambos autores escreverem sobre o mesmo assunto é possível observar diferenças nas obras literárias, pois, enquanto Prandi (2005) faz uma explicação detalhada de assuntos de dentro da religião, explicando seus ritos, tradições, semelhanças e diferenças das religiões afro-brasileiras, Silva (2005) abarca, além do já citado acima, problematizações sociais, sobretudo para explicar a posição do negro na sociedade após a abolição da escravatura e seus reflexos na sociedade. Ele explica que “devido às religiões afro-brasileiras serem originárias de segmentos marginalizados da nossa sociedade, como negros, pobres e índios em geral, a construção do processo histórico de formação das religiões afro-brasileiras não é, contudo, uma tarefa fácil” (p.11).

Surgidos na Bahia, terreiros de candomblé atualmente marcam presença em todo o Brasil. Entre os anos de 2002 e 2010, uma série de trabalhos de pesquisa foram publicados sobre as religiões afro-brasileiras em Goiás, mas com recorte situado especialmente em Goiânia (SCARAMAL, 2011). Foi identificado apenas um resumo expandido publicado em anais de evento sobre o candomblé em Jataí, mais especificamente a respeito do terreiro liderado pelo Sacerdote 4,“que veio de Brasília e assim traz consigo a religião, sendo até o final de 2008 o único terreiro de Jataí” (SILVA; MARQUES, 2008, s/p).


Por isso, a exposição Terreiros de Fé desempenhou um importante papel para uma educação intercultural em Jataí, pois permitiu que os estudantes do ensino básico e a comunidade em geral entrassem em contato com a cultura afro-brasileira que marca presença na cidade, mas que é constantemente invisibilizada. Uma educação intercultural é aquela que


(...) reconhece o caráter multidimensional e complexo da interação entre sujeitos e identidades culturais diferentes e busca desenvolver concepções e estratégias educativas que favoreçam o enfrentamento dos conflitos, na direção da superação das estruturas socioculturais geradoras de discriminação, de exclusão ou de sujeição entre grupos sociais (FLEURI,2002, p. 407).

É oque pode ser percebido ao observar o conteúdo dos painéis que compuseram a exposição, os quais passam pela diáspora africana, pelo surgimento dos candomblés, pelas principais características da religião e apontam informações sobre os terreiros de candomblé que marcam presença em Jataí(tabela01).



A exposição Terreiro de Fé recebeu alguma cobertura por parte da imprensa jataiense (tabela 02), com destaque para a reportagem feita pelo Canal TV Jataí em maio de 2017. Em entrevista com o diretor do MH à época, Tauã Carvalho, a jornalista considera o tema da exposição “bem complexo” e pergunta o motivo da escolha do candomblé como tema. O entrevistado responde que há algum tempo queriam levar para o MH um discussão sobre as religiões afro-brasileiras, pois isso não tinha acontecido ainda, e porque dialoga com o tema da Semana Nacional de Museus (Museus e histórias controversas: dizer o indizível em museus).


A pesquisa que antecedeu a exposição gerou fontes orais que passaram a compor o acervo do MH e que têm grande potencial para a escrita de uma história de Jataí que leve em consideração a cultura afro-brasileira presente na cidade. Por meio da análise das fontes, é possível levantar alguns dados sobre os candomblés jataienses (tabela 03).


É possível observar que em Jataí existem pelo menos quatro sacerdotes que lideram terreiros da cidade, um deles natural do estado da Bahia, outro de São Paulo. Somente um deles é jataiense. Em relação à cidade em que se iniciaram, um dos pais de santo se iniciou em um terreiro de Rio Verde, o que pode indicar que exista uma rede de candomblés interrelacionados no Sudoeste Goiano. Também é possível notar que, de acordo com as fontes acessadas, o terreiro que primeiro se instalou na cidade data do ano de 2000, liderado pelo Sacerdote 4 de Airá.

Portanto, entendendo o potencial dos dados apresentados pela exposição Terreiros de Fé para a escrita da história local, para uma educação intercultural e para a implementação da Lei 10639/2003 (que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana), elaboramos uma sequência didática que pode ser usada para o ensino da cultura afro-brasileira na educação básica. Como a exposição não está mais disponível no MH, recorremos à matéria a respeito da mesma que consta no site da Prefeitura de Jataí, que traz elementos textuais e iconográficos. Seria uma espécie de “passeio virtual” à exposição Terreiros de Fé (imagem 01).


CONSIDERAÇÕES FINAIS


Muito embora existam candomblés em Jataí desde pelo menos o ano 2000, sua história ainda está por ser escrita. Para tanto, as informações fornecidas pela exposição Terreiros de Fé, bem como as fontes orais construídas no processo de pesquisa, podem contribuir para a escrita da história local e para uma educação intercultural. Os sacerdotes dos candomblés, por exemplo, consistem em sujeitos ainda não reconhecidos pela historiografia já produzida com recorte em Jataí. O reconhecimento destas informações e destas fontes consiste em um primeiro passo para uma mudança nesse sentido. Ao apresentar a proposta didática com base no site da Prefeitura de Jataí, queremos apontar um caminho possível para a implementação da Lei 10639/2003 a partir de uma perspectiva local.

 
HISTÓRIA LOCAL E EDUCAÇÃO INTERCULTURAL
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COMO CITAR ESSE ARTIGO

MAGALHÃES, Juscilaine Lopes; ULHOA, Clarissa Adjuto. História Local e Educação Intercultural:

Possibilidades a Partir da Exposição “Terreiros de Fé”. In:. Revista Me Conta Essa História, a.II, n.15, mar. 2021. ISSN 2675-3340. Disponível em: https://www.mecontaessahistoria.com.br/post/hist%C3%B3ria-local-e-educa%C3%A7%C3%A3o-intercultural-possibilidades-a-partir-da-exposi%C3%A7%C3%A3o-terreiros-de-f%C3%A9-1 . Acesso em:

 

REFERÊNCIA


FLEURI, Reinaldo Matias. Educação intercultural: a construção da identidade e da diferença nos movimentos sociais. In: PERSPECTIVA, Florianópolis, p.405-423, jul./dez., 2002.


PRANDI, Reginaldo. Segredos guardados: Orixás na alma brasileira. São Paulo: Companhiadas Letras, 2005.


SCAMARAL, Eliesse. Notas bibliográficas sobre a história do candomblé em Goiás (2002-2010). In: Revista Brasileira de História das Religiões. Maringá (PR) v. III, n.9, jan., 2011.


SILVA, Vagner Gonçalves da. Candomblé e Umbanda: Caminhosda Devoção Brasileira. 5 ed. São Paulo: Selo Negro, 2005.


SILVA, Thiago Leandro da.; MARQUES, Danielle Sousa. Candomblé miscigenação genuinamente brasileira: uma visão sobre as influências e comportamentos religiosos na cidade de Jataí, 2008. In: II Congresso Nacional, III Regional do Curso de História da UFG/Jataí, 2009, Jataí, v. 01.

 

[1] O título original do trabalho era “Território, territorialidades e historicidades das religiões afro- brasileiras em Jataí: propostas para o ensino da história local nas escolas” e foi modificado para “História local e educação intercultural: possibilidades a partir da exposição Terreiros de Fé” devido à necessidade de ajustes na temática original, ocasionada pela impossibilidade de continuidade das pesquisas de campo em virtude da pandemia da covid-19.


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